Running

Helena veste o casaco, o casaco é vermelho, grená, tipo a cor da camisa de futebol da Associazione Sportiva Roma, Helena não assiste ao futebol, de forma que essa comparação cromática não faz muito sentido, a não ser que ela passasse na frente de uma vitrina especializada & lá estivesse exposta a camisa da Associazione Sportiva Roma num daqueles manequins sem face que assustam as crianças propensas a ideias mais fantasiosas, «veja, é a mesma cor do meu casaco», dir-se-ia, no entanto, & isto é importante, teria de ser a camisola estilo home, uniforme principal, pois o segundo modelo é branco, e aí mesmo que a comparação não iria fazer sentido para a Helena, que achara o tom do casaco vermelho-grená agradável, & agora veste-o para sair às ruas vazias da própria cidade à laia de praticar o running com o Sérgio, ex-namorado da irmã da Helena, ao que esta prática desportiva não deixa de ter também uma pitadinha de desconforto, de inadequação, de travessura, de ousadia, a ver se a modernidade está mesmo preparada para uma guinada dessas (pensamento dela), etc., ainda mais se levarmos em consideração que Sérgio/irmã da Helena só oficializaram o término do relacionamento na tarde anterior, aproximadamente às 16h32, pouco antes da consulta oftalmológica da Helena, cujo grau (miopia & astigmatismo) aumentara menos do que se esperava, o que não vem ao caso, pois agora ela & Sérgio correm na berma da outrora movimentada avenida central da cidade, o clima deleitoso, o vento refrescante do início da noite, o suor que começa a escorrer pelas têmporas, o Sérgio que de quando em vez olha para o rosto da Helena, mas Helena está compenetrada na berma da avenida, então Sérgio desvia o olhar, & Helena que olha para o rosto do Sérgio, que está compenetrado na berma da avenida, no hidrante amarelo pelo qual ambos passam a uma boa velocidade, no exato momento em que Helena sente umas cócegas estranhas na região da cintura, algo que lhe pinica deveras, & ela começa a se coçar, tenta ser discreta, mas ninguém consegue praticar o running/coçar-se/ser discreto, & quando ela coloca a mão dentro da roupa, percebe que não retirara a etiqueta com o preço do casaco, etiqueta grande, do tamanho de uma carta de baralho, com a palavra «LIQUIDAÇÃO» destacada com marca-texto amarelo, & Sérgio, constrangido pelo próprio voyeurismo, limita-se a sorrir sem mostrar os dentes.

— P. R. Cunha

Acidental

O afoito e desajustado Raul está à portaria do apartamento de Milena. Ele segura um buquê de flores que colhera sem grandes pretensões no meio do caminho: conjunto amorfo de alamandas (Allamanda cathartica) e cinerárias (Senecio cruentus). No jantar de ontem, Raul mastigou qualquer coisa pontuda que arrancara-lhe um pedaço considerável do segundo pré-molar esquerdo. Ele olha para os dois lados da rua, aperta o botão do interfone, e com a ponta da língua começa a pressionar a cratera afiada do dente quebrado. O interfone faz então barulho de rádio sem frequência e uma voz feminina diz: é quem? É Raul, ele responde. A porta estala e se abre. Raul sobe.

— P. R. Cunha

Armário embutido

Tendo voltado de um longo & ardiloso dia de trabalho, Sebastião é recebido pela filha pequena com os beijinhos & os abraços & ele pergunta: mamã, onde está?, a filha diz que mamã está no quarto, & antes de Sebastião abrir a porta do quarto eis que surge a mamã; ela aparece para recebê-lo com assaz de alegria, alegria desmedida, pensou Sebastião, que há tempos não notava um sorriso no rosto da esposa, talvez nos primeiros anos de casamento, nos bons primeiros anos de casamento, mas depois ela, ou melhor, à guisa de sinceridade, ambos perderam o hábito do sorriso, ao que a mamã fechou a porta atrás de si, empurrara o marido para o corredor, disse-lhe que oh!, foi pega de surpresa, não imaginava que ele fosse chegar tão cedinho, que ela mesma tivera um dia longo & ardiloso de trabalho, que o quarto estava uma bagunça, percebes?, que talvez fosse melhor ele, Sebastião, aguardar lá na sala, ao que ele disse: tudo bem, vou apenas colocar a minha maleta no armário & espero lá na sala com a filhota, eles poderiam brincar de aviãozinho, Sebastião levantaria a filha & fingiriam que estavam a flutuar no céu azul da Galícia, & a esposa de repente começara a suar, uma transpiração fria, descontrolada, segurara na alça da maleta, garantira que ela mesma guardaria a maleta no armário, não te preocupes, não havia mesmo a necessidade de ele entrar no quarto, que estava uma bagunça, ela insistira, uma baderna, não gostava que visses aquela algazarra, ela disse, mas Sebastião deu de ombros, fez que nem era com ele & entrou no quarto mesmo assim & abriu a porta do armário mesmo assim & lá dentro guardara a própria maleta como sempre fizera ao chegar da firma.

— P. R. Cunha

A estalajadeira

Eu não sou uma assassina nunca fui uma assassina meu pai que deixara esta estalagem a mim e ao meu irmão mais novo costumava dizer ora filha tu não matarias nem uma mosca quiça um ser humano de forma que ainda não consigo explicar completamente o que me aconteceu àquela tarde de domingo quando o homem entrou na nossa estalagem e meu irmão mais novo que aliás se chama Durval e é talvez o rapaz mais singelo e amável e prestativo que já andara neste planeta o Durval deu as boas-vindas ao homem que usava um chapéu tipo cowboy e pediu um quarto cujo sol vespertino não batesse nas janelas e pagara três dias de forma adiantada em dinheiro vivo como se diz lá na cidade e o Durval levou as malas do homem para o quarto com sol nascente e o homem ficara trancadinho no quarto durante dois dias e nem sequer conseguíamos ouvir os passos dele e o Durval meio que comentava aos sussurros que o homem podia ser criminoso desses que surgem do nada e ficam calados à espreita calculistas só esperando o momento certo para agir e ao pensar nessas palavras do Durval sinto gelar-me o sangue fico com os calafrios até que na noite do terceiro dia o homem apareceu ainda com o chapéu cowboy a barba por fazer era um homem bonito com olho verde-claro parecia mesmo um desses viajantes solitários que tantas vezes recebemos e que passam dias inteiros num silêncio ininterrupto e que de certa forma nos agradecem por lhes dirigir a palavra mas este homem não nos agradecia não falava não olhava apenas desceu as escadas da estalagem e sentou-se no pequeno sofá da recepção que deixamos mais à guisa de decoração do que para ser utilizado propriamente e posso contar nos dedos as vezes em que um dos nossos hóspedes de fato sentara-se naquele sofá que segundo a lenda foi montado pelo nosso avô materno mas disto eu não tenho a certeza nunca se pode ter a certeza de nada e agora lá estava o homem com o chapéu de cowboy sentado no sofá montado pelo nosso avô Hofmann a mascar qualquer coisa e eu atrás do balcão a observá-lo enquanto tateava o claviculário para fingir que estava fazendo alguma atividade para não levantar suspeitas e o homem nada e o homem nada e o homem nada apenas mascava até que tudo aconteceu eu abri o pequeno armário que fica em cima do balcão e tirei a pistola que o nosso papai guardava para o caso de algum intruso indesejável se meter nas gracinhas com a gente e apontei a pistola para o chapéu cowboy e o dono do chapéu cowboy não teve nenhuma reação talvez nem tenha se dado conta de que eu estava a segurar a pistola que eu estava a apontar a pistola na cabeça dele sou boa de tiro sou muito boa de tiro costumava treinar em menina e aquela frieza glaciar do homem me deixava ainda mais furiosa e comecei a escutar um barulho forte como pegadas de um gigante era um barulho mesmo grave gravíssimo como se o Durval estivesse no andar de cima a bater uma daquelas bolas de ferro que os construtores utilizam para demolir edifícios um barulho abafado por vezes ensurdecedor e o homem com chapéu de cowboy permanecia inerte sentado no sofá Hofmann mascando e por um momento antes de apertar o gatilho acreditei que o barulho da bola de ferro vinha da boca do homem com chapéu à cowboy até me dar conta de que eram na verdade as batidas do meu coração.

— P. R. Cunha

Poetisas loucas

Yorick vai para férias e me convida para uma partida de xadrez.

Sei que tu andas a jogar todos os dias, ele me diz, portanto, pega leve, estou enferrujado.

Jogo contra o telemóvel, eu digo, o cérebro humano é outra coisa.

Sentamos ao tabuleiro que Yorick montara na varanda da própria chácara. Faz um frio aprazível e o céu se mostra tão azul quanto as nuvens do planeta Netuno.

Gosto de estar cá fora, ele diz, traz-me sempre boas recordações.

Acendemos os nossos respectivos cachimbos e ficamos a observar as peças de madeira dispostas sobre a superfície quadriculada.

Uma espessa fumaça sai da extremidade do cachimbo do Yorick: acho que tenho um fraco por poetisas loucas, ele diz, fico alucinado.

Eu faço que sim com a cabeça: compreendo.

Yorick desloca o cavalo branco [Nf3].

— P. R. Cunha

A árvore

Há mais ou menos trinta e quatro anos, as mãos pouco habilidosas do fazendeiro trouxeram cá sementes. Ele abriu uns buracos na terra e colocou as sementes dentro dos buracos. Muitas não deram conta, outras sobreviveram. Eu faço parte do grupo das sementes que sobreviveram. Sou, portanto, uma árvore. De início, o fazendeiro trazia a filha para me visitar. Ele colocava a filha no colo e dizia: vê lá, Susan, quando tu cresceres esta árvore será a tua sombra. Mas isso foi por pouco tempo. As visitas cessaram depois que Susan sofreu aquele terrível acidente de trator.

— P. R. Cunha

A fuga

Durante mais de quarenta e cinco anos o sr. Fukushima montou réplicas em miniatura de automóveis clássicos. Quase todos os dias, por volta das 17h, ele descia ao porão onde havia improvisado para si um ateliê de dimensões consideráveis. O sr. Fukushima dizia que quando estava no próprio ateliê a montar os carrinhos era como se de súbito ele fosse transportado para algum outro universo, algum tecido-espaço-tempo em que as leis de física não operavam da mesma maneira. Até que certa tarde de outono, quando as folhas das árvores começavam a cair na relva do jardim, um dos netos do sr. Fukushima desceu ao porão para fazer-lhe visita e deparou-se com quantidade absurda de réplicas em miniatura de automóveis clássicos. O neto, que tinha acabado de frequentar o curso de marketing numa renomada universidade da região, sugeriu ao avô que começasse a vender aqueles brinquedos que, fora o tamanho, em tudo se assemelhavam aos carros de verdade. E, como era de se esperar, os carrinhos do sr. Fukushima foram mesmo um grande sucesso comercial. Mas desde então o sr. Fukushima não desce mais ao próprio ateliê para montar as réplicas. A fuga, segundo ele, perdera completamente o sentido.

— P. R. Cunha

A bailarina

Comentaram com a bailarina que a apresentação daquela noite, «Noite de Gala», como escreveram os jornais, teria uma plateia repleta de figuras importantes, dentre elas a mais importante sem dúvida era o excelentíssimo Diretor do Teatro. A bailarina, uma talentosa jovem do interior, não queria desperdiçar a oportunidade de impressionar e resolveu dar absolutamente tudo de si. Durante a apresentação, a plateia não podia crer na beleza e na desenvoltura dos movimentos que pairavam diante dos próprios olhos. A bailarina dançava com tanto entusiasmo que aos poucos os pés dilaceraram-se, o sangue a manchar-lhe a saia de tule a cada pirueta. No final do ato, exausta, confusa e desacordada, ela apenas se deixou cair ao palco. A plateia, muito antes de perceber a verdadeira gravidade da situação, aproveitou o momento deveras teatral e no mais profundo êxtase aplaudiu de pé a performance da bailarina.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #38)

o menino acorda com os gritos da briga dos pais. é o quinto, ou melhor, o sexto domingo seguido que isso acontece. o menino acha que os pais brigam aos domingos porque é justamente o dia em que o pai, motorista de trator, fica em casa. os gritos trafegam em todas as frequências audíveis: graves, agudos, médios etc. o pai claramente é o contralto da orquestra. a voz da mãe modula-se de acordo com o andamento da partitura: por vezes tenor, daí soprano, noutras vezes barítono. a sinfonia é insuportável, pensa o menino. nos dias da semana, os pais não brigam porque cada um fica, como se diz, «na sua». o pai a dirigir trator, a mãe a vender miudezas na quitanda da dona célia, uma senhora redondinha que nunca tira o lenço da cabeça. o menino está claramente a desenvolver uma aversão aos domingos. ele sai de casa para arejar os próprios pensamentos. o sol da manhã já se mostra cruel. o menino vai até à beira do rio. a água do rio que passa & jamais volta, ele lera qualquer coisa do gênero na biblioteca da escola, em algum livro sobre o conceito de tempo, passagem do tempo, entropia, algo assim. o menino agacha-se & ao colocar a água na boca ele pensa que ninguém jamais tocará naquela água novamente. ele agora reflete se deve cuspir a água de volta para o rio, a ver se o acaso levaria aquela mesma porção de líquido às mãos de uma outra pessoa. antes de decidir (se cospe ou não cospe), o menino escuta um barulho distante de tiro de pistola. os pássaros assustados abandonam apressadamente os galhos das árvores. & o silêncio. aquele silêncio de morte, tão comum aos domingos, sussurra o menino.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #29)

julián benítez distraíra-se à cafeteria da firma. o céu azulado de uma noite chuvosa misturava-se com o branco da lâmpada fluorescente tubular dando ao recinto um aspecto ligeiramente mais otimista do que um necrotério. quando olhou para o relógio digital, que por superstição ele usava no punho direito, julián benítez sussurrou para si mesmo: droga! daí correu para a própria mesa com divisórias sob medida (um metro & sessenta de largura, um de profundidade, quinze centímetros de altura, cor: bege), pegou a maleta & a chave do fiat que estava jogada ao lado de um livro sobre análise de sistemas. ao caminhar até ao elevador, os sapatos de julián benítez pressionavam a tapeçaria do corredor da firma & faziam um barulho de desenho animado. entrou no automóvel. respirou fundo. deu a partida. não ligou o rádio. durante o trajeto, algumas perguntas que muitos rotulariam como «questionamentos filosóficos» inquietaram o silêncio de julián benítez: qual o propósito do trabalho?, por que as pessoas decidem se casar?, por que se separam? por que elas viajam a lugares estranhos?, por que usamos as roupas que usamos? ele estacionou o fiat na vaga 605 do prédio & acenou com a cabeça ao reconhecer o porteiro do turno da noite. o porteiro bocejou dentro da cabine de vidro enquanto levantava a mão para retribuir o aceno. julián benítez abriu a porta do apartamento sem fazer barulho. tirou os sapatos & colocou-os perto do sofá da sala. na cozinha, bebeu um copo d’água & lavou o resto de louça que estava na pia. antes de ir tomar banho, passou pelo quarto do bebê. o bebê dormia com a barriguinha para cima, as mãozinhas praticamente coladas nas grades do berço. julián benítez ficou a observar o sobe-&-desce da barriguinha do bebê. até que a barriguinha do bebê parou de subir-&-descer. julián benítez esperou que a barriguinha se movesse novamente, mas a barriguinha não se movia, ele se aproximou do berço. a barriguinha ainda não se movia. ele se inclinou de forma abrupta. quando estava prestes a segurar a cabeça do filho, o bebê fez um ruído de bebê & a barriguinha voltou ao sobe-&-desce. julián benítez cambaleou-se até à suíte do casal. abriu a torneira. molhou o rosto. sentia vontade de chorar.

— p. r. cunha