Fragmentos de um romance inacabável (parte VII) – algo que sabemos muito bem: a calmaria do Escritor não pode durar para sempre

As cartas que enviara aos amigos e aos familiares transbordam de obscurantismo. As emoções, nas raras ocasiões em que elas timidamente aparecem, estão como que escondidas sob máscaras de formalidades e distanciamentos. Noutros termos: se lemos o que ele escrevera nessas correspondência íntimas, temos quase a certeza de estarmos a lidar não com um homem real, mas com um personagem de literatura. 

Sob a fumaça, o fogo continua a mover-se sem controle, dia após dia. Estopim, gatilho, combustível para escrever. O Escritor está deitado na rede a observar os pássaros: calado, na dele, não incomoda vivalma. Seria uma péssima ideia aborrecê-lo, levá-lo ao limite, colocar mais complicações na sua cabeça. (Não mexer com quem está quieto etc.) Quanto mais você cutuca o Escritor, que — como se disse — está deitado na rede, calado, quanto mais você bagunça a ociosidade do Escritor, mais provável é que ele se torne irascível, imprudente, tristonho, colérico, ardiloso, macambúzio, desajuizado.

As ondas podem parecer calmas e reconfortantes, mas também elas devem quebrar em algum ponto, o processo precisa terminar em alguma praia, em alguma parede rochosa, na madeira de um cais, na proa de um navio. O Escritor não pode se manter deitado na rede a tempo inteiro.

Ter muito o que dizer, e não dizer nada. Ter muito o que construir, e não construir nada. Há séculos o ser humano tem feito isso.

Abre um livro, semblante de quem tem algo de extrema importância para compartilhar, e compartilha: aqui, onde as promessas para as gerações vindouras foram armazenadas. Aponta para o livro, rasga uma página, continua: é isso que acontece com as promessas. Rasga outra página: Palavras que se perdem nos resquícios apodrecidos das obras do passado. Rasga ainda outra página. E outra, e outra, e outra…

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte VI) – saudades

Ler este romance fragmentado é na verdade aumentá-lo e não estar a caminho de algum fim. Romance cujo ponto final não é o ponto gráfico, tipológico, mas sim a própria vida do leitor. Romance, portanto, que nunca acaba. Romance para ser [re]lido — quando (e se) quiseres.

2 (dois) de janeiro de 2015 (dois mil e quinze) / trechos

Um olhar atentivo para essas supostas confusões narrativas permite observar grande contigente de significados. Tais como promessas a cumprir:

» Dirigir o automóvel com mais prudência;
» Diminuir o consumo de sal;
» Passar menos tempo aos websítios pornográficos;
» Assumir que odeia os livros do Tolstói;
» Evitar masturbação antes de dormir;
» Parar de cortar o próprio cabelo (há profissionais para isso);
» Ter relacionamentos saudáveis com seres humanos reais;
» Atentar-se a banhos, higiene íntima (forma geral);
» Exercícios de movimentação;
» Pedalar a bicicleta (fins-de-semana);
» Observações de condições da pele (protetor solar);
» Verificar circulação sanguínea (necessários exames);
» Ir ao hospital, se assim se pode dizer.

Outros trechos (aleatoriamente ordenados [isto não é um diário íntimo {que fique bem claro}])

Escreva depressa antes que alguém morra no meio do caminho. Imediatismo. Amanhã não se sabe etcétera.

Familiares do Escritor simplesmente não estavam preparados para ler/ouvir o que ele tinha a dizer: que o esconderijo deles (familiares), que a fortaleza artificial deles (familiares) não era lá tão ordenada/limpinha como sempre acreditaram que fosse.

De início o efeito é mesmo imperceptível, você não percebe nada, não sente nada, e depois de algum tempo começamos a colher as primeiras mudanças — uma atitude imprevisível, um colapso nervoso, palavras rancorosas, um dos irmãos não desce mais para o jantar. Tudo depende do tempo que dispomos. Se tivermos paciência, encontraremos o ponto de viragem (ponto estequiométrico). O que era calmo e previsível, transforma-se num motor de instabilidades e incertezas. Espera e vê. 

Desqualificarão os livros dele como obra de um louco, produtos de uma mente esquizoide. Escritor indefinido. Sempre insatisfeito consigo mesmo. O coração batendo de pavor, de saudades.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte I)

Damas & cavalheiros,

A partir de hoje começo a publicar trechos de uma narrativa que escrevi especialmente para este electro-sítio — Fragmentos de um romance inacabável. Despeço-me com aquela curiosa sensação de que tudo o que se passou ficará lá para sempre. E isto, como se diz, é confuso demais.

Mil saudações do teu,

P.


Aquele que busca se aproximar do próprio passado enterrado deve comportar-se como um homem que escava. Acima de tudo, não deve ter medo de retornar mais de uma vez à mesma questão, espraiá-la como se espraia a terra, revirá-la como se revira o solo.
Walter Benjamin

O Escritor que se senta à escrivaninha a cada manhã e discorre sobre todos os tipos de temas, de todos os ângulos possíveis, de todas as maneiras etcétera. Diz coisas que precisam ser ditas. Não espera por uma grande inspiração, frases corretas — sabe que isso raramente acontece. Durante um tempo indeterminado, o Escritor acumula pequenas situações, breves cenas, enunciados, um diálogo na livraria, o choro de um bebezinho. Acumula palavras. Até que o baú transborda e é tempo de esvaziá-lo.

Escrivaninha, canetas, papéis, estantes, livros, chávenas de café, desenho de um cão (raça desconhecida), desenho de uma sereia a se afogar nas profundezas de um oceano roxo, coleção de postais soviéticos grudados nas paredes.

Na meninice nada parece acontecer sem causa, nada é inexplicável. O menino sabe que existe um mundo à parte, mundo regido por adultos — e compreende aos poucos que alguns adultos são felizes, outros são tristes. Ali tudo se mostra previsível. O pai garante a segurança e o progresso do menino: vais estudar nas melhores escolas, viver para o estrangeiro, vais aprender o russo, serás um sujeito diferente; este é o pai dizendo. O menino tem a certeza de que o pai é eterno, que o pai é capaz de explicar-lhe o Universo. Até que certo dia paira sobre a cabeça do menino uma nuvem cinza, carregada, e de súbito o otimismo dá lugar a uma lúgubre atmosfera; sombras a dizer-lhe que talvez a realidade não seja tão calma e segura quanto ele desejava acreditar. O menino sente-se vulnerável, enganado. O menino sente medo.

Um Escritor à Van Gogh, ardoroso e irrequieto, mas também cheio de brincadeiras animadas, uma enorme afinidade e uma infinita capacidade de admiração. Guia aventureiro, que transmite inspirações e passa reprimendas, um entusiasta enciclopédico, crítico engraçado, companheiro divertido, um olhar que atravessa tudo. Vítima do próprio coração, um coração de literatura. Tem algo na maneira como ele escreve que leva as pessoas a amá-lo ou odiá-lo. Não poupa nada nem ninguém.

Tudo começa por algum lugar. O Escritor leva consigo uma chávena de café, acomoda-se à frente do próprio computador portátil, cujos avisos de «a memória está para o fim» começam a lhe dar nos nervos. Acomoda-se no gélido apartamento que fica relativamente perto daquilo a que chamam de centro da cidade. Ele então entrelaça os dedos e inicia o processo de manipulação de realidades.

— P. R. Cunha