devaneios da própria máquina de escrever (episódio #34)

vistosa a ideia de que a capacidade criativa do ser humano nasce quando a criança se dá conta de que possui um ego, «algo» dentro de si com fortes inclinações fecundadoras. está ali a circunstância, o caminho para transcender-se (& o digo sem nenhuma conotação mística-religiosa). o pequeno sujeito afasta-se dos limites impostos pelo corpo biológico, deixa de ser apenas criatura para também fazer parte de um contexto potencialmente produtivo — criar um objeto artístico?, criar-se a si mesmo? picasso dizia que toda a criança é artista, o problema é permanecer artista em adulto. é a tal imagem da semente: se negligenciado, o fruto não se desenvolve — semente nas entranhas da terra sem água para crescer. noutros termos: observardes as janelas se abrirem não fará muito sentido se não tiverdes força o bastante para mantê-las abertas depois.

— p. r. cunha

Tendência à introspecção

O sr. Jaspers está sentado no banco da Praça Central enquanto miúdos escolares jogam-lhe pedras. Não são pedras grandes e há também o sobretudo surrado do sr. Jaspers — a servir de escudo. As pedras batem no sobretudo, sobretudo amortece o impacto. O sobretudo, portanto, está para o sr. Jaspers assim como a atmosfera está para o planeta Terra. As crianças agem dessa forma porque ainda não têm discernimento, não sabem que jogar pedras no sr. Jaspers é errado. E o sr. Jaspers, que já foi criança numa altura, compreende, não se aborrece — apenas levanta a cabeça, observa o estado do céu. Cai a primeira neve, como se diz, neve fina, sonolenta. O sr. Jaspers não pode mais falar disto com a sra. Jaspers. Desta vez terá de guardar a primeira neve somente para si.

— P. R. Cunha

Carlos e Helena estão no Parque de Diversões

Carlos e Helena estão no Parque de Diversões. É um daqueles parques com toda a sorte de brinquedos redondos, altos, verticais, horizontais, crianças eufóricas de várias idades a gritar — aquele tipo de grito que ultrapassa cada oitava das frequências audíveis: grave, médio, agudo. Carlos e Helena acabaram de discutir sobre algum pormenor que incomodava-os. Em verdade, Carlos incomodava-se mais com o pormenor discutido do que Helena. Carlos dissera o tanto que aquele pormenor incomodava-o, enquanto Helena dizia que aquele pormenor também a incomodava. No entanto, por dentro, Helena sabia que o pormenor não a incomodava, apenas concordava com Carlos porque percebera nos últimos tempos que concordar com Carlos era a melhor forma de encurtar qualquer tipo de discussão, mesmo que, nunca é de mais repetir, mesmo que nem sempre concordasse com Carlos. Os dois estão de mãos dadas e Carlos insiste em dizer que já superara o pormenor, que o pormenor é coisa do passado, Carlos não pensa mais no pormenor, e que o facto de terem conversado, de terem exorcizado o pormenor, diz Carlos, só o facto de terem arrancado aquele pormenor de uma vez por todas era, diz Carlos, um grande avanço para o relacionamento dos dois. Helena mexe a cabeça, para cima, para baixo, concordando com Carlos enquanto tira um pedacinho de algodão doce rosa e coloca o pedacinho na boca. Eles entram à fila dos carrinhos de bate-bate, os carrinhos de choque, e os dois sorriem um para o outro, Helena sorri para o Carlos, Carlos sorri para a Helena. O funcionário responsável pelo brinquedo abre a porta de ferro que separa da pista metálica as pessoas que aguardavam à fila. Helena escolhe um carrinho preto com motivos cósmicos (luas, estrelas, planetas com anéis etc.); Carlos escolhe um bumper car amarelo. Aos poucos, os outros carrinhos também são ocupados. O funcionário aperta uma buzina e aciona o botão de funcionamento dos carrinhos. Carlos e Helena parecem se divertir, ambos inclinados para a frente, com os braços grudados no volante. Mas pela forma que Carlos bate no carrinho cósmico de Helena, pela forma que Carlos mira somente o carrinho de Helena, ignorando todos os outros carrinhos, pela forma obcecada que Carlos aponta o próprio bumper car amarelo ao carrinho de choque de Helena, percebe-se claramente que ele não superara pormenor nenhum.

— P. R. Cunha

Os dois lados da pequena Bete

Elisabete tem oito anos. Os amigos chamam-na de Bete. Em cima de uma bicicleta, Bete mostra-se destemida. Há uma floresta perto da escola dela, um local repleto de pinheiros, animais de toda a sorte e penhascos de arenito. Por ser sombria e isolada, muitas crianças da escola evitam a floresta, mas Bete entra ali com a própria bicicleta e não se importa de pedalar perto dos cervos, dos texugos e das lebres. O que pouca gente sabe é que Bete também é um bocadinho medrosa. Bete tem medo da velha estátua de bronze do fundador da cidade, Bete tem medo do gato laranja da senhora Francis, Bete tem medo de raios e trovões, Bete tem medo da sombra que os galhos fazem na parede do quarto antes dela dormir, Bete tem medo de os pais se separarem. Ela procura guardar todas essas inquietações dentro de si mesma. São os dois lados da pequena Bete, que ontem fora diagnosticada disléxica por um médico chamado Erling.

— P. R. Cunha