Dias / três

É do Harold Pinter que eu gosto mais, sabes?, ela disse. Fala de mim um bocadinho — também gosto do jeito que tu escreves.

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A viagem é um efeito Doppler: alastra-se. Início, difuso; fim, incerto. Quantas vezes não precisei de prolongados distanciamentos à guisa de digerir metrópole alienígena?

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Fotografia
escrever —
à luz.

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Niterói é uma cidadela nostálgica, casa das férias, da meninice. Lembranças que ficaram muito para trás no passado. Niterói nunca foi minha, sempre foi dos meus pais, do meu irmão mais velho. Ela não se incomoda, recebe-me com carinho, acolhe-me com esmero. Niterói por vezes é ausência, é saudade, que dói, destrói, corrói. Niterói.

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E só havia mais uma pessoa no Icaraí Café — ela. De manhãzinha, passeio no Campo de São Bento; fiquei um bocado parado ao sol, a pensar em qualquer coisa, ao que minha pele possui agora aquele curioso tom vermelho-molho-de-tomate-aguado. Ela olhou para a chávena de café, e depois para mim, daí olhei para ela, e ela olhou para a chávena de café, e assim por diante. Não nos movemos. Apenas olhos, chávenas de café, vermelho-molho-de-tomate. Até que os passos afastaram-se, e então silêncio. Como se ela nunca lá tivesse estado.

*

Daqui às vezes ouve-se o Atlântico. Mas é precisa muita atenção, porque ondas preguiçosas:

Ao mar
os rapazes
esperam
as moças
esperarem
as senhoras
e os senhores
à espera
da velhice
passar.


Texto e fotografia: P. R. Cunha

Dois embarques

Em maio de 2016, eu partira de Brasília com destino a Niterói na esperança de superar ao oceano marítimo um desassossego particularmente perturbador: mistura de ansiedade, com saudade, com aflição por achar que nunca terminaria o meu livrinho (Paraquedas, um estudo filosófico), que já há tempos estava a escrever. Indizível melancolia por flertar com a minha finitude, com o meu, como se diz, «eterno processo de dissolução extremamente lento».

— Brasília, para escapar daqui só indo para Saturno; ou para Niterói.

De manhãzinha, antes de sair para as caminhadas aparentemente sem destino, sentava-me à máquina de escrever que pertencera ao meu papá e datilografava:

Regresso a Niterói, que me é agora tão estranha como antes me fora familiar. O apartamento da minha avó fica no 24º piso. Daqui se vê até muito longe a toda a volta. Inclusive o desengonçado morro com formato de cavalo, atrás do qual dissipam-se as lacrimosas ondas do Atlântico. Ali está um oceano onde começa a viagem para Portugal — ou para a morada dos náufragos. 

Poder deixar a vista espraiar-se até tão longínquas paragens, sem dúvida, liberta o coração.

Há dias
em que
não percebo
nada de mim.

Maio de 2018 — muito cansado, ralado e estropiado, voltarei novamente a Niterói a ver se encontro uma tranquila noite de sono, com a certeza de que a minha juventude, ou melhor, de que aquele tempo maravilhoso em que tudo ainda era possível, já começa a se despedir definitivamente deste desventuroso narrador.

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