devaneios da própria máquina de escrever (episódio #9)

de uma adaptação jornalística: gostas de escrever & possuis textos que (assim julgas) merecem ser lidos; andas sempre com bloco-notas-&-caneta para produzir certas formas literárias inovadoras; não consegues parar de escrever, mas ninguém te liga nenhuma…

depois de uma série de exercícios extenuantes ao crossfit.

sempre tive imensa dificuldade com doutrinações. [pausa] & não estou cá a falar apenas dos dogmas religiosos. livros de auto-ajuda cujos autores garantem possuir todos os segredos de: felicidade, amor, amizade, como perder peso, como ficar milionário em três semanas, como influenciar pessoas, como não ser um completo falhado &tc.

[período de transição / explicar o supracitado]

é bonito & chistoso & abominável observar príncipe que oferece dicas existenciais aos criados do castelo quando, sabemos, príncipe sempre tivera apenas uma obrigação em vida, isto é: ser príncipe.

(escritores que se excedem nas próprias necessidades de consumir café, ópio ou álcool. comentar com alguém a respeito do livro que estou escrevendo seria como «confessar um assassinato».)

frase predileta dos trabalhos do david lynch, como proferida por dale cooper em twin peaks: «café escuro, escuro como a meia-noite de uma noite sem lua».

— p. r. cunha

Estamos em limpezas, eles diziam

Ted estacionou o automóvel perto de um enorme cipreste (Taxodium mucronatum), à esquerda da lanchonete com placa de saída em néon roxo que poderia muito bem ter servido de cenário para alguma série do David Lynch. O sol começava a desaparecer atrás das montanhas rochosas e aquela atmosfera taciturna, azul desânimo, mexia com o Ted, que lembrava-se das longas noites de copo com amigos que hoje não são mais amigos, pessoas com rostos que seriam mesmo irreconhecíveis para ele — caso as encontrasse, digamos, numa feira a comprar fatos esportivos de lycra (tipo spandex). Os altifalantes da aparelhagem da lanchonete tocavam «Can’t Help Falling in Love» do Hugo Peretti, mas na versão com voz arrastada, modorrenta, do Rei do Molejo: Elvis Presley. Ted caminhou mais alguns metros e sentia que o barulho das próprias botas Caterpillar Second Shift cor café a pisar no cascalho do estacionamento e a cacofonia voz-Elvis-like-a-river-flows-surely-to-the-sea começavam a lhe dar vontades de desistir de tudo, de voltar para o próprio automóvel, dirigir até à pensão na qual estava hospedado, assistir a algum filme do Chaplin a preto-e-branco, quem sabe ligar para uma rapariga loura que conhecera há dois anos quando andava pela região à guisa de resolver coisinhas, rapariga parecida com a Sophia Loren antes de a Sophia Loren trocar de rosto através de mutilações cirúrgicas (conhecidas pelo odioso eufemismo «procedimento estético»), rapariga que vivia em jeans e camiseta branca e que ficava apertando os botões do painel da carrinha do Ted e dizia sem parar: Ted, tens aqui uma belezinha tão gira, e o Ted nunca sabia se a rapariga estava a falar do painel ou se aquilo tinha uma qualquer conotação erótica etc. Ted chegou ao local combinado. Parou. Acendeu um cigarro. Ajeitou a aba do boné. Percebeu que, às traseiras da lanchonete, duas pessoas uniformizadas estavam a varrer restos de uma festa recém-terminada. Um homem e uma mulher que se desculpavam educadamente com quem passasse por perto — estamos em limpezas, eles diziam. Copos e pratinhos de plástico dançavam ao vento, esse tipo de panorama. A certa altura, o homem encostara o queixo na ponta do cabo da vassoura e comentara com ar filosófico: não, não sei se eu daria conta de matar o sujeito, sabe?, estou velho demais para essas coisas. E enquanto o homem falava e a mulher fingia que não escutava, o Ted quase se esquecera do motivo que o levara até àquele sítio desolador.

— P. R. Cunha