A fortaleza

Para J. B.

O hominis intellectualis constrói para si fortalezas — formas solitárias de se sentir confortável. Ele se aloja ao centro, dentro do castelo, e por vezes arrisca-se à janela para se certificar de que ainda estão lá fora, do outro lado do muro, a invejá-lo. Porque, como sabemos, o glamour do hominis intellectualis é a felicidade de ser invejado, à distância. Para manter-se vivo, qual vampiro em busca de sangue, precisa de ser observado com bastante interesse. Ele não pode partilhar a própria experiência com aqueles que o invejam, isto seria fatal. Quanto mais impessoal for o hominis intellectualis, maior a ilusão do seu poder. O mistério faz a pessoa ser múltipla — quando não se diz quem é, abre-se a possibilidade de diversas conclusões individuais e cada um é livre para criar quantas mitologias desejar. O hominis intellectualis sabe disso. Sabe que a imaginação alheia é ferramenta mais adequada para torná-lo ainda mais interessante. A realidade é crua, é direta, monótona. A realidade ceifa, simplifica, empobrece. Está agora o hominis intellectualis sentado à mesa do seu gabinete. Atrás de si uma biblioteca. A biblioteca como símbolo, a dizer que o dono/proprietário é um tipo culto, vivido, tipo que compreende as mazelas existenciais. Não que o hominis intellectualis tenha lido aqueles livros todos, imagina, isso seria absurdo. Certa vez, li em um artigo acadêmico que Bram Stoker teria criado Drácula depois de uma severa crise de ansiedade que tivera diante das prateleiras repletas de livros, muitos, e muitos, e muitos livros, impossíveis de serem lidos numa única vida. Só um diabo imortal conseguiria ler tantos livros, etc. Daí o Conde Drácula. A atitude do hominis intellectualis no próprio gabinete, entretanto, difere um bocadinho: ele adota pose dir-se-ia artificial, pouco à vontade, postura física que sugere antes riqueza, virilidade, distanciamento (de novo a distância). Noutras alturas o hominis intellectualis debruça sobre a balaustrada da varanda, a fingir que não está sendo observado. Ele espreguiça-se, veste-se com primor, com aquela alegada felicidade dos nobres, que estão sempre satisfeitos. A imagem é a do «Exclusive Club» — poucos, pouquíssimos podem se debruçar sobre a balaustrada de um castelo, enquanto lá fora, para além dos limites do muro, a multidão grita, inveja-no. Espreguiçar-se com vestimentas sofisticadas denota prestígio, sedução, autoridade, nem no conforto do próprio castelo o hominis intellectualis quer deixar de ser venerado como hominis intellectualis. Compreensível. Na necessidade de se fazer discurso — afinal, o que seria do acúmulo de conhecimentos sem o compartilhamento —, o hominis intellectualis recorre a vagas referências históricas, algum ou outro trecho poético, talvez a uma anedota moral, nada de muito aprofundado: discurso impreciso, sem sentido, vazio. O hominis intellectualis não pode dar todas as respostas, a multidão dispersar-se-ia. Ele é tão ambíguo quanto uma peça publicitária precisa de ser.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: os fantasmas fugiram de Sintra

Estou no Holiday Inn Lisbon (Continental) a anotar em um papel de carta do hotel os lugares aos quais pretendo ir nos próximos dias e escrevo ao lado de Sintra a palavra INDISPENSÁVEL, caixa alta. Uma brochura mostra o Castelo dos Mouros num dos cumes da serra que abraça a região e fico a pensar nas noites de insônia da minha infância, quando remexia-me sob as cobertas por causa da leitura prematura de Drácula, do Bram Stoker. Trata-se de um castelo imponente ao estilo Game of Thrones e se esperássemos o bastante quem sabe não conseguiríamos observar a sair pelos portões da fortaleza um dândi audacioso e melífluo com golas altas, asas de morcego, dentes avantajados, sobrevoando em meio à neblina com objetivos nefastos.

Então disseram-me que para conhecer melhor Sintra é conversar (e lá ir) com quem melhor conhece Sintra. Tomei meu pequeno-almoço e às oito da manhã encontrei-me com o sr. Jorge, que prometera levar-me ao fantasmagórico distrito de Lisboa.

Coisas estranhas costumam acontecer no alto da serra, disse-me o sr. Jorge enquanto abria a porta do Renault Espace. 

São os fantasmas, ele acrescentara.

Do Holiday Inn até Sintra são 26.4 km — aproximadamente meia hora de viagem com aquilo a que o Google Maps chama de «the usual traffic». Sr. Jorge fez o trajeto em menos de vinte minutos. Não vás fazer xixi nas calças quando lá chegarmos, ele brincou com aquele ar sério e compenetrado que nossos tios bonachões costumam ter enquanto fazem troça.

À medida que o Renault aproximava-se de Sintra o tempo começara a mudar imenso. Em Lisboa o céu era daquele azul clarinho ao qual podemos assistir em Il Decameron, do Pier Paolo Pasolini com a banda sonora do Morricone ao fundo. Às portas da vila, no entanto… nuvens pesadas, neblina, geada. Sintra era outra coisa.

Sintra tem um microclima muito específico, imprevisível, dissera o sr. Jorge.

Se estou num país estrangeiro costumo fazer constantemente um exercício de autocontrole para não me decepcionar. Adoto a postura mais neutra possível: se por um acaso falam que determinado sítio é magnífico, fico já com a pulga atrás da orelha, como se diz, e preparo-me para visitar um sítio legalzinho. Não obstante, se explicam que determinada cidade é terrível, que ali não há nada, vou até lá com o coração aberto, pronto para ser surpreendido positivamente.

Noutros termos, sou uma embarcação de expectativas que vai para-lá-e-para-cá ao sabor dos comentários nativos, a aguardar o juízo final, isto é: pisar no sítio eu mesmo, tirar as minhas próprias conclusões, etcétera.

À moda Lisboa, Sintra — cujo brasão com lua crescente e estrela revela logo as raízes árabes — também possui prédios coloridos a contrastar com telhados cor de laranja, ruas simpáticas com um leve cheiro a açúcar queimado que dão a um pequeno nenhures. Geográfica e arquitetonicamente é sem dúvida um sítio muito promissor àqueles que pretendem vagar de maneira despretensiosa durante o resto dos tempos depois de, como diria Eugénio de Andrade, bater as botas.

No entanto, quando se lá chega sente-se alguma pitada de desilusão. Sintra é a clara evidência do turismo moderno, do texto publicitário construído para atrair gentes de toda a parte, das fotografias livres do excesso humano, livres do barulho das canções techno-pop, da balbúrdia dos telemóveis, dos gritos (em espanhol, italiano, inglês, mandarim, russo e contando) dos transeuntes desesperados à procura da casa de banho.

Parecia-me que Sintra não estava a sair-se muito bem com as almas penadas. Comentei com o sr. Jorge que conseguia imaginar um passado fantasmagórico à vila, mas que do jeito que as coisas estavam agora (sete de dezembro de dois mil e dezoito), não podia sequer considerar um brevíssimo rendez-vous sobrenatural. Os fantasmas, sabemos, não gostam de multidões com câmeras a fazer cliques a cada dois passinhos. Os fantasmas preferem o vazio, pensei, são seres minimalistas.

Se havia mesmo uma população fantasmagórica aqui, insisti eu ao sr. Jorge, receio que há tempos já tenha corrido algures, com muito medo dos animais humanos.

Agora estou sentado à mesa da padaria Piriquita deliciando-me com um travesseiro de Sintra — iguaria a respeito da qual pretendo escrever noutra ocasião. Atrás de mim, um miúdo italiano chora à mamã porque o irmãozinho pegara-lhe a bola com a silhueta do Cristiano Ronaldo estampada; à direita, uma espanhola arrisca-se no portuñol a pedir água fresca com gás; à esquerda, uma croata mostra-se completamente perdida. Chove a cântaros. Um altifalante estridente toca canções natalinas interpretadas por Bing Crosby, Dean Martin, Fred Astaire.

E a impressão é que cheguei à vila de Sintra tarde demais.

— P. R. Cunha