devaneios da própria máquina de escrever (episódio #25)

porcaria, frank!, este rio está mesmo uma espelunca, & que fedor, nossa, não faz sentido pescarmos neste lixo, frank, não há peixes, frank! [frank está sentado à proa do barco, mordisca um caule de trigo, abraça distraidamente a vara de pescar enquanto dedilha o device eletrônico]: tu tinhas que dar uma olhada nisto aqui, diego, é mesmo qualquer coisa alienígena. [diego hesita. levanta os braços para o céu, faz que vai pedir ajuda a alguma divindade invisível. contorce o rosto enrugado. continua observando a superfície oleosa do rio, as pequenas marolas produzidas pelo sacolejar do barco, depois limpa o suor da testa com as mãos, solta uns grunhidos rancorosos]: aos diabos, deixa eu ver logo isto aí. [frank sorri sem tirar os olhos do ecrã & inclina o device para procurar um ângulo mais adequado, obstrui a luz do sol com o próprio boné]: sítio web de armazenamento de dados, tu colocas todas as tuas informações, sei lá, emails, cartas, tudo o que já publicaste nas redes sociais, as conversas, as tuas preferências, os filmes que mais gostas, as músicas que mais escutas, os livros que leras, enfim, colocas a tua vida aqui dentro, upload, & daí o algoritmo faz o resto, o algoritmo vai encontrar outros seres humanos com as mesmas preferências, inclusive as mulheres, diego, sim, as mulheres, as mulheres com as mesmas preferências, percebes o alcance deste troço? [diego coça a têmpora]: não sei não, frank. [como se falasse com um interlocutor invisível, frank dá de ombros]: & depois de morrermos, vê lá, depois de morrermos, o sítio web ainda mantém os nossos dados, impressionante, como uma espécie de sarcófago digital, ou [pensativo]… um mausoléu cibernético, tipo lênin-ciborgue, & as pessoas poderão acessar esse sarcófago, & nos fazer perguntas, quero dizer, fazer perguntas aos nossos dados acumulados, obviamente, & o algoritmo formularia as respostas. [diego se afasta do device. adota uma postura taciturna. oscila a vara de pescar. ao longe, a silhueta de uma lancha se aproxima.]

— p. r. cunha

O dia em que a Terra parou (parcialmente)

Ontem os servidores de Facebook e Instagram escangalharam. A pane afetou inúmeras contas em diversos países. Houve quem achasse que o mundo fosse acabar. Bom, pelo menos para aqueles que se agarram com mãos firmes nas bóias das redes sociais, foi uma espécie de ensaio geral do apocalipse.

Ironicamente, a vulnerabilidade dos produtos oferecidos pelo senhor Zuckerberg veio à tona pouco depois de o Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida — ISPA — divulgar dados de uma investigação portuguesa sobre a solitude online. O instituto lisboeta acredita que quem passa muito tempo conectado à Internet se sente mais só.

O sentimento de solidão entre os jovens mantém-se, diz o estudo, mesmo quando o tempo que passam online não interfere (tanto [grifo meu]) com o tempo que passam a falar com amigos fora da Internet, frente a frente. Em causa, o ISPA acrescenta ainda, pode estar a falta de riqueza sensorial das conversas mediadas pelos aplicativos eletrônicos.

Com a inoperância parcial de Facebook e Instagram, muitos tiveram de recorrer aos caracteres do Twitter para compartilhar a própria fúria, o desespero, o tédio, o abandono — a solidão¹. Tinham perdido, mesmo que momentaneamente, as plataformas (os palcos de areia da pós-modernidade, como diria Jean Serroy) para se sentirem conectados. Perderam o norte.

Aqueles que respiraram fundo e preferiram aproveitar o caos para dar uma voltinha algures — e notaram que lá fora é onde tudo realmente acontece —, aqueles que depois de alguns minutos de inquietação perceberam que não é assim tão mal conversar com a vovó sobre «os velhos tempos», brincar com o Rex no jardim, ligar para um conhecido de longa data, marcar um café com o conhecido de longa data, de repente até refletir se é realmente necessário ter tantas redes sociais, aqueles que, por fim, esqueceram-se da coisa toda, esses podem ficar sossegadinhos: conseguirão sobreviver caso a sociedade como a conhecemos seja obrigada a se desconectar da Internet².

Ontem, foram apenas algumas horas de abstinência. Mas o suficiente para perceber que muitos não ficarão assim tão sossegadinhos quando a coisa for realmente séria³.

— P. R. Cunha


¹Os próprios técnicos de Facebook e Instagram tiveram de se pronunciar formalmente no Twitter.

²Penso, «grosso modo», nas erupções solares — que podem destruir satélites, danificar a infraestrutura energética e causar um apagão sem prazo de validade.

³A Bárbara Reis de Público, por exemplo, fartara-se do Facebook e escrevera um Coffee break muito pertinente a respeito. Pode-se lê-lo aqui.