Dois blocos com pensamentos concretos — Brasília

Quando Niemeyer foi convidado por Juscelino Kubitschek para desenhar os edifícios de Brasília, o arquiteto já tinha mais de meio século de planeta Terra. Deram-lhe oportunidade para construir uma nova morada para si e para milhares de brasileiros; um refúgio livre, cheio de curvas, onde o modernista poderia aproveitar os, como se diz, anos de glória. Porém, depois do exílio durante os 1960, Niemeyer jamais olharia para as traseiras brasilienses com a mesma ternura incondicional. Preferiu a França, as praias do Rio de Janeiro, o calor das belas raparigas cariocas. Vivera até aos 104 anos, a dizer adeus aos amigos, a sentir aquele vazio amargo de quem foi traído pelo filho transtornado.

Pistas e pontes a cair, patrimônio cultural da humanidade, estádio e aeroporto que custaram bilhões aos cofres públicos, rodovias esburacadas à moda superfície lunar, prédios sucateados, jardins artificiais, bibliotecas inacabadas, estantes sem livros, torre de televisão a rachar, funcionários públicos que se jogam do Congresso Nacional, cidade-automóvel que não suporta automóveis, novos (e velhos) militares a dar tiros para o alto, os ciclistas atropelados, as quadras fantasmagóricas, a W3, a L4, a L2, o calor, o barro, a terra vermelha — Brasília.

— P. R. Cunha

Balões & Saída Norte

Boas! Este electro-sítio, residência de minhas loucuras, completa hoje três meses. Numa palavra: o blogue ainda vive e respira — assim como o próprio autor. E, o que é mais, há-de continuar a respirar, se a fonte da saúde agraciá-lo com regojizo e boa disposição.

«Um maquinista gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino», é Blaise Cendrars, citado por Oswald de Andrade — citados por mim.

Assim prossigo, com grande entusiasmo.


» Piloto / Plano / Brasília

Superquadras (SQS ––––––––– SQN)

[112 Sul]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
guarda-se a tristeza
das coisas que não foram

[405 Sul]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
sozinhas, as pessoas
tomam o pequeno-almoço

– – – – – – – – EIXO

[106 Norte]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
esconde-se o Sol
que não quer mais se ver

[309 Norte]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
por vezes há apenas
uma outra superquadra.


IMG_1465Mesa de trabalho deste autor, um seu criado


» Amantes

Certa mulher chega a casa e está a beijar o amante na sala de visitas. Ambos caminham lentamente para o quarto dela, entram no cômodo escuro e ainda não notaram que o marido da mulher encontra-se esticado sobre a cama, com os olhos cerrados. A mulher e o amante fazem uma verdadeira algazarra, mas o marido não percebe. É muito estúpido. Ou talvez…

— P. R. Cunha

Anuncia-se o lançamento do livro «Quando termina», de P. R. Cunha e Paulo Paniago

Brasília, Distrito Federal

» Não é sem infinita alegria que chegamos ao conhecimento de que os autores P. R. Cunha e Paulo Paniago conseguiram, com enorme trabalho e não poucos sacrifícios de toda a espécie, finalizar um ambicioso projeto literário. Trata-se de Quando termina, livro de contos vencedor do Prêmio Cidade de Belo Horizonte 2012. Os escritores convidam para o lançamento dessa simpática obra: esta quinta-feira, a partir das 18h, ao Ernesto Cafés Especiais (115 Sul).

» Ocasião àqueles que sabem dividir com método o seu tempo, deixando algumas horas disponíveis para cuidarem também do espírito, pela leitura de escritores locais.

» Quando termina tem um desenho semelhante ao de um jogo de xadrez, ou mesmo ao mapa de uma cidade com múltiplos meandros, onde situações imprevisíveis se acumulam em toda a parte. Escrito a quatro mãos, um dos autores começa os primeiros parágrafos e passa a vez ao outro — que para, reflete, coça as têmporas, imagina o movimento adequado, toma notas, responde. Por vezes a situação escala, a ponto de se tornar difícil saber quem escreveu o quê. Tanto melhor. As diferenças desapareceram, as suturas se tornam imperceptíveis, ao passo que o leitor pode manter-se sempre atento àquilo que realmente importa numa obra de ficção: o movimento de personagens em tabuleiros que simulam um jogo ainda mais inquietante — o jogo da vida. (Assim o diz a quarta capa.)

» Apesar de avançado em anos, Quando termina ainda conta histórias com grande segurança narrativa e com toda a verve e entusiasmo de outrora. É ainda um livro bastante atual, portanto; de liberdades por vezes arrojadas.

» O livro tem a capa negra como a sombra, revestimento de primeira qualidade, mecanismo de abertura aperfeiçoado. Exterior elegante, boa legibilidade, construção sólida cuidada de forma a resistir a todos os climas. Custa 40 dinheiros.

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