Caderno de viagem: Évora entre ossos e feridos

Grosso-modo, estás a viver uma vida boazinha, és feliz, e as coisas amiúde correm-te apropriadamente. Até que chega a morte, a perda, um desastre e não te mostras de forma alguma preparado para o que vem a seguir.

A velha dicotomia de sempre: vida & morte, deusas imprevisíveis que lutam entre si, mas também, ao fim e ao cabo, dependem uma da outra.

Estás em conflito contigo mesmo porque passaras a tua existência em casulos hermeticamente fechados, protegido do mundo, sem lidar com a possibilidade, como se costuma dizer algures, da finitude. Nessa tua morada, ninguém morria, ninguém morreria. Era tudo calmo, era tudo certo.

(O viajante que acaba invariavelmente por utilizar elementos da própria biografia em seus relatos de viagem.)

A bandeira de Évora.

A bandeira de Évora é qualquer coisa curiosa. De longe, a trepidar ao sabor do vento alentejano, parece uma bandeira como tantas outras, com formas triangulares amarelas e vermelhas a preencher a superfície do pano. Mas se chegares perto, perceberás um brasão assustador adornado com motivos medievais. Dentro do escudo dourado, certo cavaleiro com armadura metálica ergue espada ensanguentada — é Geraldo Geraldes, o Geraldo sem Pavor, galopando um saudável cavalo negro.

Triunfante, o animal salta a cabeça de duas vítimas decapitadas, e daí compreendes a origem do sangue que escorre pela espada do supracitado cavaleiro: vem dum homem e duma mulher; mouros. A faixa branca a contornar o escudo que diz MUI NOBRE E SEMPRE LEAL CIDADE DE ÉVORA parece querer justificar o assassínio cometido por Geraldo Geraldes.

Esta bandeira causa-te um inverno na espinha.

Dada a tua tendência natural para o inconcebível, decides agora visitar a Igreja de São Francisco, cujos limites, contaram-te, abrigam convento, museu, coleções diversas (presépios Canha da Silva), órgão setecentista, sala régia, sala dos castros, etc., além da Capela dos Ossos — construída no século XVII com o «propósito de provocar pela imagem a reflexão sobre a transitoriedade da vida humana».

O céu matutino, azul e completamente sem nuvens de Évora contrastava com o vento glaciar que cortava-te a alma. Sentes aquela estranha sensação de estares a ser observado por algo ou alguém.

À entrada da Capela dos Ossos, com duas colunas ao estilo romano, podes ler a famosa inscrição:

NÓS OSSOS QUE AQUI ESTAMOS PELOS VOSSOS ESPERAMOS 

De início, ficas perturbado com a visão das paredes interiores — repletas de crânios, de toda a sorte de ossos humanos. Ossos que não estavam ali para brincar, isso era certinho. Mas, tal e qual ocorre com o noticiário moderno (quanto mais atrocidades alguém lê, menos escandalizado fica), a capela macabra aos poucos torna-se um bocadinho mais aprazível até que finalmente chega a altura de poder colocar o visitante no seu devido posto.

Aqueles restos de pessoas que um dia foram não te deixam esquecer de que tu também irás, cedo ou tarde, ter aquele mesmíssimo fim: transformar-te-á num mero amontoado de osteócitos, osteoblastos e osteoclastos. Serás também caveira, esqueleto.

Poema sobre a existência
(Este soneto do Padre António da Ascensão Teles pode ser lido no interior da capela.)

Aonde vais, caminhante, acelerado? 
Pára…não prossigas mais avante; 
Negócio, não tens mais importante, 
Do que este, à tua vista apresentado. 
Recorda quantos desta vida tem passado, 
Reflecte em que terás fim semelhante, 
Que para meditar causa é bastante 
Terem todos mais nisto parado. 
Pondera, que influído d’essa sorte, 
Entre negociações do mundo tantas, 
Tão pouco consideras na morte; 
Porém, se os olhos aqui levantas, 
Pára…porque em negócio deste porte, 
Quanto mais tu parares, mais adiantas.

(…)

Ouviste dizer que algumas pessoas não se aguentam nem cinco minutinhos dentro da Capela dos Ossos; não dão conta de olhar para aquele espelho cadavérico. Fogem. Mas aquela decoração esquelética causara-te outra coisa. Tens, mais do que jamais tiveras, a certeza de que o derradeiro suspiro chegará, e queres aproveitar o interlúdio da melhor maneira possível.

Refletes também a respeito dos donos daqueles ossos, se um dia teriam imaginado que um escritor brasileiro nos seus trintas, a levar uma vida algo dissipada, escreveria sobre aquela estranha morada, quatro século mais tarde.

Ficas ali dentro, em absoluto silêncio, a observar os rostos sem pele até serem horas de ir para outros sítios da Igreja de São Francisco, porque nesta vida não se pode atrasar. Poderás dormir imenso quando morreres.

Segues para a frente.

Estás em Évora, afinal.

— P. R. Cunha


O livro Paraquedas – um ensaio filosófico do P. R. Cunha já se encontra disponível à lojinha do sítio web. Para mais informações, aperta aqui.

Caderno de viagem: os fantasmas fugiram de Sintra

Estou no Holiday Inn Lisbon (Continental) a anotar em um papel de carta do hotel os lugares aos quais pretendo ir nos próximos dias e escrevo ao lado de Sintra a palavra INDISPENSÁVEL, caixa alta. Uma brochura mostra o Castelo dos Mouros num dos cumes da serra que abraça a região e fico a pensar nas noites de insônia da minha infância, quando remexia-me sob as cobertas por causa da leitura prematura de Drácula, do Bram Stoker. Trata-se de um castelo imponente ao estilo Game of Thrones e se esperássemos o bastante quem sabe não conseguiríamos observar a sair pelos portões da fortaleza um dândi audacioso e melífluo com golas altas, asas de morcego, dentes avantajados, sobrevoando em meio à neblina com objetivos nefastos.

Então disseram-me que para conhecer melhor Sintra é conversar (e lá ir) com quem melhor conhece Sintra. Tomei meu pequeno-almoço e às oito da manhã encontrei-me com o sr. Jorge, que prometera levar-me ao fantasmagórico distrito de Lisboa.

Coisas estranhas costumam acontecer no alto da serra, disse-me o sr. Jorge enquanto abria a porta do Renault Espace. 

São os fantasmas, ele acrescentara.

Do Holiday Inn até Sintra são 26.4 km — aproximadamente meia hora de viagem com aquilo a que o Google Maps chama de «the usual traffic». Sr. Jorge fez o trajeto em menos de vinte minutos. Não vás fazer xixi nas calças quando lá chegarmos, ele brincou com aquele ar sério e compenetrado que nossos tios bonachões costumam ter enquanto fazem troça.

À medida que o Renault aproximava-se de Sintra o tempo começara a mudar imenso. Em Lisboa o céu era daquele azul clarinho ao qual podemos assistir em Il Decameron, do Pier Paolo Pasolini com a banda sonora do Morricone ao fundo. Às portas da vila, no entanto… nuvens pesadas, neblina, geada. Sintra era outra coisa.

Sintra tem um microclima muito específico, imprevisível, dissera o sr. Jorge.

Se estou num país estrangeiro costumo fazer constantemente um exercício de autocontrole para não me decepcionar. Adoto a postura mais neutra possível: se por um acaso falam que determinado sítio é magnífico, fico já com a pulga atrás da orelha, como se diz, e preparo-me para visitar um sítio legalzinho. Não obstante, se explicam que determinada cidade é terrível, que ali não há nada, vou até lá com o coração aberto, pronto para ser surpreendido positivamente.

Noutros termos, sou uma embarcação de expectativas que vai para-lá-e-para-cá ao sabor dos comentários nativos, a aguardar o juízo final, isto é: pisar no sítio eu mesmo, tirar as minhas próprias conclusões, etcétera.

À moda Lisboa, Sintra — cujo brasão com lua crescente e estrela revela logo as raízes árabes — também possui prédios coloridos a contrastar com telhados cor de laranja, ruas simpáticas com um leve cheiro a açúcar queimado que dão a um pequeno nenhures. Geográfica e arquitetonicamente é sem dúvida um sítio muito promissor àqueles que pretendem vagar de maneira despretensiosa durante o resto dos tempos depois de, como diria Eugénio de Andrade, bater as botas.

No entanto, quando se lá chega sente-se alguma pitada de desilusão. Sintra é a clara evidência do turismo moderno, do texto publicitário construído para atrair gentes de toda a parte, das fotografias livres do excesso humano, livres do barulho das canções techno-pop, da balbúrdia dos telemóveis, dos gritos (em espanhol, italiano, inglês, mandarim, russo e contando) dos transeuntes desesperados à procura da casa de banho.

Parecia-me que Sintra não estava a sair-se muito bem com as almas penadas. Comentei com o sr. Jorge que conseguia imaginar um passado fantasmagórico à vila, mas que do jeito que as coisas estavam agora (sete de dezembro de dois mil e dezoito), não podia sequer considerar um brevíssimo rendez-vous sobrenatural. Os fantasmas, sabemos, não gostam de multidões com câmeras a fazer cliques a cada dois passinhos. Os fantasmas preferem o vazio, pensei, são seres minimalistas.

Se havia mesmo uma população fantasmagórica aqui, insisti eu ao sr. Jorge, receio que há tempos já tenha corrido algures, com muito medo dos animais humanos.

Agora estou sentado à mesa da padaria Piriquita deliciando-me com um travesseiro de Sintra — iguaria a respeito da qual pretendo escrever noutra ocasião. Atrás de mim, um miúdo italiano chora à mamã porque o irmãozinho pegara-lhe a bola com a silhueta do Cristiano Ronaldo estampada; à direita, uma espanhola arrisca-se no portuñol a pedir água fresca com gás; à esquerda, uma croata mostra-se completamente perdida. Chove a cântaros. Um altifalante estridente toca canções natalinas interpretadas por Bing Crosby, Dean Martin, Fred Astaire.

E a impressão é que cheguei à vila de Sintra tarde demais.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: andas em círculos (para onde vais?, não sabes…)

Voltar de uma longa viagem ao estrangeiro — o oceano etc. — & falar sobre essa longa viagem & interromper o relato porque outra viagem (desta vez ao centro do Brasil) & distrações agradáveis — viagens sobrepostas/acumulativas — toda a viagem exibe uma beleza & (trecho baseado nas leituras da sra. Sontag) torna-se superficial (i.e. desnecessário) privilegiar certas jornadas como belas (boas?) & outras não.

A viagem para Portugal, ou para o mato brasileiro. Arbitrário (ainda é Sontag) tratar alguns momentos como importantes & a maioria como pura banalidade. Viajar é atribuir significado(s), não importa se algures, ou nenhures. Conferir valor às viagens (se estou a fazer determinada viagem, tu pensas, logo, ela tem importância; certa intransigência, no entanto, com a viagem dos outros [se lá não estou, deveria interessar-me pelo relato alheio?], tu perguntas).

Repetes: nenhuma viagem é mais bonita/importante/interessante do que outra; nenhum viajante é mais preparado do que qualquer outro viajante.

A figura que vem à tua cabeça: barca, estamos todos na mesma barca.

Uma viagem que hoje soa estranha ao teu temperamento, amanhã (isto é, futuramente [não sabes ao certo quando]) pode se mostrar crucial. Queres fazer a tal viagem, porque (vide contextos individuais) ela agora te chama.

Imperativo categórico, Kant, ação necessária em si mesma, sem referência a qualquer outra finalidade.

Da mesma forma que a escrita precisa te chamar, ou seja, não é algo forçado. Escrever e viajar: paradigma, como já disseram, paradigma de atividades nas quais não podemos ser bem-sucedidos (estou a citar) só por tentarmos afincadamente. Podemos preparar-nos para a tarefa (escrever/viajar), sentirmo-nos gratos quando conseguimos construir algo que mexe com os brios de outros seres humanos (a gratificação da empreitada: outra pessoa se identifica com os teus trejeitos, sentes-te encorajado, recompensado, queres continuar).

Pensar na seguinte situação: Yovkov viajara muitíssimo e pensara desesperadamente sobre essas viagens — como transformá-las em mercadoria, vendê-las aos noticiários. Mas quanto mais atenção o sr. Yovkov dava às viagens menos ele conseguia aproveitá-las, relatá-las.

Não digas nada com pressa — parafraseio o Ulisses —, não penses agora, não faças perguntas. Perde-te.

O viajante começa a interpor-se no caminho da prória capacidade para agir de modo natural, pensa excessivamente uma atividade que, de certa forma (ver yips/mão fria [Dreyfus & Dorrance Kelly]), devia ser reflexa.

É bem isto: viajar enquanto estás a escrever sobre as tuas viagens.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: outro prólogo (outra parte escrita num Fabienne Chapot [marketing and sales by New Edition Stationery BV — Netherlands] com folhas pautadas à moda escolar e motivos selvagens para a capa)

Como deve ler-se este caderno de viagem? Qual é a maneira mais apropriada de o ler? O autor do caderno sugere que ele devia ser lido de uma maneira — faz com as mãos como deve ser lido. Depois de apreciá-lo com a devida atenção, comentamos «sim!, sim!, agora compreendo, faz todo o sentido». Agradecemos com uma mesura desajeitada, rimos dos nossos modos teatrais. 

O viajante também conhece a filosofia de Wittgenstein. Importa-se imenso com a filosofia-Wittgenstein.

Podes ler o caderno de viagem uma primeira vez e achar profundamente tedioso, sofrível até; mas daí lê deste novo modo, de um modo que nunca imaginarias e dizes: ora!, que maravilha este caderno de viagem, brutal, agora gosto deste caderno de viagem etc. 

Estás a ler mais intensamente.

Como demonstrar que determinado autor de cadernos de viagem te agrada? Relê o autor várias vezes, consome o autor, ignora o autor quando for preciso, não sintas pena do autor.

O cidadão passa três breves dias em determinado país, volta e conta para os seus: conheci tal país. Vós sempre achastes isto curioso. Já Marco Polo esteve vinte seis anos na China e por vezes confessava: não conheço a China. Numa cidade como Lisboa, é preciso escolher, selecionar, é preciso ir para algum canto, explorá-lo, dar-se por satisfeito. Não podeis ter Lisboa toda para vós. Como dizia um ilustre antigo — é não estar em parte alguma em todo o lado estar.

Pôr por escrito os pensamentos de viagem, os aforismos de viagem, os trechos vagos que te assombram durante uma chuvosa noite em Aveiro. Escreves sobre a viagem como fosses salvar a sanidade de alguém. Provavelmente a tua própria sanidade.

É improvável imitar ipsis litteris a rota de outro viajante — as diferenças (ruas, estilo, temperatura [meteorologia de forma geral], profundidades, cores, linhas, pessoas etc.) são de imediato percebidas. Como dizia o teu avô: precisas criar os teus caminhos. 

Noutras palavras: o teu comboio vai para o outro lado. Tens uma certa emoção, queres tornar isto o mais claro possível — ao teu modo.

O tempo em Aveiro no período natalício: sol, chuva, ventos, sol, chuva, sol, ventos, chuva, ventos, sol. Uma escola de transitoriedade, as nuvens aveirenses ensinam-te que tudo passa. Nada é permanente. (Falar sobre as dificuldades de se trabalhar como meteorologista em Aveiro.)

Num passeio público junto ao Tejo, perto do Cais do Sodré, a ouvir a lamentosa sirene de um ferry que afasta-se para dentro do nevoeiro, ofereceram-te, em cinco ocasiões, sacolinhas de maconha. (…) A partir de então, decides ser mais cauteloso com a tua vestimenta.

É possível estar em Lisboa sem estar em Lisboa? Se lês os apontamentos lisboetas de Fernando Pessoa estás também a perambular pelas ladeiras, a ver as casas coloridas, estás a navegar o mesmo Tejo, a ouvir o fado — é possível viajar até às quintas portuguesas sem nunca aterrar em Portugal? Em que sítio estamos quando lemos os relatos do viajante, do observador? Cochilas com o Livro do desassossego ao colo e pensas para ti mesmo: onde é que me meti — onde nos metemos quando folheamos o Livro do desassossego? 

Ouves a respiração do poeta, estás numa aldeia distante. Não te apeteces voltar.

De início não pensavas muito em escrever sobre Lisboa, Évora, Sintra, Aveiro. Limitavas a observar e a entender a dicotomia que te ia na cabeça. Demoravas imenso tempo observando as gôndolas aveirenses com a ingênua crença de que poderias usar tudo aquilo que estavas a ver — tal e qual Funes, o memorioso de Borges.

Mas tu te esqueces, tu não te lembras de tudo.

Estás na Praça do Comércio, Lisboa. Atravessas o Arco da Rua Augusta. Estás rodeado de turistas, miúdos a falar o francês, o alemão, o espanhol, o russo, miúdos a correr loucamente atrás dos pombos bravos e modorrentos que comem as migalhas de um pastel de natas. Perguntas: ora, onde foram parar os portugueses? Não os vias por ali, isso era certinho.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: doces portugueses (espécie de prólogo [em parte{s}])

Uma senhora está a chamar-te. Fica paradinho aí, ela diz. Carrega consigo um livro. À medida que ela se aproxima, podes ler melhor o título em vermelho da capa: Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo, um livro de memórias — é Murakami.

Sexta-feira, 14 de dezembro de 2018. Escreves com o caderninho sobre a cama do Hotel Imperial. Aveiro. A letra afunda enquanto anotas, o colchão é macio, imprevisível. Sentes-te no século XIX. 

Portugal tem destas.

Se viajar significa «ir-se alhures» então o que estas a fazer é definitivamente uma viagem. Kipling nunca esteve em Mandalai, e mesmo assim escrevera qualquer coisa chamada The road to Mandalay — não sabes ao certo. Não vais muito com os poemas do Kipling.

A literatura de viagem boa, a literatura de viagem má e a literatura de viagem do meio.

Há quem gaste dinheiros, encontra-se de repente numa cidade estranha e jamais sai do quarto do hotel. É isto uma viagem? Quanto tempo precisamos estar fora para adquirirmos o direito tácito de colocar nossas experiências ao papel, quantas coisas precisamos de ver para transformá-las em memórias verosímeis, podemos tagarelar com desenvoltura sobre a culinária alheia depois de comermos somente em um restaurante obscuro indicado pelos mecanismos Google?

Outra maneira de se falar de viagem, uma viagem a Lisboa, suponhamos, ou até aos canais de Aveiro — ou a tantos outros sítios, sente-te lá à vontade para escolher —, falar a respeito dessas deslocações estrangeiras, não necessariamente fora da tua pátria, mas fora da tua zona de conforto, uma maneira de falar dessas andanças algures (e nenhures) seria segundo partes de relatos; fragmentos, portanto. Porque nessas ocasiões, longe de casa, numa altura estamos cá, noutras já cá não estamos.

Moves-te muitíssimo quando viajas. Tu explicas: em dezembro fui a Lisboa, fui também aos canais de Aveiro, Coimbra, Cascais, Estoril, Óbidos, sítios realmente fantásticos; andei e refleti imenso. Agora, apetece-me escrever sobre essas tretas. Novamente a mesma imagem: d’um sítio para o outro, ora lá, ora cá. Em fuga.

Em Portugal és apenas um estranho qualquer — l’étranger. Falar mais a respeito disto depois. (No Brasil, também és apenas um étranger qualquer. Não faz a diferença.)

A viagem é uma vida engarrafada, maqueta existencial, microcosmos. A viagem começa, ela se desenrola, a viagem acaba — geralmente em lágrimas.

Estás com uma t-shirt preta a escutar o r.roo (Art of forgetting).

Dois passos para te tornares fã de Lisboa — vai até Lisboa, abre-te os olhos. Pronto, és fã de Lisboa.

O anonimato do viajante. Pois, como escrevera um poeta, quando viajamos podemos extrair novas canduras até mesmo nas saudades, numas palavras incompreendidas, na catástrofe, na fatalidade, na solidão, principalmente na solidão.

Há bem os dias em que o viajante acorda tão disposto que poderia caminhar meio mundo com aquele humor leve, despretensioso, dominical. Não se limita às paredes da cidade. Quebra muros, vai ao cume da montanha. Grita, se for preciso.

Quando vejo o Tejo
ondular
numa língua familiar
compreendo —
o Tejo tem alma.

Um relato de viagem que fosse também uma espécie de viagem. Estás a escrever em Lisboa, depois Óbidos, de aí Évora, Setúbal, Leiria, Nazaré, Aveiro, novamente Lisboa. Continuarás a escrever quando voltares ao Brasil, em casa, num refeitório, ao pequeno-almoço, à livraria (se elas continuarem a existir). Estás a escrever sempre, não tens qualquer ambição cronológica. Agora umas frases de ontem, ali uma outra observação da semana passada, destacas algo que acabara de ocorrer-te. Tu misturas tudo. Perguntam-te: mas de certeza havia um roteiro, certo? Repondes que a cada dia conhecias um sítio diferente. Mas ao falar deles tu não segues ordem nenhuma, sem configuração determinada. Uma quinta nebulosa em Sintra deixara-te com o coração à boca de tão bela, outras ruas são tocadas apenas ao de leve. Os doces portugueses bem mereciam um capítulo à parte.

O uso dos três pontos (…): o uso dos três pontos, no nosso caso, indica que existe transição, rota, deslocamentos — indica geralmente que o viajante está dentro de um autocarro, ou talvez montado numa bicicleta (BUGA, se Aveiro), indica que está a ruminar, a passear. O viajante vai de passagem.

Há uma surpresa constante quando vos entrais em sítios em que nunca estivestes. Tudo está fresco, não foi contaminado pelo excesso. Vossas vistas procuram compreender os mínimos detalhes, vistas atentas, vistas aguçadas etc. Os nativos podem não dar tanto valor a determinado canto da cidade, alguns podem nunca ter lá ido. É como a piscina: se não as temos em casa, queremos tê-la; se temos, perde-se um pouco a magia. Vós dizeis: temos a piscina, podemos cá abrir a janela do nosso quarto e avistamos ali uma piscina, entramos nela quando (e se) apetecer-nos, a piscina não tem tanta importância. Um miúdo sem piscina está sentado no sofá do apartamento da mamã e sonha com a piscina, gostava de ter uma piscina bem grande, ele diz para consigo, ficaria dentro dela a tempo inteiro. 

Percebei, leitores, que este tema «viagem» é vasto. Muitos já escreveram a respeito. Isto tem certa vantagem: tudo torna-se possível; podei-vos anotar do jeito que preferirdes.

— P. R. Cunha

Sob o efeito de John Cage — cinco ou sete doses de Baileys

Depois de uma noite de bebedeiras ao botequim [na Lopes Trovão, perto do Campo de São Bento] — estamos de ressaca: o mar & eu.

Influenciado pelos escritores do caótico e especialmente pelo azedume dos Ex.{mos} srs. Bernhard e Oswald de Andrade e H. de Campos (Eurico Browne) e A. de Campos (IRMÃOS) este outro-eu-autor/actor (escrevente brasileiro sempre a pensar nas coisas mais essenciais do país tropical &tc [porta-voz]) eu-autor/actor/outro-eu a escrever um sem-número de conto-macchina portanto em Niterói 496.696 habitantes alguns felizes outros nem tanto eu-autor/actor/eu descrevendo entre outros 1) bêbados 2) jogadores de xadrez 3) baristas que não tomam café porque Niterói é quente 4) artistas do teatro 5) boêmios em geral.

conto-macchina — é a recepcionista da pousada que me confundira com o fantasma de Dylan (Dylan não morreu, eu lhe disse; Dylan está morto, ela disse, hospeda-se o fantasma de Dylan nesta nossa pousada, Niterói [inútil insistir quando nos tomam por fantasma de Dylan] desisto). conto-macchina estilo mecânico como o próprio nome sugere ———— industrial sirenes de ambulâncias experimental: o afiador de facas da rua Otávio Carneiro, liberdades & gramaticais & estilísticas (não definir o que é estilo [?]), pontua-se como/e onde/e quando (se) quiser, os fogos de artifício que iluminam o Morro do Cavalão, conto-macchina, não se preocupar com rimas (n’outros termos: tudo bem se rimar as palavras afinal ou rimam ou não rimam), 50% porcento percentagem, o vendedor de picolé queimou o pé nas areias de Camboinhas/Sossego, bolhas no pé do vendedor de picolé, conto-macchina, museu de arte contemporânea ——————— o.Niemeyer, disco, voador, ARQUItecto de um futuro que ultra|passado. conto-macchina, um pouco de tudo.


Texto e fotografia: P. R. Cunha

Escrever, por vezes, é considerado um jogo de sorte ou infortúnio. O escritor, sem saber muito bem o que faz, tanto pode acertar como errar. Geralmente, ninguém pede contas dos erros que ele comete. Apenas deixam de lê-lo.

Pousada em Niterói. Grande cama ao centro. Varanda. Vista para um prédio à moda Stalin-URSS. Motocicletas buzinam na rua. Móveis modernos e escassos. Uma escrivaninha. Frigobar. Outono: Dia. ——— Um homem quando vem para Niterói é para aproveitar o que é bom e comer do superior. A destreza desta casa hospedeira encontra-se no seu excelente café da manhã, que é tomado perto de uma montanhosa reserva ecológica. Degusta-se o croissant com geleia de amora e os miquinhos vêm de longe a ver se capturam uma qualquer migalha. Esses simpáticos primatas sem dúvida trazem variedades ao petit déjeuner e impedem que esmoreça o meu apetite.

*

Primeiras caminhadas pelas ruas do município. Gosto de dar grandes passeios. Dedo no gatilho da câmera. Coisas dessas.

*

Bibi Lanches, rua Mariz e Barros. Mesa para quatro pessoas. Rapaz de vinte e poucos anos sentado à esquerda da mesa devora sanduíche de mortadela. Um sujeito de quase cinquenta anos, provavelmente o pai do rapaz, está sentado no canto direito e toma suco de acerola. O sujeito de quase cinquenta anos, vamos chamá-lo de Pai, ao falar, fá-lo diretamente para o rapaz, ou seja: Filho. O Filho nunca olha para o Pai — parece não estar muito interessado. O Filho mastiga o sanduíche de mortadela como se não se alimentasse há dias. O Pai ri. Tento escutar, para perceber a piada:

[…] e você vê como são as coisas, o Geraldo, talvez não se lembre dele, o Gera, de Santa Rosa, lembra?, caiu do sétimo andar. Estava consertando as persianas, algo assim, e despencou (gole no suco de acerola). E sobreviveu, ficou não sei quantos dias no hospital. Também pudera. Todo quebrado. Até que o médico, ou a enfermeira, não sei, alguém disse que ele estava para obter alta. (Outro gole no suco de acerola, o Pai levanta a mão, o garçom olha, o Pai depois aponta para o suco e faz mímica: está doce, o suco está doce.) A esposa do Gera, a Célia, você lembra dessa gente?, a Célia parece que levou uma maçã para comemorar. Uma maçã! O Gera mastigou a maçã, olha que história mais doida (ria-se), o Gera mastigou a maçã, veja bem, o sujeito que caiu do sétimo andar e sobrevivera, ele mastigou a maçã, engasgou com o diabo do caroço e morreu. Engasgado. O Gera. Você lembra? Geraldo, de Santa Rosa. Impressionante uma coisa dessa, inacreditável […]

*

Às vezes o Filho olhava para o Pai, mas definitivamente não dava a mínima. Às vezes eu também não dava a mínima para o meu pai — papai falava, falava, falava e eu não o escutava. E hoje, nesta cidade em que cada esquina me faz lembrar dele, sinto uma falta terrível dessas oportunidades perdidas. Daria qualquer coisa para poder escutá-lo novamente, a falar, a falar, a falar…

*

À tardinha, lanche com vovó na rua Moreira César. Não sou eu que bebo a bebida, é a bebida que me bebe — de um funcionário do café.

*

Se vivo numa pousada em Niterói, posso, quando à noite voltar para o quarto, fazer desenhos e esboços como se tivesse estado sabe Deus onde. Aqui, portanto, pratico a arte de viver no estrangeiro (porque a quase dois mil quilômetros de casa).

IMG_1916

Texto e fotografia: P. R. Cunha