Rouxinol — & quando se percebe que a poesia (mundo das coisas que não se expressam, a não ser que sejam bem expressas / mundo dos poetas, mundo dos escritores [é Thomas Mann]), quando se percebe, portanto, que a poesia não é para tratar dos outros, mas sim para curar o próprio coração

Houve tarde
em que Rouxinol
deixara de cantar
naquela noite
morreu-se.

— P. R. Cunha

As oscilações do coração de uma borboleta

Na selva vive uma Borboleta. Todos os dias ela passa horas ao espelho ajeitando cuidadosamente as asas. Enquanto tenta escolher as cores adequadas, a Borboleta repete consigo mesma: preciso de estar aprumada para achar o meu príncipe encantado etc. A Onça, que não mora longe, telefona à tardinha para saber se tudo bem com a Borboleta. Elas então conversam muito e numa altura a Onça sugere o seguinte: tu estás sempre ao espelho, saia um bocadinho, a selva é vasta. A Borboleta, um pouco fora de si, responde que não pode, impossível, precisa de arrumar as asas, ficar bonita para o caso de encontrar o príncipe encantado, nunca se sabe. Essa Borboleta, que deve dormir sozinha novamente esta noite, completará oitenta e seis anos depois de amanhã.*

— P. R. Cunha


*Tudo isto é inteiramente verdade.

Coração à deriva, a bordo do qual ocorrem os versos a seguir

— Para a Kameni Kuhn

Invente-se poeta
um outro dentro de si
para colocar na pena alheia
o que se sente
intensamente

Poeta louco de verdade
que agita o próprio coração
cujos batimentos
semelhantes às hélices de um navio guerreiro
se ouvem a um oceano de distância

Fala a sós consigo mesmo
não louco a fingir
que vai buscar ao fundo
da alma
as feridas sem razão

Poeta engenhoso
ousado e malévolo
adentro do seu gênero
a espécie mais perigosa
de cometer

— P. R. Cunha