Período de gestação (é hora de diminuir a temperatura do forno, o bolo literário [pelos vistos] formou-se)

Ambíguas sensações invadem-me nesta altura em que posso, finalmente, pronunciar a frase que costuma inquietar 200 em cada dez escritores: terminei de escrever o livro.

Se por um lado o alívio e as inúmeras possibilidades deixam-me extasiado (e [para ser sincero] muito orgulhoso/vaidoso)… fica também um vazio difícil de preencher — como quando temos que dizer adeus a quem amamos imenso, ou, mais especificamente, aquilo que os pais devem sentir ao olhar nos olhos dos filhos que irão estudar algures por tempo indeterminado (talvez para sempre).

A senhora Madison reclamava com toda a gente sobre o facto de não suportar mais os caprichos do senhor Madison, que o velho e rabugento Madison causava-lhe uma ojeriza incontornável. Porém, quando o senhor Madison morreu, a senhora Madison caíra numa profunda depressão, chorava de saudades todas as noites antes de dormir, ao virar-se para o lado da cama em que o senhor Madison deveria estar.

De uma forma grotesca, insensível, metaforicamente preguiçosa: o escritor é bem a senhora Madison, e o livro que ele escreve é o senhor Madison.

Tarefa absurda, que numa altura parece nos consumir (ah!, o doce ardil da terceira pessoa do plural), que nos coloca diante de neuroses, tira o nosso sono, mas insistimos, e lá estamos novamente debruçados sobre o caderninho, ou sobre o teclado do computador, a escrever o nosso maldito/bendito livrinho.

Num rito de passagem que já se tornou hábito, compartilho convosco o que esta segunda batalha literária ensinou-me, ou simplesmente os desafios que ela veio a reforçar ainda mais. Eis:

• Seu livro nunca será escrito se você fugir dele;

• Não seja cobarde, assuma as responsabilidades da empreitada livresca (dedicação, disciplina, comprometimentos, sacrifícios etc.) de boa-vontade. Cada dia é uma incógnita, uma luta contra as mazelas da preguiça e da insegurança (a obra é boa?, estou a perder o meu tempo com este troço?, alguém além de mamã vai ler isto aqui?, e assim por diante…);

• Trabalhar sem amaldiçoar excessivamente a literatura é vital para a continuidade do livro;

• Os livros que mais valem a pena (penso por alto: Moby Dick [Melville]; Ulysses [James Joyce]; Extinção [Bernhard]; Os anéis de Saturno [Sebald]; A piada infinita [DFW]; Os ensaios [Montaigne]; A vida e opiniões de Tristram Shandy [Sterne]) são também os livros mais difíceis de escrever, obras trabalhosas que precisam de tempo. Portanto, tenha paciência;

• Lembre-se de que as diversas espécies de pessoas escritoras que habitam este planeta também estão à procura de editoras, também querem ganhar os prêmios literários, também querem ser lidas. A melhor arma contra o desânimo editorial é ser um bocado persistente;

• Comece a escrever o livro hoje. Agora. Se calhar, pare de ler imediatamente este texto disparatado e vá (ou melhor, corra!) até à escrivaninha; escreva!;

• Pare de viver em um mundo de sonhos, romantizações, fantasias, deslumbramentos. Não sei se ficou claro: mas o seu livro não se escreverá sozinho. Enquanto você fica por aí gabando-se, a dizer que é um escritor talentoso e promissor, enquanto você ilude a si mesmo, o livro encontra-se hibernado e inutilizado. Fale menos (de preferência, não fale nada), escreva mais;

• Estabeleça para si um cronograma saudável e realista. Trabalho, leituras, pesquisas apropriadas, atividade física, alimente as necessidades do seu coração (isto é: não negligencie cônjuges, familiares, amigos);

• Em excesso, você se torna «bêbado» pela literatura — acúmulo de substâncias fatigantes. Com um adequado descanso as toxinas são eliminadas, tornando-o (kudos!) sóbrio outra vez;

• A procrastinação já derrotou muitos escritores magníficos, escritores que acreditaram ingenuamente que a Providência (chame-a como preferir) estaria à disposição a tempo inteiro, bastaria uma tarde soalheira, quando desse na telha do escritor, para simplesmente escrever o maior romance de todos os tempos. É chato dizê-lo, mas, a despeito dos mitos que enaltecem escritores iluminados, isto nunca acontece. Não seja um dependente de astros, cartomantes, alienígenas, horóscopo chinês, ferraduras da sorte, figas, amuletos egípcios ou coisas desta natureza mística. Não deixe para depois o que você pode escrever imediatamente;

• Um certo sentimento de urgência, quando bem dosado, pode fazer maravilhas;

• Afinal, a vida é curta — curtíssima.

— P. R. Cunha

Instafobia (a experiência de um antissocial nos limites do Instagram)

Estive em Niterói em maio e tirei uma porção de fotografias. Eu andava para cima e para baixo com a minha Canon T2i (cujo apelido é «Sei Shōnagon» [singela homenagem à autora de O livro do travesseiro]) e numa altura a recepcionista da pousada onde eu me hospedei, moça muito bonita por sinal, pediu-me para, como se diz, dar uma espiadinha nas fotos. Você não pode guardá-las consigo, ela falou, crie conta no Instagram, mostre-as para o mundo. 

Quem me conhece há mais de duas semanas sabe que tenho forte queda por damas de excelente figura que emitem delicadas opiniões a respeito das minhas fotografias. Ao passo que criei a bendita conta no Instagram. E como também não sei me divertir, comecei a escrever uma espécie de relatório informal (sic) a fim de problematizar as experiências como usuário da maior rede de compartilhamentos de imagens do mundo. Este sou eu, senhoras & senhoras.

Desde o início, estava ciente de que a empreitada só funcionaria se eu utilizasse a conta como portfólio — a saber: P. R.-fotógrafo-somente-atrás-das-câmeras-e-eis-aqui-as-minhas-fotos. Quase como se fosse uma continuidade da postura que costumo adotar neste blogue; só que em vez de palavras, escreveria à moda pixel. 

Bom. Toda essa lenga-lenga de distanciamento racional é muito bonita na teoria, mas na prática deslizei (diversas vezes) nas bananas da vaidade e publiquei retratos desta minha jovem face — mesmo que apenas em «Stories» e com a nobre finalidade (i.e.: desculpa esfarrapada) de divulgar projetos musicais.

Minhas primeiras publicações foram um verdadeiro, como é mesmo a palavra… fracasso. Cinco, sete, no máximo nove curtidas — ou likes, se preferir. A verdade é que nem a sempre encorajadora mamã estava a dar muita atenção para as minhas tentativas de socializar na rede web. Meu filho, ela disse, você não tem paciência para essas coisas, e aposto esta casa como daqui a um mês você já vai ter desativado a conta.

Pois vejam como a vida é irônica… passaram-se dois meses, a conta sobrevive, e se eu tivesse feito um contrato formal com mamã (assinaturas reconhecidas em cartório, advogados, testemunhas etc.) hoje teria uma casa para chamar de minha. Não o fiz, paciência.

No meu despretensioso «Dossiê Instagram» — a nomenclatura é temporária — dou especial atenção ao modus operandi dos seres humanos que ali compartilham, conversam, gostam, odeiam, ignoram, paqueram, ironizam, aparecem, desaparecem, seguem, deixam de seguir. E antes que alguém me acuse de charlatanismo, esclareço que, em certa medida, tive/tenho/terei um pouquinho de cada perfil analisado. Então é isto: selecionei alguns excertos da pesquisa e gostava de anexá-los à guisa de recreio.

Minhas calorosas saudações,

— P. R. Cunha*


[ANEXO: DOSSIÊ INSTAGRAM / EXCERTOS]

O perfil artista frustrado
Aquele ser humano que publica fotos estranhas, mas que prefere acreditar que são fotos incríveis, surreais; comporta-se como se fosse um fotógrafo incompreendido, um fotógrafo do futuro, à espera do verdadeiro reconhecimento que lhe convém. Amiúde, comenta com os amigos que «os usuários do Instagram não sabem apreciar arte, e é por isso que só recebe duas curtidas a cada postagem», esquecendo-se, inclusive, de perguntar por que diabos nem os próprios amigos estariam «apreciando» esse amontoado de esquisitices.

O perfil caça-likes
Este ser humano vai curtir a foto de toda a gente, inclusive as fotos abstratas (na falta de melhor termo) dos artistas frustrados (ver perfil anterior). E tudo isso em troca de corações. Parece claro que o cúmulo dessa prática é a famigerada hashtag «likeforlikes» — e que tais relacionados.

O perfil à espreita
Basicamente, aquele usuário que monitora todos os seguidores, e quer saber quem está curtindo as suas fotos, e quem começou a segui-lo, e quem deixou de segui-lo, e se alguém deixou de segui-lo ele bloqueia esse alguém, e passa dias, semanas, um bocado injuriado a questionar-se por que esse alguém deixara de segui-lo, e assim por diante.

O perfil voyeur
Há aos montes. Este introspectivo ser humano raramente compartilha alguma coisa e por vezes só sabemos da sua existência quando vemos o rosto dele nos registros das «Stories». Ingênua variante voyeurística: o usuário que aprecia a fotografia alheia, acompanha francamente as publicações dos colegas, mas de fato não tem muito tempo (ou paciência) para atualizar a própria conta.

O perfil crítico-fotográfico/só-que-não
Se minha opinião valesse para alguma coisa, diria que este é o perfil mais odioso desde que o mundo é mundo. Trata-se daquele ser humano que se acha entendedor das belas fotografias, garante ter muito conteúdo, uma reputação a zelar, não pode se expor curtindo «qualquer coisinha por aí» (palavras dele), só vai curtir a foto alheia se a imagem for nível-National-Geographic para cima. Consigo claramente vê-lo esparramado num sofá com terríveis almofadas verdes, a empanturrar-se com toda a sorte de salgadinhos industrializados (Ruffles, primordialmente), a dar o scroll down e o scroll up com aquela patética fisionomia de desdém, a dizer: esta foto não merece o meu apreço, esta outra foto é ruim, que fotógrafo medíocre. (Desnecessário ressaltar que o perfil crítico-fotográfico/só-que-não jamais curtiria uma publicação do perfil artista frustrado).


*Numa rara demonstração de coragem, humildade e resiliência, o autor deste blogue compartilha aqui o endereço da própria conta no Instagram: @pierre_cunha

O que a ansiedade do P. R.-civil ensinou ao P. R.-escrevinhador

» Estipule metas realistas;
» Chávena de café;
» Mantenha o traseiro sobre a cadeira;
» Não espere por nenhuma inspiração metafísica;
» Chávena de café;
» Escreva sempre, mesmo quando aborrecido;
» Não comece as atividades do dia seguinte antes de terminar as atividades de hoje;
» Chávena de café;
» Tenha sempre uma boa noite de sono entre todas essas coisas.

— P. R. Cunha