Adolf Hitler — uma tragédia anunciada

Durante os intervalos das aulas do curso de filosofia expus para os meus professores algumas hipóteses que explicariam (ou pelo menos tentariam explicar) a ascensão de Hitler ao poder, como ele se tornou possível. O objetivo era apenas comentar brevemente sobre determinados pontos que amiúde norteiam as minhas reflexões a respeito daquilo a que W. G. Sebald chamara de História natural da destruição. No entanto, como da praxe, devo ter me agitado mais do que o necessário, de forma que finalmente tiveram de sugerir que eu escrevesse e publicasse este «artigo». O texto que se segue é o resultado de uma empreitada filosófica que pretende ser sintética e objetiva.

 

I

Teorias conspiratórias à parte, aceita-se que no dia 30 de abril de 1945, ciente da aproximação do Exército Vermelho, Adolf Hitler cometera suicídio no próprio bunker em Berlim. Envenenamento por cianeto e tiro de pistola na cabeça. Meses depois, a Segunda Guerra terminaria e a comunidade internacional ver-se-ia diante de um macabro impasse: o que fazer com as autoridades nazis que sobreviveram?

Após ardilosas negociações — principalmente para conter os ânimos de diplomatas russos que exigiam medidas drásticas a fim de vingar a morte de mais de 20 milhões de soldados e civis soviéticos (de longe a nação que mais sofrera baixas durante os combates) —, os Aliados chegaram ao histórico consenso: organizariam uma série de encontros jurídicos para decidir as punições adequadas àqueles que durante anos comandaram a burocracia nazista.

Que começassem os Julgamentos de Nuremberg.

Um dos proeminentes membros do partido nazi que na altura estavam a ser julgados pelo Tribunal Militar Internacional foi Albert Speer, arquiteto-chefe do III Reich e depois nomeado ministro do Armamento. Ao dizer as últimas palavras antes de a sentença ser anunciada, Speer questionou-se de forma um tanto cínica como uma nação tão avançada, culta e sofisticada como a Alemanha pôde cair nas armadilhas diabólicas de Adolf Hitler.

 

II

Vinte e seis anos antes de Nuremberg, a derrota na Primeira Guerra Mundial transformara a Alemanha numa panela de pressão imprevisível. Os termos impostos pelos vencedores no Tratado de Versalhes mostraram-se duríssimos para os interesses políticos e sociais alemães. É possível, inclusive, conjecturar se justamente o fato de a Alemanha ser uma nação culta, civilizada e sofisticada não teria acentuado ainda mais o revanchismo daqueles que, como Hitler, participaram do conflito e sentiram-se absolutamente humilhados com a forma que foram tratados depois.

Poder-se-ia observar também que essas características culturais que começavam a traçar os esboços do nacionalismo paranoico à moda Mussolini em Itália eram (e são) construções artificiais, mutáveis, narrativas criadas para manter certa coerência e justificar a arbitrariedade de fronteiras imaginárias. Vale lembrar que o Estado moderno como é conhecido atualmente só começou a surgir na segunda metade do século XV e passaria ainda por inúmeras transformações durante os séculos seguintes. Não seria exagero dizer que o orgulho ferido dos alemães depois de novembro de 1918 era, em muitos aspectos, baseado em ficções — literatura.

O problema de se misturar conto de fadas com política é que a fantasia pode se mostrar instável quando as condições reais não forem assim tão favoráveis. Num contexto de sobrevivência natural, o muro de papel construído com identidades arbitrárias (hinos, bandeiras, leis, mitos formadores) é o primeiro a ruir, expondo as entranhas de uma sociedade que se sentirá perdida sem o amparo da bússola cultural. Foi o que aconteceu com a Alemanha no século XX; duas vezes.

 

III

A tradição alemã, e aqui cito Karl Jaspers, demonstra que o povo germânico foi educado, durante longos períodos, a ser obediente, a ter uma índole dinástica, a ser indiferente e irresponsável diante da realidade política. A Alemanha seria um país que se acostumara com a autoridade, onde as pessoas, via de regra, fazem aquilo que lhes ordenam sem criar confusão.

Gustave Gilbert, que trabalhou como psicólogo dos prisioneiros durante o Julgamento de Nuremberg, escrevera ainda que os alemão sempre obedeceram aos pais, aos professores, aos clérigos, aos superiores. Desenvolveram-se para não questionar figuras de liderança.

Quando nas décadas de 1920 e 1930 a panela política enfim explode, os alemães se deparam com um Estado tampão chamado República de Weimar, quebrado economicamente, sem qualquer perspectiva de melhora — um povo à procura de bodes expiatórios para explicar como um país tão avançado, culto e sofisticado como aquele pôde cair naquele abismo surreal.

 

IV

Em 23 de março de 1933, a República de Weimar é dissolvida e os alemães exigem um novo líder, um salvador à moda antiga, alguém para acertar as contas. É crucial ressaltar isto: por mais carismático e persuasivo que Hitler fosse, ele só foi possível porque os alemães queriam, precisavam de um herói. E, assim como Napoleão, Hitler aproveitou-se do caos instaurado, compreendeu o que as massas desejavam ouvir. Ofereceu-lhes o plano perfeito, a realidade que aspiravam.

Portanto, à medida que Hitler e o partido nazi começaram a destruir todas as instituições democráticas com o pretexto de «recolocar a Alemanha no protagonismo que ela sempre mereceu», muitos alemães (e aqui encontra-se certo cabimento nas generalizações tradicionais) acharam perfeitamente normal acreditar e apoiar de forma irrestrita os mandamentos que o Führer pregava.

 

V

Outro fator foi preponderante não só para o estabelecimento da ideologia nazi, como também para a manutenção de Hitler no poder por mais de uma década. Curiosamente, um dos primeiros a denunciá-lo foi o próprio Speer, durante o Julgamento de Nuremberg: a manipulação estratégica das comunicações modernas. 

Com a popularização do rádio, por exemplo, o líder não precisava mais de enviar ordens que demoravam dias para chegar até aos subordinados, que teriam então de repassar a mensagem sem a força e o carisma necessários. Hitler falava diretamente com o eleitorado, entrava na intimidade dos lares alemães, conversava com pais, filhos, avós, tios de uma forma até então inimaginável.

Hoje em dia muitos já se acostumaram com a onipresença das mídias, com as mensagens instantâneas, informações a um clique de distância, mas na década de 1930 escutar a voz de alguém que não estava na mesma sala, ou sequer na mesma cidade, era ainda qualquer coisa de fantástico. O rádio e os filmes produzidos pelo ministro da Propaganda Joseph Goebbels tornaram Hitler ainda mais místico, mágico, venerável: uma entidade sobrenatural. 

O palco estava armado para que o Führer saciasse a vontade do povo que o idolatrava.

 

VI

Alemanha com raízes belicosas, pormenores geográficos que geravam necessidade de se manter militarmente forte a todo o instante, a vontade de se ter um líder para proteger as fronteiras dos invasores (um pouco como aconteceu/acontece com a Rússia), crises econômicas, propaganda falsa e paranoica, a tentativa de se encontrar um substituto divino diante da impotência religiosa, a busca por soluções precipitadas, ilusórias. Uma nação ressentida, diplomaticamente humilhada, um desastre anunciado.

Procurei apresentar o panorama instável que preparou o caminho de Hitler ao poder. A discussão, porém, é uma colcha de retalhos que não dá qualquer sinal de encolhimento. Melhor que seja assim. O nazismo e as peculiaridades do contexto no qual ele estava inserido não podem ser esquecidos; principalmente se levarmos em conta a conjuntura política contemporânea.

— P. R. Cunha


Referências bibliográficas

BESSEL, Richard. Alemanha, 1945, São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FEST, Joachim. Conversas com Albert Speer, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

GELLATELY, Robert. Apoiando Hitler, Rio de Janeiro: Record, 2011.
JASPERS, Karl. A questão da culpa, São Paulo: Todavia, 2018.
REES, Laurence. O carisma de Adolf Hitler, São Paulo: Leya Casa da Palavra, 2013.

RYBACK, Timothy W. A biblioteca esquecida de Hitler, São Paulo: Companhia das Letras, 2009.


Um gosto culto em literatura

Suponhamos que João, autodidacta, tem aquilo a que se chama «um gosto culto em literatura». João admira muitíssimo determinado livro — à laia de exemplo, vamos dizer que o livro é Relatório do interior, do Paul Auster. Quando começa a perceber que tantos outros também admiram um bocado o livro do Paul Auster, João perde o interesse. (Ou quando milhares de pessoas têm gosto parecido, e o sujeito sente-se menos único, menos especial, ele não é mais o transgressor [outsider] que gosta dos livros do Paul Auster, às escondias; ele agora faz parte de um grupo, clã, mar de gente. Tudo é copiado/copiável. O livro chega ao destinatário, destinatário não pensa [reflecte] a respeito do trabalho do autor do livro. Uma abordagem plausível seria: estou a ler a obra de certo autor, de um ser humano que dedicara tempo, anos, esforços para escrevê-la, talvez a empreitada tenha lhe custado uma perna, um casamento [ver também: amigos & familiares negligenciados porque fazendas literárias], valorizo tamanha coragem. Mas não pensa. Lê. Mastiga. Cospe. Até que o conjunto livro-autor é finalmente esquecido numa prateleira ao canto da sala de jantar e a vida meio que continua.)*

— P. R. Cunha


*Isto é claramente uma generalização arbitrária; se és lá um bom leitor (leitor educado, leitor atencioso, leitor-escritor), não te sintas atingido por palavras tão levianas.