Projeto promissor

Um dramaturgo de Niterói, cansado de assistir aos mesmos espetáculos, decidira montar uma peça inovadora, com diálogos e cenários que fugiam dos chamados clichés de sempre. Ao escolher o elenco, o dramaturgo de Niterói fazia com que os atores assinassem um termo de responsabilidade para se ter a certeza de que todos iriam comprometer-se com afinco ao projeto. Não é necessário listar cada um dos pormenores do termo, mas talvez fosse interessante notar que o décimo e último artigo do documento basicamente isentava o dramaturgo de Niterói de qualquer culpa caso a vida dos atores de alguma forma corresse perigo durante os ensaios. Acontecia que antes de os atores lerem os respetivos textos um assistente de palco amarrava ao pescoço das personagens uma corda cuja extremidade era acoplada a um complexo mecanismo que apertava ou afrouxava o laço de acordo com os caprichos do próprio dramaturgo de Niterói. Se por um acaso ele achasse que os atores não estavam a se esforçar ao máximo, se por um acaso o dramaturgo de Niterói achasse que os atores estavam a fazer, como se diz, corpo mole, ele então acionava de forma gradual o mecanismo para apertar o laço. Por se tratar de um artista muito meticuloso com a própria obra, dir-se-ia obcecado e exigente com a própria obra, o dramaturgo de Niterói não demonstrava qualquer tipo de tolerância com os atores, apertando o laço sempre que lhe desse na gana. Como o palco durante as semanas de ensaios transformara-se em uma verdadeira vala de corpos asfixiados, os polícias tiveram de intervir e finalmente cancelaram o, de acordo com a imprensa local, «muito promissor» projeto do dramaturgo de Niterói — que hoje vive em Camboinhas, a poucos metros da Praia do Sossego.

— P. R. Cunha

Alguns trechos sinuosos e (talvez) paradoxais

Tive o privilégio de participar das aulas do dramaturgo David Mamet e jamais esquecerei das dicas que ele dera ao final do curso: todos os dias, faça sempre algo para a sua arte e algo para divulgá-la, a pouco e pouco; escreva sempre, vá até aos lugares que você acha importante para o projeto no qual está a trabalhar, entre em contato com outros artistas, incremente o texto com atividades relacionadas tais como fotografia, pintura, literatura, cinema; e lembre-se sempre de que um escritor que guarda tudo dentro da gavetinha e espera que alguém o descubra não é um escritor, mas um aluado. 

Dizem que ao anotar um poema o poeta mutila-se — deixa sobre a folha de papel um bocadinho de si. E se há qualquer coisa que se mostre inexplicável para os versos, o poeta meio que enlouquece, ou sai para uma longa caminhada; um passeio pelo oceano durante o entardecer, caso more perto das areias. O importante aqui é ficar com a impressão de que o mundo pode ser capturado, ou melhor, adestrado pelos olhos algo indolentes do poeta, mesmo que ele saiba que o mundo não pode ser nem capturado nem adestrado. Esse engano permite-o sobreviver.

[Relutâncias]

Sentado numa cadeira de praia
as próprias pernas brancas confundem-se
com as armações cor de neve
da cadeira de praia

Nebulosidade matinal
cobre o mar com lençóis
acinzentados
— não vê as ondas

Invade-lhe um pequeno entusiasmo
pela apropriação marítima
sente, de forma prazenteira, sem esforço
que é o dono do mundo.

— P. R. Cunha