devaneios da própria máquina de escrever (episódio #49)

[da importância de se manter um diário.] certo, você está a esperar o autocarro, ou dentro de um anfiteatro durante o intervalo do espetáculo, ou na fila da cafeteria, ou a ler os jornais no saguão do hotel — quando alguém diz algo realmente interessante, uma faísca de ideia, aquela frase de certeza é a semente de uma narrativa (um romance, se calhar). você agora apalpa todos os bolsos da calça & não encontra nada. sem caneta, sem bloco-notas. a frase, como costuma acontecer com todas as frase, desvanece, torna-se opaca, fantasmagórica, até se mostrar apenas um rastro amorfo, como um lençol após incêndio doméstico. alas! depois de ter passado por incontáveis ocasiões desse gênero, resolvi finalmente comprar um diário. um diário portátil, pode-se dizê-lo, já que sempre me dei muito bem com os cadernos que costumo preencher de maneira um bocadinho neurótica durante as leituras da praxe. mas precisava de algo que eu pudesse levar para todos os lados. não é nenhum moleskine, não tem capa de couro, não é item de colecionador. trata-se de uma cadernetinha 11 x 16 cm fabricada pela tilibra que me custara doze dinheiros em papelaria popular no centro de taguatinga, distrito federal. a primeira medida que tomei foi garantir a mim mesmo que nunca, em hipótese alguma, mostraria o diário para vivalma. pois sei que quando quero mostrar algo a alguém acabo invariavelmente me policiando: importo-me com a tipologia, deixo de escrever termos inadequados (férteis adubos do fluxo de consciência), fico com medo de rabiscar & de repente arruinar a estética da página &tc. DIÁRIO SECRETO, escrevo na primeira página, sentindo-me um ingênuo miúdo do primário. mas que assim seja. por vezes, pego-me distraído, estou debruçado para diante do bloquinho com papel cor de creme, meu banco de dados às proliferações de possibilidades, discorro a respeito do baloiço moroso dos galhos de uma sibipiruna («caesalpinia peltophoroides»), sobre a importância de se manter um diário. estou feliz.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #30)

a fábula dos três porquinhos narra a trajetória de três irmãos suínos que numa altura dizem para a mãe: é isto!, vamos embora & cada um vai construir a própria casa. (a depender de idioma/região/didatismo/&tc., o início pode sofrer algumas variações específicas [como aquela em que a mãe está {implícita &/ou explicitamente} de saco cheio dos porquinhos & meio que os expulsa para enfim entregar-se ao merecido momento de sossego]. o irmão mais novo — onde ele estava com a cabeça? — constrói casa de palha; o lobo vai, assopra, a palha cai. o irmão do meio, constrói casa de madeira; o lobo vai, assopra, a madeira cai. o irmão mais velho é arisco & ousado, constrói casa de tijolo, o lobo vai assopra, assopra, assopra, assopra, a casa permanece. via de regra, os porquinhos vivem felizes para sempre dentro da casa de tijolo.

essa estória costuma me oferecer interessantes gatilhos filosóficos.

um professor de biologia do ensino médio me dissera certa vez que as árvores com raízes mais seguras são aquelas que precisam de resistir constantemente a ventos devastadores. as árvores frágeis seriam as que crescem nos vales calmos & ensolarados.

«assim como as árvores», conta-nos um antigo estoico, «as pessoas também podem se beneficiar das tempestades & dos ventos fortes — pois as intempéries ensinam a manter a calma, a disciplina; trazem resiliência.»

em novembro de 2009, pouco depois da minha temporada na rússia, estava esparramado na cama a ouvir mikhail glinka & tive aquilo a que costumam chamar de sonho lúcido. vi-me sentado à escrivaninha de uma casa perto do oceano, chávena de café, tabuleiro de xadrez, calhamaço do dostoiévski jogado despretensiosamente numa poltrona felpuda. ao fundo no horizonte, um borrão de nuvens cinzas carregadas de chuva & eletricidade se aproximava. foi quando tive a certeza de que não queria ser jornalista, não fazia sentido ser jornalista, ser jornalista estava mesmo fora de questão. largaria tudo para me dedicar à literatura, aos livros.

estou a completar, portanto, dez anos de atividades literárias — de madrugadas intranquilas, manhãs absolutamente adoráveis, tardes duvidosas, sonos esperançosos, ciclos inconstantes, ventos fortes, tornados, tempestades tropicais, achados & perdidos, sempre a lembrar daquela frase de epiteto: «antes de mais nada, diga para si mesmo o que deseja ser, daí faça o que precisa de ser feito para sê-lo».

sim, ainda estou a fazer o que precisa de ser feito para sê-lo. estou a exercitar-me, dia-após-dia, a cair, a subir, a descer — a colocar em prática tudo o que vejo & aprendo & descubro & escuto durante a jornada. (evoco, a título de parêntese, o surfista que necessita de encarar ondas gigantescas até finalmente aprender a domá-las.)

a boa notícia é que já consigo enxergar a tal casa perto do oceano. ela está ali, não muito longe, sobre as falésias, com uma escrivaninha à varanda. & quando o desânimo ameaça fechar as pálpebras, o barulho dos trovões mantém a caminhada nas trilhas.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #8)

(espécie de epílogo aos devaneios anteriores [#7])

poucos ofícios se alimentam tanto da procrastinação quanto a escrita. a falta de ideia que se transforma em mote para o escritor, pois lá está ele metendo-se a anotar justamente sobre ausências. metalinguagem, o espelho do sujeito que se volta para a prática em si, aos verbos, à fazenda gramatical. alguém entra na sala do escritor & se depara com uma figura ligeiramente curvada à mesa. o escritor diz: «escrevo sobre a não-escrita, escrevo a respeito de não ter nada para escrever», & o certo alguém acha isso curioso, magnífico, edificante. mas se acompanhasse um ensaio de ballet & escutasse a bailarina dizer que está a praticar a não-dança/dança-negativa/ausência de ballet, de certeza que tomaria a moça por louca. ou um pintor que garanta: estou a pintar um não-quadro. ora, esse aí desafia as teorias de física, perdera as estribeiras.

(…)

mui breve anatomia da escrita: escrever é edificante, horripilante, traz paz, traz guerra, escrever é bonito, é feio, pode esclarecer, pode obscurecer, é poético, é sintético, ruídos, silêncios, verborrágico, antropofágico, bibliofágico, escrever destrói, escrever constrói, é céu, é noite, nuvens, tempestades, tardes soalheiras, escrever afina & desafina, amplia & reduz, micro/macro, é um pugilista em constante treinamento, escrever acalma para desassossegar, é fogo-&-neve, paradoxo contraditório: escrever é vício.

— p. r. cunha

Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – terceira parte (breve história da criação do céu, da terra e da angústia)

Não é bem o estímulo de ser lido que me faz querer escrever — pensei enquanto tentava desenhar os contornos da cordilheira, cicatrizes geológicas que se estendiam ao longe. Obviamente que atingir o sistema neurológico de um outro ser humano, causar reflexões ali dentro (ou pelo menos ter essa pretensão) mostra-se uma importante potência motriz que acaba por manter o movimento da caneta até ao ponto final. 

(Os traços por vezes indecisos em busca de um melhor entendimento de si, das coisas, de tudo… do nada [encore].)

Trata-se mais de uma necessidade, uma psicose, um vício. Sim, sem dúvida que há muito de vício nisto de escrever. O efeito alucinógeno da abstinência, o córtex orbitofrontal a processar lentamente os canais emotivos, decisões tomadas de forma intempestiva, a memória é afetada. Que o leitor experimente ficar dias sem beber água, ou sem ingerir alimentos e de certeza compreenderá fisicamente o que estou tentando dizer.

Agora a bandeira do Chile balança sobre o portal de uma estação de esqui por onde uma torrente mais ou menos contínua de turistas entra e sai. A maioria segura um telemóvel, ou um tablet: jovens e adultos que averiguam no Google Maps se realmente estão onde deveriam estar. É provável que muitos desses turistas não consigam se divertir hoje, pois deixaram problemas demais em casa.

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Acontece muitas vezes de adquirirmos/acumularmos tantas responsabilidades que chegará o momento em que o nosso organismo pedirá clemência, porque não deu conta. Os problemas se multiplicam exponencialmente e a pessoa então se retrai num casulo, move-se pouco, as tarefas mais simples (ir ao mercado, encontrar com os amigos, assistir a um filme) mostram-se inatingíveis. Fica-se como que paralisado, não consegue sair do quarto, é agora uma montanha, uma custosa placa tectônica que só se mexe quando diante de algum cataclismo — ou quando decide se esconder para sempre no mar de magma sob a crosta terrestre.

Eu mesmo sentia-me muito consciente da minha própria solitude, ali sentado a desenhar os Andes. Uma existência à Samuel Beckett: sempre um bocadinho isolado do mundo, a tentar explorar o ardiloso funcionamento da minha cabeça. E toda a vida a girar em torno desta cega obsessão para escrever literatura. 

Beckett percebera que as sombras contra as quais havia lutado para manter longe de si, longe dos amigos, dos familiares, buscando ser agradável, espirituoso, animar o ambiente etc., Beckett percebera que essa escuridão era, de facto, a fonte de suas inspirações criativas. Sempre viverei deprimido, ele contara para um jornalista francês, mas o que conforta é a clareza de que agora posso aceitar esse lado negro como o lado dominante da minha personalidade.

Encarar os demônios que atormentam sobremaneira, fazê-los trabalhar para si, e depois redigir o que se passa consigo num idioma mais acessível e elegante. Numa palavra: transformar depressão em criações.

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É provável que os acumuladores de responsabilidades sociais vejam nesse modus operandi uma rotina melancólica, insuportável, claustrofóbica. Mas para quem se deu conta de que a escrita é a atividade que realmente importa, essa epifania é o último bote salva-vidas a flutuar errante no convés.

— P. R. Cunha

Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – segunda parte (aurora sangrenta)

Quem se aproxima dos Andes e não compreende que embaixo daqueles paredões rochosos existe uma dinâmica atividade geológica talvez fique com a impressão de que as cordilheiras estacionaram-se numa paisagem imutável, atemporal. Estas montanhas, porém, são o resultado de milhões de anos de movimentos tectônicos — alguns lentos e morosos, outros abruptos e imprevisíveis. Um processo que continua a acontecer e não deve cessar até que o núcleo terrestre esfrie. Estimam-se que a cordilheira dos Andes esteja a crescer, em média, 12 centímetros por ano.

A verdade é que os constantes e violentos choques da Placa de Nazca sob o oceano Pacífico com a continental Placa Sul-Americana fazem do Chile um território deveras hostil aos chamados interesses da sobrevivência humana. Nunca é demais lembrar que o epicentro do terremoto mais violento já registrado cientificamente ocorrera no dia 22 de maio de 1960 perto da província de Malleco, 570 km ao sul da capital Santiago. Conhecido como o Grande Terremoto de Valdivia, o cataclismo de magnitude 9,5 MW matou quase 6 mil pessoas e deixou milhares de desabrigados. 

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A conversar com chilenos a respeito de tragédias como essas, percebi uma perturbadora consciência de alerta constante, como se alguma coisa terrível já estivesse programada — era só uma questão de tempo. A população, de forma geral, compreende que não faz sentido perguntar «se algo pode acontecer», apenas preparam-se para o dia em que terão de fugir de suas casas por conta dos caprichos catastróficos cultivados pela Mãe Terra.

* * *

Adentrei a cadeia de montanhas pela mesma estrada que percorri em julho de 1996, quando cá estive com papai e meus irmãos. Uma estreita via que dança ao redor das silhuetas andinas, beliscando a proteção a meia altura, lembrando constantemente que um simples lapso de concentração traria consequências irremediáveis. O caminho abismal repleto de curvas sinuosas costuma levar os praticantes de esportes de inverno até ao Valle Nevado, um centro de esqui a 2.860 m do nível marítimo. Brinca-se que aquele que consegue vencer a travessia sem sentir enjoos recebe um certificado de excelência assinado pela Nasa.

Para-se à berma da estrada a fim de tirar uma fotografia de recordação, ou recuperar o fôlego enquanto se repara num zorro culpeo (raposa-andina) — el zorro más grande de Chile, solitario en épocas no reproductivas — procurando fontes de alimento. É altura de contemplar os precipícios rochosos, sentir a brisa gelada que penetra as brechas da roupa e corta a pele humana sem sossego. 

Processed with RNI Films. Preset 'Kodachrome 50's'

E novamente a verticalidade chilena, o caminhar para cima e para baixo, espremido entre as cordilheiras. Os teóricos de viagens costumam dizer que bons observadores possuem uma espécie de dom para revelar as mais ínfimas variações, tipos sensíveis aos pormenores, à informação microscópica. Viajantes que não se contentam apenas em expor; pretendem adicionar aos próprios relatos aquele olhar instintivo dos artistas.

O filósofo Michel Onfray, ao propor uma poética expositiva, defende que reparar na geografia permite a quem viaja apreciar melhor as paisagens, compreender melhor o que sucede nos sulcos, na crosta e na superfície da terra. Pensar com contextos geológicos enriquece a experiência não só de quem deseja contar, mas principalmente daqueles que irão receber o que foi contado. É antes de tudo um sinal de respeito à paciência dos leitores.

— P. R. Cunha

Foguetes para a Rússia

Morei em São Petersburgo em 2009. Há dez anos, num mesmo 15 de agosto, recebia das delicadas mãos da senhora coordenadora do Departamento de Línguas o meu diploma russo. Nem precisaria dizer que essa foi a minha maior conquista de sempre, mas o digo mesmo assim. Uma década se passou e continuo à procura de respostas, muito consciente de que não faço a menor ideia do que significa estar vivo. Como escrevera um desiludido Geoff Dyer: toda a disciplina e ambição intelectual daqueles primeiros anos dissiparam-se.

Conversa com Andrei Vasilyevich à mesa perto do busto de Mendeleev, Universidade de São Petersburgo, crepúsculo: o despropósito da pergunta «o universo é infinito?»; por conta da expansão do espaço-tempo boa parte do cosmos mostra-se já inatingível para as pretensões humanas, então, filosoficamente, o universo é infinito. Vasilyevich reforça o facto de que o astronauta quase não consegue dar um simples pulinho até à Lua sem ser tragado pelo vácuo. Dificuldade da nossa espécie animal: reconhecer/aceitar as próprias limitações etc.

Doze seres humanos pisaram em solo lunar. Todos relataram perturbadora ansiedade durante os minutos que antecederam o descolamento que levaria o módulo de volta para o planeta Terra. Charlie Duke ajusta o próprio capacete enquanto observa a paisagem acinzentada pela janelinha da Apollo 16: certo, e se esta porcaria não funcionar?, e se ficarmos presos aqui?, o que faremos se tudo der errado?

Agora organizo fotografias que tirei durante o período russo: o Almirantado, o Cavaleiro de Bronze, o Palácio de Inverno, as catedrais, o percurso no Transiberiano, a Praça Vermelha, o último grande passeio que fiz com meu pai antes dele morrer. Sinto uma ansiedade diferente das inquietações lunáticas, oposta. Perguntar-se: será que um dia regressarei à Rússia?

— P. R. Cunha


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Meu muito agasalhado papai — primeiro plano — encanta-se com as formas da Catedral de São Basílio, Praça Vermelha (maio de 2009)