É o escritor de ficção um personagem; ou melhor: o escritor de ficção precisa de ser/tornar-se (também) um personagem?

Knut Hamsun foi um civil ambíguo, com inclinações sociológicas extremamente duvidosas, chegara mesmo a flertar com o nazismo. Porém, ao mesmo tempo, escreveu literatura com ímpar sensibilidade e desenvoltura. Tais contradições são mais corriqueiras do que se imagina.

Fome, o aclamado livro deste escritor norueguês, mostra-se até hoje um relevante relato sobre a vida daqueles que decidem-se numa altura dedicar-se à escrita a tempo inteiro. Narra as peripécias de um flâneur que perambula fantasmagoricamente pelas ruas de Cristiania (a Oslo contemporânea) em busca de ideias, imagens, cenas, personagens, qualquer coisa que o ajude a escrever crônicas para os jornais. O protagonista — alterego de Hamsun — depende desses textos para permanecer em pé, quitar dívidas, matar a fome, seguir em frente. Carlos Drummond de Andrade não só elogiara imenso a obra como tratou de traduzi-la para o português, agradável releitura poética que pode ser encontrada nas páginas publicadas pela Geração Editorial.

Quando a figura do autor mescla-se voluntariamente com a do personagem, surgem perguntas: afinal, quem é quem, o que é verdade, o que é ficção, que jogo é este?

Sabe-se que Knut Hamsun, entre outras coisas, foi marinheiro, lenhador, conduziu bondes, trabalhou em quintas criadoras de frango, ficara dias sem comer. Vivera períodos de intensa instabilidade, sem morada fixa, atormentado entre os Estados Unidos e a Europa. É possível decifrar um bocado disso nas páginas de Fome. No entanto, o que torna o livro ainda mais intrigante é o facto de o protagonista (mesmo que acompanhado «de perto») permanecer uma incógnita para o leitor.

Lê-se a respeito de um tipo excêntrico com roupas surradas, a levar consigo um toquinho de lápis para todos os sítios a fim de anotar as próprias impressões errantes. Um péssimo administrador financeiro, sem dúvida, chegando a gastar numa única ocasião todo o salário do mês que recebera como jornalista freelancer. O leitor descobre como ele age, sente, desespera-se, enche-se de esperança para logo cair num vale de lágrimas e infortúnios. Mas, mesmo assim, é como se as verdadeiras entranhas do protagonista permanecessem algures, paradoxalmente algures.

Hamsun reflete-se em Fome da mesma forma que gostava de se revelar na chamada vida real: cheio de segundas intenções, ora sofrível, ora magnífico, corajosamente medroso, uma esfinge difícil de ser decifrada. Não é simples, portanto, notar se foi o homem-escritor que mesclara-se com o personagem livresco ou se foi o protagonista-de-papel que alimentara uma existência ainda mais errática e contraditória lá fora.

A verdade é que autobiografias literárias permitem e até encorajam esse tipo de impasse. Principalmente quando as regras classificatórias (romance, ficção, literatura, história, relato documental…) não são esclarecidas ao público. De certeza que era essa a ideia de Hamsun, como se ele tirasse um sarro: sim, sou também personagem, costumo agir sem pensar, digo disparates, minha vida é um enredo em constante metamorfose. Fome esclarece-se, assim, como um fragmento, uma amostra dessa linha imaginária que se expande e se contrai de acordo com os caprichos da pena do escritor.

Que Hamsun chegasse ao ponto de finalmente não conseguir mais perceber em que verdades estava inserido e consequentemente ter parado numa clínica de loucos não deveria surpreender vivalma.

— P. R. Cunha

Brasileiro Moderno de Azevedo

Brasileiro Moderno de Azevedo é um daqueles estranhos casos em que não conseguimos definir a idade com a devida precisão que gostaríamos: tanto pode andar na casa dos vinte como na dos quarenta e cinco, cinquenta anos. Veste-se de punk, jamais folheou Karl Marx porque detesta qualquer tipo de viés ideológico — apesar de levar a mão direita ao peito enquanto toca o hino dos United States of America e colar bandeirinhas de Israel na traseira do automóvel Land Rover. Brasileiro Moderno defende os produtos nacionais enquanto toma uma garrafa de Coca-Cola na fila do McDonald’s escutando no próprio iPhone X (made in algures) o novo álbum do Jay-Z. Brasileiro Moderno diz-se democrático, mas trabalha numa empresa em que mulheres ganham 20,5% a menos do que os homens; diz-se também a favor de um governo que defenda os interesses de todos os cidadãos, mas vota em políticos homofóbicos. Tenta mostrar-se engajado e às vezes até sai para as ruas a fim de «protestar pelos direitos dos menos favorecidos», ocasião em que Brasileiro Moderno veste com-muito-orgulho-com-muito-amor a camisa do selecionado de futebol (R$ 500) comandada pela mui honesta CBF, que, como sabemos, quase não se mete em escândalos de corrupção. Depois de ter ficado rouco de tanto gritar frases como «Fora Rede Globo!», «Globo é Lixo!», «Basta de Novelas!», Brasileiro Moderno chega em casa, ainda vestido apropriadamente com a camisa desportiva amarela, e escolhe sem qualquer pudor o canal da TV Globo para assistir ao nacionalíssimo esquadrão de Tite — com 23 convocados, dos quais apenas três atuam no futebol local. Desnecessário dizer que o patriotismo de Brasileiro Moderno de Azevedo aumentará ou diminuirá de acordo com o resultado obtido pelos guerreiros futebolistas. Que vença, portanto, o Brasil.

— P. R. Cunha

Quarta nota #9 — há um bezerrinho chamado Pê Erre (e ele passa bem)

Porque amnésia — e certo descaso involuntário — escrevo estas notas de quarta-feira numa manhã de quinta-feira parcialmente nublada, vista cinzenta, glacial, sol modorrento a aquecer coisa alguma. À tarde, sorvete com a Jéssica.


§ Certa leitora que mora num rancho, na paz dos campos, como se diz, não muito longe da cidade de Pirenópolis, enviara-me agradável electro-carta a dizer que gosta das coisas que escrevo. A leitora acrescenta ainda que o rancho acabara de ganhar um novo bezerrinho e que o animal já tem nome: Pê Erre — singela homenagem a este que vos fala.

§ Aqueles que mexem com robôs sabem que os robôs vieram para ficar, que os robôs não estão para brincadeiras. E aqueles que mexem com robôs estão a dizer também que se queres competir com estas criaturas metálicas é melhor desenvolveres qualificações como o pensamento crítico, a resolução de problemas ardilosos, a criatividade, a comunicação, o espírito colaborativo.

§ Em suma, se queres competir com robôs, não ajas como um robô.

§ Na primária, Miranda divertia-se no parquinho da escola. Era uma pequenina realmente graciosa. Na adolescência, engordara um bocado porque tomava sorvete e comia quantidade absurda de bacon ao pequeno-almoço. Em mulher, entregara-se à cocaína e nunca saía de casa. Numa altura, namoriscou a ideia de se tornar comissária de bordo da TAP Air Portugal.

§ Excelente método para se ver livre da procrastinação (em fazendas artísticas e não só) é ter em mente que o amanhã pode não existir. «E se eu morrer?» Pergunte-se isso várias vezes ao dia, principalmente quando a ociosidade construir moradas. «E se eu morrer?» Preciso de começar um livro, são muitas páginas, mas vou escrevê-lo depois — postura clássica de aqueles que não percebem a imprevisibilidade da ceifa. O desconforto da nossa finitude, como já se disse, ajuda a produzir coisas intensas.

§ Animal humano que vive cheio de ruminações, que passa um tempo considerável a ser vítima de pensamentos insuportáveis, problemas invisíveis, vítima da ansiedade, e da raiva, e da inquietude, atormenta-se por angústias desnecessárias, esperanças vãs, temores absurdos, muitas vezes torna-se vulnerável ao extremo, frágil, prisioneiro de memórias equivocadas, tenta responder a uma realidade que já há muito não tolera — e coisas do gênero.

§ 8/4/2017: o juiz Sérgio Moro diz que crime de caixa dois é pior do que corrupção, um crime contra a democracia, é trapaça, pior do que enriquecimento ilícito. 19/2/2019: o superministro (sic) Sérgio Moro diz que crime de caixa dois não tem gravidade de corrupção, não precisa de estar no projeto anticrime, não há necessidade de incomodar os políticos com temas sensíveis.

§ As pessoas mudam, quer dizer…

— P. R. Cunha

Contradizer-se para dizer livro

Já se sabe que Franz Kafka não suportava a realidade. Certa vez, num sanatório em Kierling ben Wien, repetira a algum visitante distraído (provavelmente ao amigo Max Brod): tudo o que não é literatura me aborrece. A mãezinha não larga, ela tem garras — outro comentário kafkiano, desta vez sobre a cidade de Praga, mas que bem podia ser sobre a fuga literária que ele tentara implementar durante os breves quarenta anos e onze meses de planeta Terra. Jorge Luis Borges queria viver num sítio dentro das páginas de um gigantesco livro que abrigasse todas as histórias da humanidade. Mesmo depois de perder a visão, Borges ainda se trancava numa biblioteca e inventava outros mundos, porque aquele que se passa alhures nunca se mostrara o suficiente. Morreu em Genebra, perto das inúmeras enciclopédias que colecionou. Raymond Carver acelerava o processo auto-depredativo ao perder-se no álcool, na melancolia, e nas palavras — coquetel mortífero que, a história o confirma, levou embora tantos escritores cedo demais. Estes três exemplos devem bastar aos propósitos paradoxais desta crônica. Kafka, Borges, Carver — como se retratados por W. G. Sebald, que num ousado hiper-realismo coloca o leitor na perspectiva de um zepelim, a observar a esfera terrestre que habitamos cheia de corpos deitados, fila após fila, como se ceifados pela foice de Saturno. Um cemitério comprido, continua Sebald, sem fim, para uma humanidade epilética. Daí a necessidade de querer escapar ligeiro dessas aterradoras imagens de decadência e morte. Fugir, reconstruir para si os heróis — arquétipos, exemplos, referências — num outro universo, este muito mais aconchegante e controlável; aos livros, que não se aborrecem se você jogá-los num canto qualquer e só voltar a eles quando lhe parecer conveniente. Tais eram os antídotos adequados para uma sociedade que ainda dependia sobremaneira do entretenimento por escrito. Sem websítios, telemóveis, Netflix, o vivente perdia-se na literatura, nos jornais. Agora tropeçamos num ardiloso e inevitável juízo de valor: se a anestesia literária de outrora era mais, ou menos, eficaz do que a enxurrada de sedativos que a indústria do lazer proporciona atualmente. Talvez o número de suicídios — a aumentar a cada ano — consiga esclarecer alguns impasses, difícil dizê-lo. No entanto, pelos vistos parece pouco provável que diante deste excesso de sedativos tecnológicos alguém arrisque-se a confiar única e exclusivamente no chazinho feito de páginas de literatura.

— P. R. Cunha