devaneios da própria máquina de escrever (episódio #17)

então que de muitas formas escrever é como cozinhar. você sente fome, quer preparar para si algum alimento, você ainda não tem tanta certeza do que quer comer. você vai até à dispensa & escolhe os ingredientes. pode ser que você não possua muita experiência & acaba que o prato não sai do jeito que esperava. falta um pouco de sal? ficou muito mole? passou do ponto? acontece de ser uma comida que você gosta imenso. daí não quer desistir, sabe? você volta, tenta de novo, vários dias, & começa a notar que a coisa ganha certa desenvoltura. acertara na quantidade de sal, muito boa apresentação — a consistência, bem, a consistência ainda deixa a desejar, mas você está no caminho certo. outras pessoas também começam a dizer: nossa, isto aqui, hein, está gostoso pacas… & você, um pouco encabulado, agradece: oh!, que nada, é só um prato. & você continua a empreitada: erra-acerta-acerta-erra-erra-acerta. quando você menos espera, chega a altura em que começa a improvisar. sim. aprendera a receita, pelo menos o suficiente para se sentir confiante & modificar & acrescentar outros ingredientes, dar o próprio estilo ao prato. certa tarde, supomos que seja quinta-feira, faz um calor dos diabos, & você escuta duas/três batidinhas na porta. você abre. é a sua avó que mora para o litoral, estava caminhando por perto, decidira visitá-lo, pois é bem isso que as avós fazem, não é mesmo? por sorte, quis o destino que você estivesse justamente a incrementar o seu prato, sabe, uma dessas agradáveis coincidências. a avó experimenta, faz uhmnnn!, isto é bom, muito bom mesmo, & ainda garante que foi uma das comidas mais saborosas que ela já comera na vida, & olha que ela já comera um monte de coisa na vida. &tc. &tc. &tc.

— p. r. cunha

Quatro argumentos para filmes curtíssimos

1. Marcha-atrás

Manhãzinha. Um homem com indumentária completa está a sussurrar no telemóvel. Ajeita a gravata e caminha lentamente até ao carro, um esportivo da marca Porsche. A câmera o acompanha à moda close e aos poucos se afasta. Vemos, então, uma linda casa aos fundos da cena: jardim com flores coloridas, grama aparada, janelas com molduras brancas, tudo impecável, paradisíaco. O homem está a falar com a amante. Ele diz para ela não se preocupar, pois daria um jeito naquela questão matrimonial. A amante do outro lado da linha parece insistir, grita alguma coisa inaudível. O homem entra dentro do carro e dá a partida na ignição. Motor Porsche responde com vigor. Não precisa de se preocupar, amorzinho — ele diz. Marcha-atrás, o homem ainda a segurar o telemóvel aos ouvidos. Porsche acerta alguma coisa. Ouve-se um grito abafado, como se o John Bonham tocasse o bumbo preenchido com cobertores da bateria utilizada pelo Led Zeppelin no final dos anos 1960.


2. Bodas de prata

A câmera está a enquadrar um álbum de fotografias cuja capa mostra um casal e certa frase com tipologias enfeitadas a dizer: 25 ANOS DE CASAMENTO — BODAS DE PRATA. O álbum está sobre a mesa da sala, perto de um sofá verde com almofadas vermelhas. Escutamos barulhos de fritura e de louças diversas. A câmera vai até à cozinha do apartamento e fixa-se à porta. A mulher da capa do álbum está sentada numa cadeira a ler o jornal; enquanto o homem da capa do álbum ora mexe nas panelas para a comida não grudar, ora lava a louça acumulada na pia. A mulher de quando em vez abaixa o jornal e, enfurecida, reclama: você é mesmo um inútil, Jardel, imprestável. O homem chora.


3. Surpresa

Escritório de uma firma. Cinco funcionários preparam a festa surpresa de alguém. Um deles diz: não posso acreditar… Os outros balançam a cabeça afirmativamente. Ana é tão nova, diz um outro enquanto ajeita doces e salgados sobre a bandeja. Essas coisas são imprevisíveis, diz uma moça a assoprar balões. Ana é uma das nossas melhores funcionárias, que tragédia, diz aquele que é provavelmente o chefe. Alguém entra na sala e se assusta com a cena. Surpresa, Ana! — todos gritam em uníssono.


4. Tela plana

Estamos no quarto de uma casa mobiliada com esmero. Câmera aberta, lente de grande angular. Todas as cortinas estão fechadas, de modo que não sabemos se dia ou noite. Podemos ver a parte de trás da cabeça de uma senhora grisalha a assistir televisão sentada numa poltrona felpuda. Trata-se de um programa a preto e branco, apesar de a televisão ser moderna (tela plana, fina, etcétera). A cabeça da senhora nunca se mexe.

— P. R. Cunha