devaneios da própria máquina de escrever (episódio #41)

não sou humano. vivo dentro do p. r. cunha. somos vários, milhares. quero dizer: eu sou eu, único, mas há outros da minha espécie que se hospedam noutras cabeças literárias. alguns tentaram nos tirar do anonimato, estudaram-nos, perseguiram-nos, escreveram teses sobre os nossos modos, procuraram termos para nos rotular — «gêmeo indomável», «homônimo», «duplo», «deus», «pseudônimo», «consciência», «diabo», «doppelgänger». nobres tentativas, mas, de minha parte, digo que a nomenclatura ainda deixa um bocadinho a desejar. eu gosto de fotografias antigas, cartografias, café sem açúcar, john cage, do teatro de tadeusz kantor, história das guerras (quentes, mundiais, frias, regionais), dos contos mais obscuros da susan sontag. eu acumulo, p. r. cunha escreve. ou melhor, transcreve. & às vezes ele até recebe alguns elogios & quando isso acontece p. r. cunha aceita-os com certa vaidade. ah!, mas quando as coisas não vão lá muito bem, quando as ideias não surgem com a frequência que ele tanto gostaria, p. r. cunha — indigno!, cafajeste!, sem-vergonha! — aponta o indicador para a têmpora & culpa-me, sem pudores. onde já se viu… há também alturas em que me perco em divagações aleatórias: a vida dos artistas, dos gênios, as noites de boemia, a bebedeira, o canto de um pássaro, a perdição, o delírio, os sabores, a voz de uma mulher. até perceber que p. r. cunha está ali, à espreita. o danado está a tomar notas — vida, artistas, pássaros, boemia, bebedeira, voz, mulher, noite, sabores. no dia seguinte, leio qualquer coisa no blogue «dele», ou num esboço de capítulo do livro «dele», ou um artigo para revista com as MINHAS ideias, com os MEUS devaneios. é terrível. por isso estou aqui a colocar, como se diz, os pingos nos «is». cansei, sim, estou farto de tanta exploração. & agora, sem nada a perder, desafio o meu hospedeiro a publicar-me. vejamos se ainda lhe resta alguma migalha de dignidade.

— p. r. cunha (?)

Imagens invertidas

Para a Lunna Guedes

Escritor é, amiúde, um ser que gosta de observar. Criatura inclinada à chamada «busca de padrões». E como fica imenso tempo isolado, longe com os próprios pensamentos, acaba que encanta-se quando se depara com um qualquer semelhante — um doppelgänger.

Tais observações podem também desconcertá-lo. Nada é assim tão simples com escritor. Como no caso de Jason Molina, que sentia muita culpa por ser artista, por ter as liberdades de um artista. Molina perguntava-se por que cargas d’água ele não era o sujeito a limpar o lixo, por que cargas ele era o tipo que ficava a observar o sujeito a limpar o lixo. Aquilo não lhe parecia correto. 

Ociosidade constrangedora, dir-se-ia. E o doppelgänger se transforma em antimatéria.

Os físicos explicam que a antimatéria é composta de antipartículas — ou seja, partículas com cargas opostas, diferentes das que podemos encontrar na matéria normal (à guisa de um breve exemplo: as antipartículas dos prótons são os antiprótons [basicamente, prótons com carga negativa]). Quando partículas e antipartículas se aproximam, o resultado é um aniquilamento de grandes proporções. 

Isto é: no mundo subatômico, encontrar-se com um doppelgänger não é nada romântico. Os escritores Edgar Allan Poe e Robert Louis Stevenson pareciam compreender isso melhor do que toda a gente. Deparar-se com um igual com cargas opostas (o estranho caso do dr. Jekyll [Je: «eu» em francês / kyll: corruptela de kill {«matar» em inglês}] e sr. Hyde [corruptela de hide {«esconder», «ocultar» em inglês}]) por vezes pode gerar inquietações irreversíveis.

Os gatos, sabemos, são os doppelgängers selvagens de uma enormidade de escritores — que estimam a independência dos felinos, o apreço pela solidão («Quem não tem cão, caça como o gato», ou seja, sozinho). Mas trata-se de um olhar que também exige certas longitudes. A depender do momento pelo qual passa o escritor, essa análise felina pode deixá-lo irrequieto. Nem todos os gatos vão lhe parecer bichos solitários e felizes. Principalmente quando o escritor percebe (eis novamente a «busca de padrões») que muitos gatos tendem a voltar às casas cujos humanos davam-lhe mais carinho e comida.

Escritor que busca compreender essa sorte de fascínio, pois encontra nessas contradições uma série de possibilidades, de conjecturas, de fins. Então escreve poemas sobre os doppelgängers, sobre os gatos, porque a solitude com ressalvas dessas figuras pode ser a dele num futuro bem próximo. Quer saber, portanto, se numa altura, depois de correr o risco de aniquilar-se, ele também buscará a companhia de humanos que davam-lhe carinho, comida… um abrigo.

— P. R. Cunha

Na dissolução do espaço e do tempo de uma partida de xadrez, também o enxadrista se desintegra

Ajeitou as peças com esmero,
e viu-se desaparecer no tabuleiro,
no jogo de xadrez,
num combate glaciar.

Há anos que arquiteto uma fuga do mundo para passar o resto dos meus dias a jogar xadrez. Uma escapada, como se costuma dizer, para apaziguar a angústia que me tolhe, etc. Jogar o jogo de xadrez, ter ao meu lado uma chávena de café — como se essas coisas fossem as derradeiras. AMBIENTE DO JOGO DE XADREZ: cabana alpina à Nietzsche, sem qualquer sinal de vida além do ronronar distante dos aquecedores e o som do nevão que cai alhures. ADVERSÁRIO DE XADREZ: semblante indiferente, como que perdido num labirinto de jogadas mentais que aos poucos se materializam ao tabuleiro; ele-ou-ela inclina a cabeça para trás, na atitude de quem concentra-se com afinco imperturbável. Adversário de xadrez (ele-ou-ela) demonstra, portanto, uma frieza assustadora; e quando me vejo perante essa criatura polar reconheço, em todos os sentidos do termo, o meu íntimo opositor (doppelgänger). Que coisa tão estranha! DURAÇÃO DO JOGO DE XADREZ: tempo indeterminado, um jogo de xadrez sem cronometragem. INÍCIO DA PARTIDA DE XADREZ SEM CRONOMETRAGEM: os enxadristas analisam-se como dois condenados que se dirigem ao cadafalso; têm no rosto aquela vã tentativa de coragem. Resignaram-se. Os enxadristas aguardam o movimento do adversário em absoluto silêncio. Escutam o tamborilar da neve no tejadilho. Os enxadristas agora jogam o xadrez — para dar cor a uma vida que já lhes feriu imenso.

— P. R. Cunha