Alguns trechos sinuosos e (talvez) paradoxais

Tive o privilégio de participar das aulas do dramaturgo David Mamet e jamais esquecerei das dicas que ele dera ao final do curso: todos os dias, faça sempre algo para a sua arte e algo para divulgá-la, a pouco e pouco; escreva sempre, vá até aos lugares que você acha importante para o projeto no qual está a trabalhar, entre em contato com outros artistas, incremente o texto com atividades relacionadas tais como fotografia, pintura, literatura, cinema; e lembre-se sempre de que um escritor que guarda tudo dentro da gavetinha e espera que alguém o descubra não é um escritor, mas um aluado. 

Dizem que ao anotar um poema o poeta mutila-se — deixa sobre a folha de papel um bocadinho de si. E se há qualquer coisa que se mostre inexplicável para os versos, o poeta meio que enlouquece, ou sai para uma longa caminhada; um passeio pelo oceano durante o entardecer, caso more perto das areias. O importante aqui é ficar com a impressão de que o mundo pode ser capturado, ou melhor, adestrado pelos olhos algo indolentes do poeta, mesmo que ele saiba que o mundo não pode ser nem capturado nem adestrado. Esse engano permite-o sobreviver.

[Relutâncias]

Sentado numa cadeira de praia
as próprias pernas brancas confundem-se
com as armações cor de neve
da cadeira de praia

Nebulosidade matinal
cobre o mar com lençóis
acinzentados
— não vê as ondas

Invade-lhe um pequeno entusiasmo
pela apropriação marítima
sente, de forma prazenteira, sem esforço
que é o dono do mundo.

— P. R. Cunha

Pergunta #13 — António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha

[A. G.] No ano passado, neste mesmo café, você comentou por alto a respeito dos escritores que assustam. Estava a querer dizer o quê?

[P. R.] Que é tudo de certo modo inexplicável, ilógico. Thomas Bernhard me assusta, Sebald me assusta muitíssimo, daí temos o Peter Handke, a Dulce Maria Cardoso, o Raymond Carver, a Danuza Leão, a Elizabeth Bishop, o Junichiro Tanizaki, que assustam um bocado, as peças do David Mamet, a poesia do Ernst Herbeck — assustam. A imagem do leitor/observador que nunca dorme porque as reflexões excêntricas o mantêm em constante desassossego, está a perceber? E por vezes é preciso tomar muito cuidado quando nos aproximamos desses autores. Podem levar-nos a um cume onde a vista é absolutamente linda, conseguimos ver tudo lá de cima, e depois, à guisa de diversão, empurram-nos para o abismo, ou esmagam-nos com uma pedra de mármore. Tudo de certo modo ilógico, perturbador mesmo.