devaneios da própria máquina de escrever (episódio #32)

assolado pela dúvida & pela inconstância do próprio trabalho, otto rank confessa numa digressão epistolar que em diversas ocasiões pensara em desistir da escrita, pois já existe um excesso de verdade no mundo, ele diz, uma superprodução que aparentemente não pode ser consumida. qualquer pessoa que tenha publicado livro & cometa a insensatez de entrar numa livraria para analisar (i.e. contar) estantes abarrotadas de obras, milhares-&-milhares de obras, corre o risco de perder-se na vala dos verbos. filas infinitas de brochuras alheias & a tua está ali também, intrusa, deslocada. que alguém abra o teu livro & decida levá-lo para casa não deixa de ser um capricho do acaso. conta-se com a sorte. &, como se sabe, a sorte não é necessariamente a deusa mais aprazível do panteão.

«se não sabemos para que porto ir
nenhum vento é favorável.» (sêneca)

ler sêneca me faz lembrar que as ondas por vezes se agitam, que quando elas batem furiosas no casco é justamente a altura em que o barco mais necessita de um capitão firme & seguro de si. o mesmo acontece com a embarcação do escritor. não se deve fugir da escrita quando a realidade sacoleja a cabeça literária, quando a vida se mostra irascível. porque se as coisas não andam lá muito bem, a boa & velha dupla caneta/papel ameniza angústias. tu sentas à mesa, anotas frases, o relógio como que desaparece, o tempo deixa de existir, estás de repente suspenso, a quarta dimensão (ou a hipótese das cordas quânticas, multiversos, teoria unificada [do pequeno para o cósmico]) agora faz todo o sentido para ti. foster wallace, henry james, tchekhov (et al.) diriam que esse alheamento quase místico é o mais próximo da imortalidade que se pode chegar.

P.S.: NEURASTENIA (ALGUMAS COISAS DEPENDEM DE NÓS, OUTRAS NÃO)

os exercícios do crossfit da semana passada deram-me calos nas mãos, que se transformaram em bolhas, que abriram & revelaram bolhas dentro das bolhas numa sucessão que deixaria a alice de lewis carrol um bocado irrequieta. não demorou nada &, noite após noite, banho após banho, meu organismo começou a fechar essas bolhas, os calos também desapareceram. & ao invés de me admirar diante dessa eficiência genética, desse conveniente processo regenerativo, senti foi pavor. medo de habitar este corpo autônomo que cura bolhas por si só, sem qualquer intervenção de «minha parte» (o que quer que «minha parte» signifique nesse todo que se desloca pelo espaço-tempo & que se vira quando alguém na rua grita o meu nome).

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #7)

uma daquelas manhãs em que se acorda & não se sabe ao certo se haverá algo, algum tema, ou mesmo faísca de ideia. 

a escrita é um prato que se prepara aos poucos.

sentar-se para escrever durante algumas horinhas talvez não faça diferença nenhuma. mas depois de um ano, cinco anos, oito anos de prática — acordar, escrever, acordar, escrever — o cérebro meio que entende/apre(e)nde: «ah, sim, o senhor quer criar literaturas, pois não»…

a máquina de escrever beneficia-se do hábito. acomodar-se diante dela, faça-chuva-ou-faça-sol, & esperar. porque sempre surge qualquer coisa.

há uma janela que dá para as traseiras da casa, ao jardim, ao campo de futebol. à noite, gosto de abri-la e mirar as estrelas — aquelas que consigo ver & aquelas que só consigo imaginar (70 sextilhões delas: mais estrelas do que todos os grãos de areia das praias terrestres). pontos luminosos que preenchem o céu noturno, que oferecem falsas impressões, ou melhor, falsas esperanças, pois, a despeito da ilusão de óptica (parecem tão próximas), essas estrelas se mostram absurdamente longe umas das outras, longe de nós, tão longe que quase poderíamos considerá-las todas inatingíveis.

é possível que num futuro mais apropriado a raça humana desenvolva tecnologias que permitam percorrer essas distâncias irracionais. porém, com o que temos hoje, limitamo-nos a observar a vastidão de espaços vazios, cosmo insaciável que desafia os nossos sensos mundanos de percepção.

ainda somos crianças tentando compreender o que há lá fora.

(ou estamos sozinhos nesta imensa morada cósmica ou não estamos. e ambas as possibilidades, como diria um antigo [& muitos daqueles que tentam responder ao paradoxo de fermi {afinal, onde estariam os extraterrestres?!}] assustam.)

por enquanto, fecho a janela que dá para as traseiras da casa, ao jardim, ao campo de futebol, à noite, ao infinito.

— p. r. cunha

Foguetes para a Rússia

Morei em São Petersburgo em 2009. Há dez anos, num mesmo 15 de agosto, recebia das delicadas mãos da senhora coordenadora do Departamento de Línguas o meu diploma russo. Nem precisaria dizer que essa foi a minha maior conquista de sempre, mas o digo mesmo assim. Uma década se passou e continuo à procura de respostas, muito consciente de que não faço a menor ideia do que significa estar vivo. Como escrevera um desiludido Geoff Dyer: toda a disciplina e ambição intelectual daqueles primeiros anos dissiparam-se.

Conversa com Andrei Vasilyevich à mesa perto do busto de Mendeleev, Universidade de São Petersburgo, crepúsculo: o despropósito da pergunta «o universo é infinito?»; por conta da expansão do espaço-tempo boa parte do cosmos mostra-se já inatingível para as pretensões humanas, então, filosoficamente, o universo é infinito. Vasilyevich reforça o facto de que o astronauta quase não consegue dar um simples pulinho até à Lua sem ser tragado pelo vácuo. Dificuldade da nossa espécie animal: reconhecer/aceitar as próprias limitações etc.

Doze seres humanos pisaram em solo lunar. Todos relataram perturbadora ansiedade durante os minutos que antecederam o descolamento que levaria o módulo de volta para o planeta Terra. Charlie Duke ajusta o próprio capacete enquanto observa a paisagem acinzentada pela janelinha da Apollo 16: certo, e se esta porcaria não funcionar?, e se ficarmos presos aqui?, o que faremos se tudo der errado?

Agora organizo fotografias que tirei durante o período russo: o Almirantado, o Cavaleiro de Bronze, o Palácio de Inverno, as catedrais, o percurso no Transiberiano, a Praça Vermelha, o último grande passeio que fiz com meu pai antes dele morrer. Sinto uma ansiedade diferente das inquietações lunáticas, oposta. Perguntar-se: será que um dia regressarei à Rússia?

— P. R. Cunha


Processed with RNI Films. Preset 'Fuji FP 100C'

Meu muito agasalhado papai — primeiro plano — encanta-se com as formas da Catedral de São Basílio, Praça Vermelha (maio de 2009)

Pensamentos (aparentemente) arbitrários de um tipo satisfeito com a própria fazenda literária

§ No início dos anos 2000, comprei um telescópio refrator de 110 milímetros com o objetivo de observar as ondas atmosféricas de Júpiter, os sombrios anéis de Saturno, e talvez até descobrir algum asteroide tinhoso que pudesse atingir a Terra — ao qual eu daria um qualquer nome latinizado: Paulus Renatus Letalis.

§ De modo genérico, quem adquire um telescópio refrator de 110 milímetros está basicamente a dizer: sou amador, sim, mas não quero apenas brincar de Nicolau Copérnico. Trata-se de um tipo com certa disciplina, que gosta de analisar os astros celestes com afinco, e no entanto não pretende pôr as receitas (e a sanidade) da própria família em risco largando tudo (emprego etc.) para se transformar num astrônomo a tempo inteiro.

§ Meus pais formaram-se em medicina, de forma que, em criança, não tive uma biblioteca repleta de romances e outros gêneros de ficção. Por vezes eu entrava às escondidas na Sala de Pesquisa, que era como papai costumava chamá-la, e abria aleatoriamente um livro de anatomia só para me deparar com fotos e ilustrações de doenças estranhas, e corpos deformados, e peles com hematomas inacreditáveis.

§ Passei muitos anos a lamentar essa lacuna na minha chamada «Formação de Ficcionista». Lia e ouvia histórias incríveis de autoras e autores famosos que em criança tiveram à disposição verdadeiros haréns literários, mais de mil obras dos mais diversos expoentes da tal literatura-que-vale-a-pena. Os meus pais ofereceram-me, no entanto, bibliografias minuciosas sobre a candidíase, a história da urologia moderna, como curar a infecção urinária, os sintomas do cálculo renal, tratamentos adequados das disfunções miccionais e não só.

§ Falando retrospectivamente, não é de assustar o facto de eu ter me tornado um escritor com inclinações lunáticas.

— P. R. Cunha

Defeitos de uma era espacial

Não vivi para os anos 1960, mas lá estavam os meus avós e os meus papai & mamãe versão adolescente com os olhos arregalados na frente do ecrã a preto e branco, à espera das imagens que mostrariam o primeiro passeio lunar de sempre. Uns tipos com capacetes arredondados, trajes rechonchudos, astronautas tentando descrever a solidão e o vasto vazio da paisagem de um outro mundo; em suma: Neil Armstrong e a frase que inauguraria a então promissora filosofia da Lua: «Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade».

Par de décadas depois, com a queda do Muro de Berlim, o fim da Guerra Fria, e após o colapso da União Soviética, as ideologias (tanto à direita, quanto à esquerda) decidiram que os investimentos espaciais já não valiam tanto a pena — afinal, o mercado livre e democrático vencera a batalha econômica. Rússia e Estados Unidos cancelaram gradualmente boa parte dos projetos mirabolantes, alguns dos quais, inclusive, ruminavam a possibilidade de se construir base permanente na Lua que permitiria aos humanos uma existência menos indecorosa.

Foram promessas nas quais muitos acreditaram — os meus ancestrais (vovô mais do que todos) também acreditaram. A cultura popular, principalmente livros de ficção científica e filmes hollywoodianos, produziu imensas narrativas que mostravam o êxodo terrestre, a astúcia humana a superar todas as dificuldades lunares, literatura à Asimov em que povos daqui e povos de lá enfrentavam-se em busca de direitos específicos (gentes da Lua a querer a independência, a querer criar as próprias regras, a cortar ligações com o Grande Governador do planeta Terra etc. etc. [vide Os próprios deuses, Isaac Asimov {Editora Aleph, 2010}]).

A verdade indecorosa é que a Lua — prateado objeto celeste que inspira tanta poesia romântica — fracassara. Aos poucos, viu-se que o astro noturno estava longe de ser um algures compatível com os caprichos humanos. Qualquer que fosse o investimento, a empreitada daria tanto trabalho e seria tão arriscada que os cientistas começaram a perder as estribeiras.

Até que entramos para o século XXI, ultrapassamos a marca de sete bilhões de pessoas, a quantidade de lixo aumenta exponencialmente, as calotas polares estão a derreter, os ciclones não param de destruir, os terramotos não param de destruir, as chuvas inundam, o calor mata, as florestas ardem, os animais silvestres estão a desaparecer, a atmosfera cada vez mais poluída, até que um certo Elon Musk olha, para, senta, analisa a atual conjuntura planetária, percebe que a coisa toda é de nos pôr a cabeça à roda, que estamos a aniquilar tudo e que, sim, precisamos urgentemente de uma alternativa. O multimilionário sr. Musk aponta a miniatura do seu SpaceX para o céu e diz: precisamos de ir a Marte.

Já lá no solo marciano andam alguns robots fabricados pelas agências espaciais, como que a preparar o terreno até à chegada dos ilustres convidados, i.e.: o animal humano. E quase se consegue escutar o suspiro de alívio daqueles que estavam preocupadíssimos com o cenário apocalíptico do qual nos aproximamos vertiginosamente à medida que poluímos cada m² deste que é o nosso verdadeiro habitat. Como se dissessem: o mundo não vai bem, e daí?, o sr. Musk tem um plano, o sr. Musk vai nos levar para viver em Marte. Encaram mesmo a situação com bons olhos, tal e qual o homem que cansara de sofrer na metrópole barulhenta e decidira mudar-se ao tranquilo rancho que recebera de um tio moribundo.

Acontece que Marte não é um rancho. Marte está bem, bem longe de ser qualquer coisa aprazível. Marte é o lugar para o qual você mandaria o seu pior inimigo, e mesmo assim pensaria muitas vezes antes de praticar tamanha atrocidade.

Pode-se fazer brevemente este exercício imaginário. Pense nos lugares mais inóspitos do nosso próprio planeta… por exemplo: o Deserto do Saara e a Antárctida. Quantas pessoas moram nessas regiões? Ou melhor: quantas vezes você e a sua família reuniram-se à mesa antes das férias e pensaram: e se passássemos uns meses no meio do Saara?, ou umas semanas felizes numa cabana isolada da Antárctida com temperaturas congelantes? Certo. Agora imagine uma morada cinco, dez, vinte vezes pior do que isso. Imagine um lugar onde você tenha que passar por todas essas variações climáticas em um único dia, um lugar em que você tenha de se proteger dos raios cósmicos, um lugar vermelho, marrom, repleto de tempestades de areia, imagine um sítio desse gênero e você terá só um bocadinho da sensação de como seria mudar-se para Marte.

Não à toa os projetos arquitetônicos marcianos parecem mais desenhos de bunker de guerra do que redutos de veraneio. Mesmo aqueles que pretendem dar visuais terrestres às habitações extraterrestres acabam esbarrando-se em desafios inacreditáveis.

Michael Morris projetou algumas casas marcianas até bem fixes, mas percebe-se logo que os modelos foram criados dentro de um confortável escritório com o termostato a indicar temperaturas amenas. Morris leva em conta os perigos meteorológicos de Marte, contudo, prefere falar de um sítio que, apesar de muito hostil, pode sim oferecer o devido conforto à vida humana.

Uma casa em Marte precisa de coisas básicas como oxigênio e água, diz Morris. Provavelmente — ele continua —, provavelmente terá de se levar tanques de oxigênio, mas também de se extrair água alhures.

Sim, coisas básicas. Água, oxigênio. Coisas básicas que o próprio planeta Terra oferece aos seus habitantes e que em Marte são commodities raríssimas — aliás, ainda nem se sabe ao certo como seria feita (se é que pode ser feita) a extração de água líquida em solo marciano. Já aqui no nosso Pálido Pontinho Azul, você simplesmente chega do trabalho sem tanques de oxigênio às costas, toma um duche, prepara a própria comida, brinca com os miúdos às traseiras de casa, tudo sem ter de lutar contra raios cósmicos sedentos para lhe oferecer uma infinidade de cancros, sem ter de cavar túneis quilométricos para achar parcas gotículas de água, sem ser engolido por imprevisíveis tempestades de areia vermelha, sem ser atingido por pedras errantes que invadem um céu praticamente sem atmosfera… 

Estão a perceber a ideia?

Morar em Marte significa viver confinado dentro das coisas: dentro de cúpulas, dentro de trajes espaciais, dentro de módulos. Morar em Marte significa carregar aparatos pesados que apenas tentarão simular os benefícios naturais da Terra. Morar em Marte significa respirar por aparelhos. E por mais que tentem ilustrar o planeta vermelho como apenas mais um destino exótico ao qual a humanidade adaptar-se-ia com desenvoltura, é preciso de lembrar, sempre, que Marte é terrivelmente mortífero, claustrofóbico, assustador.

Os anos 1960 trouxeram grandes (e ingênuas) expectativas para as colônias lunares. Porém as ilusões otimistas ainda não conseguiram superar os verdadeiros desafios da empreitada. Agora, muitos apostam todas as fichas numa possibilidade marciana. Mas fazem as apostas da mesma forma que o arquiteto Michael Morris monta os projetos de casas alienígenas: a respirar o gratuito ar terrestre, a tomar um sumo de laranja fresco, a escutar o reconfortante barulho do rio que segue o próprio curso até às águas de um vasto oceano Pacífico.

— P. R. Cunha


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Que tal viver em Marte? — paisagem realista e menos estilizada do planeta vermelho / ©ScienceNewsPhotos

Temporários

A obsessão dos maias pelo tempo levou-os a construir sofisticados observatórios para determinar estruturas de continuidade — padrões que hoje em dia, não sem um automatismo distraído, podem ser artificialmente especificados pelas entranhas de um qualquer relógio de pulso. Esses nativos americanos observavam com destreza o ambiente que os rodeava e assim procuravam estabelecer marcos que permitiriam análises importantes do tempo, ao qual sentiam-se submetidos. O império que olha para o céu e pergunta-se o que há para além, o que está a preencher os espaços vazios entre as estrelas, qual o propósito da vida.

Eles não apenas registravam com minuciosidade os intricados ciclos de corpos celestes, como também acreditavam que tinham por obrigação auxiliar o Sol, criador do mundo, a manter a fábrica do tempo funcionando. De facto, as origens dos sacrifícios humanos realizados por essa antiga civilização, sobre os quais a historiografia muito já discutiu, vêm justamente da vital necessidade de alimentar com sangue o insaciável apetite dessa entidade cronológica, que, como sabemos, antes de desaparecer ao abismo do horizonte veste-se de vermelho. Dia e noite, luz e trevas, um presente que a qualquer momento poderia deixar de ser. Os maias encaravam constantemente a possível morte de tudo e um dos maiores símbolos dessa reverência é a Pirâmide de Kukulkán (El Castillo), construída em alguma altura entre os séculos VIII e XII na antiga cidade de Chichén Itzá. Tudo ali remete aos caprichos do tempo: 91 degraus, quatro lados (4 x 91 = 364), mais um último degrau que leva ao cimo — 365. Eficiente calendário arquitetônico a representar as passagens, as jornadas tirânicas que ao fim e ao cabo arrastam tudo pelo caminho.

Incertezas sobre a continuidade ou não do mundo modificaram-se à medida que a humanidade desenvolveu para si equipamentos mais precisos que auxiliaram astrônomos na tarefa de desvendar alguns dos mais estranhos mistérios do cosmos. No entanto, a era do controle absoluto, do total entendimento desse rio que corre adiante e é feito de acontecimentos, como dissera Marco Aurélio, parece longe de se concretizar. A ciência moderna orgulha-se de possuir relógios que funcionam baseados nas propriedades do átomo, e mesmo esses quase infalíveis mecanismos não são capazes de explicar o que está a acontecer quando dizemos o tempo passa. 

O tempo, coisa estranha que não se deixa apanhar facilmente nas malhas do nosso intelecto — o foi e não é mais, o será e ainda não é — continua a intrigar deveras. Essa abstração que atravessa os séculos, que desafia o bom senso daqueles que tentam elaborar discurso coerentes a respeito dos chamados deslocamentos para o futuro desconhecido.

De acordo com a mitologia grega, Cronos seria o deus primordial do tempo, que rege todos os destinos e a tudo devora. Nascido de Gaia (Terra) e de Urano (Céu) — a quem, ainda segundo a lenda, Cronos destronaria com um certeiro golpe de foice. O caráter destrutivo dessa perturbadora divindade que casara-se com a irmã Reia é intensificado depois de os progenitores terem-lhe garantido que o seu destino era mesmo ser superado por um dos filhos.

O poeta Hesíodo conta em La Théogonie que o poderoso Cronos devorava sem piedade as próprias crianças mal elas saíam do ventre da mãe, com o único propósito de impedir que qualquer outro brilhante descendente do Céu obtivesse o privilégio de reinar sobre os Imortais. Conta-se que conseguira engolir todos, exceto Zeus, «substituído por uma pedra enrolada num pano, amparado pela enorme Terra e mantido em segurança na vasta Creta», bem longe da voraz ira paterna. Hesíodo explica ainda que, mais tarde, Zeus, seguindo os conselhos de Prudência, levara a Cronos uma certa substância laxante que o fizera primeiro vomitar a pedra que tinha engolido e, depois, uma a uma, todos os filhos que jaziam dentro daquela gulosa barriga. Com a ajuda dos irmãos libertados, Zeus — figura invencível e a quem as preocupações jamais o atormentavam — supera Cronos e despoja o furioso pai de todos os privilégios divinos.

Parece significativo que nas antigas narrativas gregas pais e filhos se relacionem amiúde de forma tão tempestuosa, vingativa, cada um a querer destronar o outro, sem nem ao menos importar-se com a possibilidade de jogar o adversário familiar às profundezas do mundo subterrâneo, cujo símbolo mitológico é representado por Érebo, descendente direto do Caos. A crer no mito, Caos — personificação do vazio, do abismo insondável — gerara sozinho as trevas: Érebo e Nix (Noite), que juntos se opõem à luz. O primeiro, especificamente, designa as trevas infernais, o crepúsculo. A descendência desse deus das obscuridades é imprecisa, mas especula-se que da união entre Érebo e Nix tenham surgido os elementos que, não por acaso, a literatura da psicologia moderna costuma associar às condições melancólicas: Phobos (medo), Mors (morte), Invidentia (inveja), Keres (miséria), Deimos (terror), e por aí adiante.

Olhar para o céu e questionar-se, portanto, sobre esse fluir dentro da eternidade, o surgir e o desvanecer das estrelas, do Sol, o amanhecer e o anoitecer — movimentos que trazem vida, levam à morte. Quando a espécie humana compreende que, em matéria de tempo, temos apenas um bilhete de ida, e que esse tempo raramente passa como gostaríamos, volta então as atenções para o longe, foge para o infinito repleto de matéria escura. 

Em agosto de 1877, o astrônomo Asaph Hall apontou para Marte o telescópio de vinte e seis polegadas do Observatório Naval dos Estados Unidos e ao cabo de grande esforço encontrara os objetos que há muito procurava. Os satélites naturais do Planeta Vermelho não eram luas grandes como a da Terra; na verdade, nem ao menos chegavam a ser arredondados — tinham um formato exótico, achatado, pareciam batatas descascadas por algum cozinheiro distraído.

É possível, no entanto, imaginar a euforia desse obstinado explorador cósmico ao descrever os últimos detalhes da própria descoberta, ruminando a respeito de como deveria batizar as luas marcianas. No topo de um diagrama caprichosamente elaborado numa folha amarelada está a palavra «Marte» seguida por esta lacônica descrição com letras cursivas: deus romano da guerra, da carnificina, da impulsividade. Embaixo, dois objetos amorfos representam as luas recém-descobertas, e, em destaque, pode-se finalmente ler os nomes escolhidos pelo astrônomo norte-americano: FOBOS e DEIMOS  irmãos gêmeos, anota Hall, que instigavam em campos de batalha a covardia e o pavor no coração dos inimigos.

O planeta da guerra com os seus pequenos guardiões da perturbação — e o inevitável destino desta excêntrica família de astros. Estudos posteriores constatariam que Deimos, a lua menor, está a se afastar do campo gravitacional de Marte, enquanto Fobos se aproxima cada vez mais da superfície. Deimos fugirá para uma longa e solitária jornada pelo cosmos; Fobos em rota de colisão com o planeta que lhe deu abrigo durante milhares de anos. Terror do abandono. Medo de se desintegrar. 

Marte agora é o patriarca autoritário que observa, espera, indiferente, o fardo agonizante dos seus súditos condenados há tempos.

— P. R. Cunha


Moons – from Mars

Quarta nota #5 — quarentena galática, ou Calvin a dizer para Hobbes que a maior prova da existência de vida inteligente fora do nosso planeta é o fato de nenhum extraterrestre ter ainda se arriscado a entrar em contato conosco

§ Há muito que este electro-sítio se transformara em espaço indefinido, etéreo, no limite entre fantasia e realidade. Por vezes o próprio autor não sabe ao certo o que é o quê.

§ Franzen diz que a ficção mais puramente autobiográfica exige pura inventividade.

§ Minha resposta predileta ao paradoxo de Enrico Fermi (se o Universo é tão grande, tão velho, possui tantas estrelas e tantos planetas habitáveis… — então cadê os alienígenas?) é a hipótese Zoo. Extraterrestres tecnologicamente avançados já teriam localizado a Terra, mas decidiram não intervir, pois querem manter a nossa sociedade funcionando de maneira autônoma. Desta forma, não seríamos muito diferentes daqueles animais cuja vida acreditamos salvar ao mantê-los em reservas ecológicas específicas. Estão a nos observar e talvez até esbocem um sorriso torto diante das nossas incontáveis parvoíces.

§ «Passeio a minha casa / como leão na jaula», o trechinho é do Ruy Cinatti.

§ Antiga tradição em África: os tambores mensageiros. Percussões cujas batidas não transmitem o simples, o direto — elaboram. Se o caçador sente medo, os tambores não dirão apenas «não sintas medo», pois preferem discurso mais ativo: «Tira o coração da boca, fá-lo descer já daí, deixa de lado a angústia desnecessária, respira com destreza», etc. Os percussionistas africanos, portanto, longevos cronistas da espécie humana, que ao fim jaz de costas sobre montes de terra.

§ Stan Lee: a prova de que os super-heróis também morrem.

§ Sr. Trágico chega ao próprio apartamento para ler aquelas palavras que de tão harmoniosas, ele pensa consigo mesmo, só parecem dignas de olhos flamejantes e entendimentos sublimes. Sr. Trágico percebe que está a escalar a lombada do venerado livrinho uma traça modorrenta, mui gulosa de papel. Dá um peteleco na traça, FFFFUUUPPTTT. Certeiro. Traça voa ao longe, caindo finalmente sobre o jogo de xadrez, em cima da mesa que deveria servir às refeições. A torre branca ameaçada pelo bispo preto. Dois movimentos e xeque-mate. Mas sr. Trágico, agora um bocado distraído pela suavidade das Musas em elogios raros, ainda não percebera a ameaça real. 

§ Terminou a 11 de novembro de 1918 a guerra que supostamente deveria acabar com todas as guerras.

§ Na última segunda-feira, papai teria completado 65 idades.

— P. R. Cunha