devaneios da própria máquina de escrever (episódio #17)

então que de muitas formas escrever é como cozinhar. você sente fome, quer preparar para si algum alimento, você ainda não tem tanta certeza do que quer comer. você vai até à dispensa & escolhe os ingredientes. pode ser que você não possua muita experiência & acaba que o prato não sai do jeito que esperava. falta um pouco de sal? ficou muito mole? passou do ponto? acontece de ser uma comida que você gosta imenso. daí não quer desistir, sabe? você volta, tenta de novo, vários dias, & começa a notar que a coisa ganha certa desenvoltura. acertara na quantidade de sal, muito boa apresentação — a consistência, bem, a consistência ainda deixa a desejar, mas você está no caminho certo. outras pessoas também começam a dizer: nossa, isto aqui, hein, está gostoso pacas… & você, um pouco encabulado, agradece: oh!, que nada, é só um prato. & você continua a empreitada: erra-acerta-acerta-erra-erra-acerta. quando você menos espera, chega a altura em que começa a improvisar. sim. aprendera a receita, pelo menos o suficiente para se sentir confiante & modificar & acrescentar outros ingredientes, dar o próprio estilo ao prato. certa tarde, supomos que seja quinta-feira, faz um calor dos diabos, & você escuta duas/três batidinhas na porta. você abre. é a sua avó que mora para o litoral, estava caminhando por perto, decidira visitá-lo, pois é bem isso que as avós fazem, não é mesmo? por sorte, quis o destino que você estivesse justamente a incrementar o seu prato, sabe, uma dessas agradáveis coincidências. a avó experimenta, faz uhmnnn!, isto é bom, muito bom mesmo, & ainda garante que foi uma das comidas mais saborosas que ela já comera na vida, & olha que ela já comera um monte de coisa na vida. &tc. &tc. &tc.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #16)

certa noite, ernesto carrión, o famoso — ou melhor —, o relativamente bem-sucedido documentarista radiofônico estava deitado no sofá assistindo à televisão quando um besouro amarelo entrou pela janela da sala do apartamento atolado de papéis avulsos, cheiro persistente de toalha úmida, o carpete ao centro que, pelos vistos, não recebia as carícias do aspirador de pó há meses. os besouros percebem o brilho azulado da televisão, a luz laranja que vem das luminárias dos apartamentos & confundem essas claridades com a lua ou com o sol ou com qualquer outra coisa que deveria guiá-los para algum sítio seguro. mas lá está o besouro amarelo. voa feito um piloto bêbado pelo teto da sala & aterra no livro cujas páginas ernesto carrión folheava distraidamente. o encontro entre humano & besouro é curto, inusitado. ernesto curva a ponta do dedo indicador até apoiar a unha sobre a cabeça do polegar & levanta o besouro amarelo para os ares. o inseto tenta se estabilizar, mas cai torto, virado, com as asas voltadas para o chão. ernesto fecha o livro. fica observando as patinhas do besouro amarelo que se mexem de forma aleatória, como se tentassem agarrar um móbile musical para crianças. alguém na televisão comenta sobre a alta taxa de obesidade nos países desenvolvidos. ernesto vai até à cozinha. pega uma garrafa de cerveja no frigorífico. volta para a sala. o besouro amarelo continua de cabeça para baixo, parado, balançando as patinhas, sem propósito nenhum. ernesto carrión entorna um longo gole de cerveja & sabe que não demorará muito para começar a fazer comparações filosóficas entre a própria vida e aquele balançar despropositado do besouro amarelo.

— p. r. cunha

Turma de filosofia

Para Aguarela de Viagens

7h42 da manhã. Max entra na sala de aula. Com passos inquietos dirige-se ao quadro de ardósia e coloca sobre a mesa a própria maleta marrom que poderia ter pertencido a um qualquer espião búlgaro durante a Guerra Fria. Sem dizer bons-dias aos alunos e com os olhos fixos num horizonte invisível, o professor parafraseia Irvin D. Yalom: porque não podemos viver congelados pelo medo, criamos subterfúgios para amenizar o terror da morte. 

Os alunos permanecem em silêncio. Max continua:

Um curioso exercício filosófico consiste em nomear ao menos cinco pessoas que viveram durante o século XVI. Obviamente, o propósito da empreitada perderá todo o sentido se algum espertinho utilizar-se dos recursos Google e que tais relacionados. 

Vamos… Cinco nomes de pessoas que viveram no século XVI, assim, de cabeça.

A ironia, continua Max, é que estamos a viver na era das tecnologias midiáticas, numa altura em que raramente ficamos alguns minutos sem receber notícias de alguém ou de alguma coisa, e, mesmo assim, muitos não conseguem se lembrar de cinco, apenas cinco dos milhares de humanos que viveram há cerca de quinhentos anos.

É de se pensar nisto, diz Max, será que as pessoas de 2500 lembrar-se-ão de nós? Ou, num tom menos egotista, mais abrangente (aqui Max adota certa postura teatral, distante, está a desempenhar o papel dramático que tanto lhe apetece): qual será o legado desta época de abundâncias, de quantidades, dos planos de saúde, mas também de negligências memoráveis?

Um aluno tosse, outra aluna leva o dedo em riste aos lábios e faz shhhh!

Talvez até lá, prossegue Max, seres humanos e robôs tenham se fundido, transformaram-se num organismo inclassificável. Ciborgue que não dá a mínima para as instabilidades cronológicas e psicológicas do ultrapassado e emotivo Homo sapiens. O próprio interesse em fazer perguntas perderia um bocadinho o sentido, pois as respostas, se levarmos o Elon Musk a sério, estariam embutidas na programação da «placa-mãe» (Max faz as aspas aéreas), o famigerado cérebro de silício atualizável.

— P. R. Cunha

Arquiteto literário: modos de usar

Vê o caso dos contos. Como nasce uma narrativa breve, curta? (Penso nos contos porque embriões de [quase] todas as formas literárias [como diziam os antigos: o romance é lá um conto cujo final fora constantemente adiado pelo autor].) Então, repito, como nasce um conto? Estás a caminhar num país estrangeiro e escutas qualquer coisa exótica. De aí vêm cenas inusitadas à tua cabeça; trechos, recortes. Se colocas esses fragmentos numa folha de papel terás quem sabe uma promissora antologia de contos. Obviamente, quererás adicionar um ou outro adereço com viés fantasioso — o «gostava que tivesse sido assim». És também um arquiteto quando escreves o conto, percebes? Os parágrafos são as paredes da tua morada. Ainda dentro da analogia arquitetônica: o teu estilo tornar-se-á o paisagismo, a decoração interior. Há casas mais bonitas, outras mais feias. O leitor olha e reconhece. Isto é certinho.

— P. R. Cunha

Assim era o Herbert

O Herbert tinha dentro de si, ela disse, aquela certeza ingênua de que podia ganhar a vida de maneira decente, com as próprias mãos — e aqui ela sacode as mãos —, sem precisar lamber as botinhas a ninguém. Um homem amiúde calado, ela disse, mas quando começava a falar, não parava, falava pelos cotovelos, e citava uma série de termos da geografia portuguesa: Pedrógão Grande, Aveiro, Zêzere, Trás-os-Montes, Beira Baixa, Leiria, Entre-os-Rios, Bragança, Mirandela, Freixo de Espada-à-Cinta, Mesão Frio, Murça, Torre de Moncorvo, Valpaços e não só.

A gramática, dizia o Herbert, ela disse, a gramática para ele era apenas instrumento, ferramenta. O Herbert lembrava então de uma cena em que o pai dele tentou pregar um quadro do Cézanne, acho que o Femme au chapeau vert, utilizando o cabo de uma antiga chave de fenda 3/16 x 12”. Talvez o martelo se mostrasse mais adequado para aquele empreendimento, dizia o Herbert, mas o objetivo (i.e.: deixar o quadro grudadinho na parede) fôra devidamente alcançado, acrescentando ainda, o Herbert, que a moldura permanecia exatamente no mesmo lugar, sem qualquer sinal de instabilidade. 

Chave de fenda, martelo, Cézanne, gramática — Herbert.

Uma vez me falaram que ele tinha uma doença chamada alexitimia, condição terrível em que o indivíduo se vê incapaz de exprimir a própria vida emocional. Mas isso era uma grande bobagem, ela disse, o Herbert não tinha alexitimia coisa nenhuma.

O Herbert estudava cérebros, queria aprender como eles funcionavam. Um homem tem de tratar das necessidades básicas antes de se pôr com luxos, ela disse com ares conspiratórios. E quando ele falava sobre os cérebros, miudezas relacionadas aos cérebros, que temos neurônios que disparam e fazem novas conexões a todo o momento, e que esses disparos, o Herbert explicava gesticulando à beça, ela disse, esses disparos determinariam o caráter de todas as nossas experiências, ela disse, quando o Herbert falava sobre esses assuntos cerebrais sentia sempre que dava um bocadinho nas vistas dentro dos inúmeros cafés que costumava frequentar.

Torneio de futebol em criança, primeiro beijo, a primeira ereção, os tombos, as primeiras reprovações, quebrar a perna nas férias, algum sucesso acadêmico, outros fracassos amorosos, universidade, prêmio de literatura, paternidade, doenças, viagens alhures, quase morrer afogado num desastre náutico; nunca somos os mesmos, o Herbert costumava dizer. E depois de uma significativa perda, ela disse, o Herbert me contou uma das coisas mais fascinantes que já ouvi: que não é o tempo que cura o luto, somos nós que nos modificamos, transformamo-nos num outro, a carcaça pode até ser a mesma, mas lá dentro é outra coisa, criamos novas sinapses, seguimos em frente, esquecer-se é tão importante quanto lembrar-se.

Ele tinha por hábito levantar a chávena de café, como se estivesse a brindar com os deuses, era gozado de assistir. Minha satisfação com o café, dizia o Herbert, minha satisfação com o café é sagrada, de maneira que detesto ser incomodado enquanto tomo o meu café, dizia o Herbert, o sujeito tenta relaxar e beber um café, e de repente alguém está a lhe chamar sobre os ombros, e você vira, e percebe que esse alguém se aproxima, um alguém que de certeza lhe conhece, mas você não faz ideia de quem seja, você só quer tomar o seu café sem ser incomodado, e o tal sujeito faz que quer um abraço, aquela posição absurda de abraços em público, e diz: «porra, Herbert!, onde você se meteu?!», mas você ainda não faz a menor ideia de quem seja essa pessoa, você não lembra, existe um vazio na sua consciência, um vazio do tipo: «quem diabos é esse ser humano que quer meu abraço?», você tenta, mas não consegue recordar, você pousa a chávena sobre a mesa, levanta, dá-lhe um caloroso abraço e grita: «pois quanto tempo, meu amigo!», e você começa a se odiar, muito, dali em diante. Assim era o Herbert, ela disse.*

— P. R. Cunha


*Há algo de reconfortante nesta de se esconder num quarto fechado, à escrivaninha, rabiscando narrativas etc. A luz da luminária que aquece o meu cocuruto enquanto a caneta desliza, ou melhor, dança sobre as linhas de um palco de papel creme. Durante vários meses acordei com este nome, Herbert, na cabeça e o personagem começou a me perseguir como um palhaço de Stephen King. Até que recebi um WhatsApp do editor de certa revista literária chamada BIGCRUNCH (desse jeito: anglicismo, caixa alta, tudo junto) a encomendar contos e achei que poderia ser um momento interessante para exorcizar o Herbert. A estória acima, portanto, seria publicada no primeiro número da BIGCRUNCH — junho de 2018 —, mas por questões financeiras a revista nunca chegou a existir.

Autoestrada

O automóvel está a trepidar como se tivesse a doença de Parkinson. É o pneu, ela diz. Ele segura o aro do volante com força. O pneu, ela repete. Ele para o carro no acostamento, aperta o botão do pisca-alerta. A estrada está vazia, é início de tarde, talvez 14h. Com as costas das mãos ele enxuga o suor que desliza sobre a testa. O pneu furou, tenho a certeza disso — ela diz. Ele abre a porta, sai e dá uns pontapés no pneu dianteiro esquerdo. Furou, ela diz, imóvel no banco do passageiro. Uma camioneta amarela passa em alta velocidade; ele limpa as mãos na bermuda e acompanha a camioneta até ela desaparecer no horizonte da estrada. O pneu furou mesmo, ela insiste e depois cospe um pouco de tabaco mascado com evidente desdém. Ele então começa a rir, uma risada ruidosa, uma risada de louco.

— P. R. Cunha

A arte e a maneira de abordar escritores que porventura escreveram livros ruins

Então você investiu dinheiros numa obra literária — chegou em casa, sentou-se à escrivaninha e começara a folhear o livro. Alas!, trata-se de uma narrativa horrorosa, ilegível. Você, naturalmente, está agora a se sentir um bocado lesado e diz para consigo mesmo: que assim não fica, preciso de reclamar com o autor, gângster, salafrário, bandido etc.

Mas como fazê-lo?

A verdade é que quando o escritor escreve algo ruim ele acaba descobrindo de um modo ou de outro. Percebe quando se dá mudança de atenção, descobre pelo jeito diferente que dele se afastam, por se evitar comentário, pelo rosto choroso da mamã que arranca os cabelos a pensar: e o gajo largara tudo para escrever e ainda me escreve isso —, ou mesmo pelo modo indiferente da suposta pessoa amada que não consegue esconder ojeriza.

Noutros termos, quer se diga claramente ao escritor ou não, ele tomará conhecimento de alguma forma. Ao passo que saber compartilhar uma crítica com um literato (i.e.: o senhor vai me desculpar, mas o seu livro é terrível, odiei-o) é sem dúvida uma verdadeira arte.

Respire fundo, acalme-se: comunicar a notícia de maneira branda e gentil faz com que o escritor continue depositando esforços para quem sabe um dia aprender o próprio ofício adequadamente.

Quanto mais simples o modo de se expressar, mais fácil é para ele ponderar depois. Alguns apreciam quando recebem a crítica na intimidade do próprio gabinete, através de carta convencional e/ou electro-carta. Mostre que você possui um coração e evite, portanto, recorrer de imediato às redes sociais ou aos tabloides irascíveis — isso magoaria imenso o sentimento alheio. 


Post scriptum: não se surpreenda, no entanto, se mesmo depois de tanto zelo receber respostas belicosas do escriba, tais como: Tu que não compreendes patavina de literatura; Eu cá sou o melhor escritor do mundo, não te devo um vintém; Nunca escrevi para leitores d’esta geração, minha obra é para aqueles do futuro; e assim por diante.

— P. R. Cunha