devaneios da própria máquina de escrever (episódio #38)

o menino acorda com os gritos da briga dos pais. é o quinto, ou melhor, o sexto domingo seguido que isso acontece. o menino acha que os pais brigam aos domingos porque é justamente o dia em que o pai, motorista de trator, fica em casa. os gritos trafegam em todas as frequências audíveis: graves, agudos, médios etc. o pai claramente é o contralto da orquestra. a voz da mãe modula-se de acordo com o andamento da partitura: por vezes tenor, daí soprano, noutras vezes barítono. a sinfonia é insuportável, pensa o menino. nos dias da semana, os pais não brigam porque cada um fica, como se diz, «na sua». o pai a dirigir trator, a mãe a vender miudezas na quitanda da dona célia, uma senhora redondinha que nunca tira o lenço da cabeça. o menino está claramente a desenvolver uma aversão aos domingos. ele sai de casa para arejar os próprios pensamentos. o sol da manhã já se mostra cruel. o menino vai até à beira do rio. a água do rio que passa & jamais volta, ele lera qualquer coisa do gênero na biblioteca da escola, em algum livro sobre o conceito de tempo, passagem do tempo, entropia, algo assim. o menino agacha-se & ao colocar a água na boca ele pensa que ninguém jamais tocará naquela água novamente. ele agora reflete se deve cuspir a água de volta para o rio, a ver se o acaso levaria aquela mesma porção de líquido às mãos de uma outra pessoa. antes de decidir (se cospe ou não cospe), o menino escuta um barulho distante de tiro de pistola. os pássaros assustados abandonam apressadamente os galhos das árvores. & o silêncio. aquele silêncio de morte, tão comum aos domingos, sussurra o menino.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #29)

julián benítez distraíra-se à cafeteria da firma. o céu azulado de uma noite chuvosa misturava-se com o branco da lâmpada fluorescente tubular dando ao recinto um aspecto ligeiramente mais otimista do que um necrotério. quando olhou para o relógio digital, que por superstição ele usava no punho direito, julián benítez sussurrou para si mesmo: droga! daí correu para a própria mesa com divisórias sob medida (um metro & sessenta de largura, um de profundidade, quinze centímetros de altura, cor: bege), pegou a maleta & a chave do fiat que estava jogada ao lado de um livro sobre análise de sistemas. ao caminhar até ao elevador, os sapatos de julián benítez pressionavam a tapeçaria do corredor da firma & faziam um barulho de desenho animado. entrou no automóvel. respirou fundo. deu a partida. não ligou o rádio. durante o trajeto, algumas perguntas que muitos rotulariam como «questionamentos filosóficos» inquietaram o silêncio de julián benítez: qual o propósito do trabalho?, por que as pessoas decidem se casar?, por que se separam? por que elas viajam a lugares estranhos?, por que usamos as roupas que usamos? ele estacionou o fiat na vaga 605 do prédio & acenou com a cabeça ao reconhecer o porteiro do turno da noite. o porteiro bocejou dentro da cabine de vidro enquanto levantava a mão para retribuir o aceno. julián benítez abriu a porta do apartamento sem fazer barulho. tirou os sapatos & colocou-os perto do sofá da sala. na cozinha, bebeu um copo d’água & lavou o resto de louça que estava na pia. antes de ir tomar banho, passou pelo quarto do bebê. o bebê dormia com a barriguinha para cima, as mãozinhas praticamente coladas nas grades do berço. julián benítez ficou a observar o sobe-&-desce da barriguinha do bebê. até que a barriguinha do bebê parou de subir-&-descer. julián benítez esperou que a barriguinha se movesse novamente, mas a barriguinha não se movia, ele se aproximou do berço. a barriguinha ainda não se movia. ele se inclinou de forma abrupta. quando estava prestes a segurar a cabeça do filho, o bebê fez um ruído de bebê & a barriguinha voltou ao sobe-&-desce. julián benítez cambaleou-se até à suíte do casal. abriu a torneira. molhou o rosto. sentia vontade de chorar.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #15)

PEQUENO PEDAÇO DE TORTA COM SABOR DO DIA-A-DIA / ESCRITORES NÃO ENLOUQUECEM, JOGADORES DE XADREZ ENLOUQUECEM

ontem levei a minha olivetti lettera para tomar sol ao terraço & a campainha tocou. vejam bem, não gosto de ser incomodado enquanto escrevo, muito menos enquanto escrevo ao terraço com a minha olivetti — ambos a ingerir as chamadas «doses diárias de vitamina d». (sou mesmo um daqueles intratáveis com tendência para lidar com as mais simples tarefas [atender à campainha, por exemplo] de forma tão rancorosa & descomedida que a coisa toda ganha proporções hercúleas, torna-se absurdamente cansativa, irrealizável.) então me arrasto até ao interfone, que possui pequeno ecrã através do qual posso observar quem está lá fora. percebo um sujeito taciturno, por volta dos quarenta, mordiscando palito, boné com a marca da transportadora estampada. retiro o interfone do gancho & digo com voz ressentida: pois não… o rosto do sujeito se aproxima da câmera do interfone: é da transportadora. encomenda para quem?, insisto. para a senhora ([pausa] aqui ele tira um papelzinho do bolso), para a senhora flávia. não há flávia nesta casa, eu digo. ele faz cara de quem comeu pastel estragado: nenhuma flávia?, tem certeza? ora, eu digo, é claro que tenho a certeza, moro aqui há mais de quinze anos &, garanto, nunca vi nenhuma flávia. o funcionário da transportadora olha em redor, coça as têmporas, relê o papelzinho que tirara do bolso: é que está escrito flávia, compreende? compreendo. & ela não mora mesmo aí? não, não mora. certo, diz o funcionário num tom hostil, certo, certo, certo. depois, com desprezo, cospe o palito no meu jardim — toda a cena devidamente enquadrada pelo ecrã do interfone.

— p. r. cunha

Sábado noturno

Alonso Rivera ergueu o dedo em riste para o barista, que de má vontade levantara-se da cadeira de onde assistia à final do torneio futebolístico. Quase sem tirar os olhos da televisão, o barista encheu o copo de Alonso Rivera e da rapariga que estava ao lado dele. Depois fechou a garrafa de uísque, afundou-se novamente na cadeira. A rapariga era no mínimo uns vinte anos mais nova do que Alonso Rivera, facto que não passara despercebido para os outros sentados à bancada, que vez ou outra cochichavam entre si qualquer coisa maliciosa a respeito. Os dois — Alonso Rivera e rapariga — pareciam não se incomodar. Bebiam o uísque, conversavam sobre jazz, literatura latino-americana, ele tocava suavemente nas costas das mãos dela, ela sorria, ele contava mentiras, ela ajeitava os cabelos e fingia que acreditava. Só aquela noite, pensou Alonso Rivera enquanto levava o último gole do líquido escuro à boca, só mais uma noite. E cada um finalmente partiria para o seu lado, sem se tornar a ver.

— P. R. Cunha

Castelo em ruínas mostra-se inapto para receber a velha rainha

Chamam-na Dolores. O cérebro de Dolores está cheio. Cheio de imagens, de publicidade inútil, de filmes, de músicas, de barulhos, de discussões, de empréstimos, de obrigações, de tecnologias, cansaço, contas a pagar, um caso mal resolvido com o colega da firma, infiltração na casa de banho. O cérebro de Dolores está cheio e ela precisa de escrever romance. Ela se dá conta de que há muitas variáveis. Ela sabe que diante de tantas variáveis fica difícil escrever romance, simplesmente não há foco, e que a falta de foco é o verdadeiro motivo da própria falta de grandeza, e, poder-se-ia dizer ainda, falta de romance etc. Excesso de opções. Dolores costuma explicar meio que para si mesma que o cérebro é bem uma espécie de castelo. Então o castelo de Dolores está em ruínas. Um castelo que necessita de reparos se pretende receber a rainha, cuja alcunha a história do mundo reconhece como Literatura. Mas é sabido também que Dolores gosta de dançar, paixão que lhe apetece desde tenra infância, como se pode ver a seguir:

181402_26_trinixy_ru

Quando Dolores dança, Dolores consegue pôr um pouco de ordem em seus devaneios. E o romance, o livro prometido, até se mostra um bocadinho mais atingível.

— P. R. Cunha

Quem é que está a rir agora

SALA DE INTERROGATÓRIO, 21H54

O polícia Ionesco fecha a porta atrás de si. Joga a pasta com os documentos de investigação sobre a mesa. A mesa de metal range e balança como se fosse uma velha locomotiva soviética. A mulher sentada assusta-se imenso com o barulho, recua. Os dedos nodosos dela movem uma madeixa de cabelos que está a cobrir-lhe o olho direito (especificamente o olho direito). A mulher parece embriagada, ou sob efeito de soníferos (calm caps).

IONESCO: dama, vou precisar que repita… [breve pausa, Ionesco fita a câmera de segurança, prossegue], por obséquio, preciso que repita o seu nome.

[Sem olhar para o polícia, a mulher diz: Marta.]

IONESCO: de quê?

MARTA: isto é mesmo necessário?

IONESCO [toma notas, levanta a manga do paletó, olha para o próprio relógio, depois compara-o com as horas do relógio de parede da sala de interrogatório]: sim, dama, completamente necessário.

MARTA: Marta, Marta de Albuquerque, senhor. [Um senhor que soa teatral, jocoso, como um soldado rebelde que responde sem vontade aos superiores.]

IONESCO: gostava que a senhora Marta de Albuquerque contasse-me o que realmente aconteceu na noite de ontem.

MARTA [olha para as mãos de Ionesco, sem anel]: já foste casado?

IONESCO: como é?

MARTA: não sejas um idiota, a pergunta é simples. Já foste casado?

IONESCO: não compreendo como isso pode nos ajudar aqui, senhora Marta de Albuquerque.

MARTA: briga entre marido e mulher, foi isso, uma simples briga entre marido e mulher. Se tivesses sido casado, compreenderias.

IONESCO [sem esboçar qualquer tipo de reação abre um dos envelopes e tira uma pilha de fotografias. As imagens mostram um homem roxo com inúmeras facadas no peito, o pescoço aberto, os olhos vidrados e sem vida parecem antever um encontro com o próprio diabo. Ionesco organiza metodicamente as fotos sobre a mesa, tal qual psicólogo durante aqueles estranhos testes de sanidade]: simples briga entre marido e mulher.

MARTA [solta um desdenhoso humn]: francamente… [pausa]. Estávamos no quarto. A minha irmã tinha acabado de ligar. E ela tem um daqueles casamentos perfeitinhos, sabes?, o marido perfeitinho, os filhos perfeitinhos que tiram notas perfeitinhas, e passam as férias a ler Gontcharóv, Tchekhov, escutando Claude Debussy, e escrevem resenhas a explicar os porquês de acharem que o niilismo de Sartre faz mais sentido do que o niilismo de Nietzsche. Eu desligo o telemóvel e digo: Francisco, quero o divórcio, do jeito que está não pode. Mas o Francisco nem me olha, fica a ler o jornal, como se, sei lá, como se eu estivesse a fazer a previsão do tempo, se chuva, se sol, essas coisas. Então eu decido insistir, porque, sabes, quero mesmo resolver tudo de uma vez por todas. O Francisco continua lendo o jornal: Francisco, estou a falar a sério, quero o divórcio. Devo ter repetido isso umas cinquenta vezes, percebes? E estava a aturar o silêncio do Francisco da melhor maneira possível, eu inspirava e expirava e dizia para mim mesma: tem calma, mulher, tem calma. Até que numa altura eu disse: Francisco, estamos a nos divorciar, amanhã vem aqui uma advogada, vamos nos divorciar, e o Francisco ri-se, um daqueles risos que duram apenas alguns segundos, riso de escárnio, prepotente, riso imbecil, de uma superioridade desprezível. [Marta olha para a mesa, dá duas batidinhas com o indicador na superfície lisa de uma das fotografias do homem mutilado]: pois bem, garanhão, quem é que está a rir agora?

— P. R. Cunha

Há algo de errado, mas não se sabe ao certo o quê

Ele está a lavar a louça. Ela passa, espreguiça-se e diz: bons-dias, Frank. Sem desviar os olhos do conjunto esponja-prato-talheres-detergente, Frank acena com a cabeça. Ela abre a geladeira e pega do fundo um copo de requeijão light. Frank distrai-se, alguma coisa cai na pia e faz aquele barulho metálico de coisas que caem na pia — talvez um garfo, ou uma colher. Ela fecha a geladeira com imensa força e diz com voz infantil: ora, Frank, que tal se tomássemos cuidado com a louça? Os lábios de Frank tremem, mas hoje ele não irá dizer nada.

— P. R. Cunha