Quem é que está a rir agora

SALA DE INTERROGATÓRIO, 21H54

O polícia Ionesco fecha a porta atrás de si. Joga a pasta com os documentos de investigação sobre a mesa. A mesa de metal range e balança como se fosse uma velha locomotiva soviética. A mulher sentada assusta-se imenso com o barulho, recua. Os dedos nodosos dela movem uma madeixa de cabelos que está a cobrir-lhe o olho direito (especificamente o olho direito). A mulher parece embriagada, ou sob efeito de soníferos (calm caps).

IONESCO: dama, vou precisar que repita… [breve pausa, Ionesco fita a câmera de segurança, prossegue], por obséquio, preciso que repita o seu nome.

[Sem olhar para o polícia, a mulher diz: Marta.]

IONESCO: de quê?

MARTA: isto é mesmo necessário?

IONESCO [toma notas, levanta a manga do paletó, olha para o próprio relógio, depois compara-o com as horas do relógio de parede da sala de interrogatório]: sim, dama, completamente necessário.

MARTA: Marta, Marta de Albuquerque, senhor. [Um senhor que soa teatral, jocoso, como um soldado rebelde que responde sem vontade aos superiores.]

IONESCO: gostava que a senhora Marta de Albuquerque contasse-me o que realmente aconteceu na noite de ontem.

MARTA [olha para as mãos de Ionesco, sem anel]: já foste casado?

IONESCO: como é?

MARTA: não sejas um idiota, a pergunta é simples. Já foste casado?

IONESCO: não compreendo como isso pode nos ajudar aqui, senhora Marta de Albuquerque.

MARTA: briga entre marido e mulher, foi isso, uma simples briga entre marido e mulher. Se tivesses sido casado, compreenderias.

IONESCO [sem esboçar qualquer tipo de reação abre um dos envelopes e tira uma pilha de fotografias. As imagens mostram um homem roxo com inúmeras facadas no peito, o pescoço aberto, os olhos vidrados e sem vida parecem antever um encontro com o próprio diabo. Ionesco organiza metodicamente as fotos sobre a mesa, tal qual psicólogo durante aqueles estranhos testes de sanidade]: simples briga entre marido e mulher.

MARTA [solta um desdenhoso humn]: francamente… [pausa]. Estávamos no quarto. A minha irmã tinha acabado de ligar. E ela tem um daqueles casamentos perfeitinhos, sabes?, o marido perfeitinho, os filhos perfeitinhos que tiram notas perfeitinhas, e passam as férias a ler Gontcharóv, Tchekhov, escutando Claude Debussy, e escrevem resenhas a explicar os porquês de acharem que o niilismo de Sartre faz mais sentido do que o niilismo de Nietzsche. Eu desligo o telemóvel e digo: Francisco, quero o divórcio, do jeito que está não pode. Mas o Francisco nem me olha, fica a ler o jornal, como se, sei lá, como se eu estivesse a fazer a previsão do tempo, se chuva, se sol, essas coisas. Então eu decido insistir, porque, sabes, quero mesmo resolver tudo de uma vez por todas. O Francisco continua lendo o jornal: Francisco, estou a falar a sério, quero o divórcio. Devo ter repetido isso umas cinquenta vezes, percebes? E estava a aturar o silêncio do Francisco da melhor maneira possível, eu inspirava e expirava e dizia para mim mesma: tem calma, mulher, tem calma. Até que numa altura eu disse: Francisco, estamos a nos divorciar, amanhã vem aqui uma advogada, vamos nos divorciar, e o Francisco ri-se, um daqueles risos que duram apenas alguns segundos, riso de escárnio, prepotente, riso imbecil, de uma superioridade desprezível. [Marta olha para a mesa, dá duas batidinhas com o indicador na superfície lisa de uma das fotografias do homem mutilado]: pois bem, garanhão, quem é que está a rir agora?

— P. R. Cunha

Há algo de errado, mas não se sabe ao certo o quê

Ele está a lavar a louça. Ela passa, espreguiça-se e diz: bons-dias, Frank. Sem desviar os olhos do conjunto esponja-prato-talheres-detergente, Frank acena com a cabeça. Ela abre a geladeira e pega do fundo um copo de requeijão light. Frank distrai-se, alguma coisa cai na pia e faz aquele barulho metálico de coisas que caem na pia — talvez um garfo, ou uma colher. Ela fecha a geladeira com imensa força e diz com voz infantil: ora, Frank, que tal se tomássemos cuidado com a louça? Os lábios de Frank tremem, mas hoje ele não irá dizer nada.

— P. R. Cunha

Uma paz particular

Certo ator brasileiro, depois de ganhar todos os prêmios que a Companhia Internacional de Teatro poderia oferecer, dizem os jornais, voltou ao Brasil com a merecida reputação de um dos maiores atores do mundo. Assim que aterrara em São Paulo, foi recebido por um grupo de empresários que prometera ao talentoso ator brasileiro o que ele desejasse: qualquer coisa, basta pedir — disseram os empresários. Ao que o ator brasileiro, tentando se fazer entender enquanto uma multidão de fãs gritava o seu nome, teria dito que só queria ser deixado em paz. Como mesmo depois de três meses o ator ainda não havia conseguido o tão desejado sossego, contratara um duplo para representá-lo, pagando inclusive quantias consideráveis (praticamente toda a premiação em dinheiro oferecida pela Companhia Internacional de Teatro) para que o sósia se submetesse a uma cirurgia plástica a título de retocar possíveis diferenças comprometedoras. Além de ter que ficar à janela acenando para os curiosos que permaneciam ao portão da casa do ator brasileiro, um talento mundial, repetem os jornais, o dublê também ficara encarregado de se encontrar periodicamente com todo e qualquer grupo de empresários que demonstrasse interesse pela carreira do célebre artista. Os empresários nunca notaram qualquer diferença; são muito estúpidos.

— P. R. Cunha

Tendência à introspecção

O sr. Jaspers está sentado no banco da Praça Central enquanto miúdos escolares jogam-lhe pedras. Não são pedras grandes e há também o sobretudo surrado do sr. Jaspers — a servir de escudo. As pedras batem no sobretudo, sobretudo amortece o impacto. O sobretudo, portanto, está para o sr. Jaspers assim como a atmosfera está para o planeta Terra. As crianças agem dessa forma porque ainda não têm discernimento, não sabem que jogar pedras no sr. Jaspers é errado. E o sr. Jaspers, que já foi criança numa altura, compreende, não se aborrece — apenas levanta a cabeça, observa o estado do céu. Cai a primeira neve, como se diz, neve fina, sonolenta. O sr. Jaspers não pode mais falar disto com a sra. Jaspers. Desta vez terá de guardar a primeira neve somente para si.

— P. R. Cunha

Canícula

Gostava hoje de falar brevemente sobre os múltiplos significados do termo «cachorro». No Brasil o cão é tido como um animal que preza pela lealdade, muito companheiro, atencioso, pouco egoísta, conciliador. Em suma: o melhor amigo do homem — como já se leu tantas vezes nas memórias de celebridades apaixonadas pelos caninos. É mister, no entanto, lembrar-vos que a inofensiva palavra «cachorro» pode também ganhar juízos pejorativos a depender do contexto em que ela se mostra inserida. Por exemplo: um casal irado está a brigar na varanda de um apartamento em Niterói-RJ; a dama não hesita em chamar o cavalheiro de cachorro; o cavalheiro, por sua vez, não se intimida e chama a dama de cadela. Sabe-se que os alemães têm uma forma de xingamento análoga: linker Hund, ou o cão sinistro. Totem, a representação animalesca das frustrações humanas, «a suposta sujeira, heresia do cachorro» [Wolfram Eilenberger]. No entanto, num triste entardecer invernal, quando a solidão aperta, lá está o cão que abana o rabo para o dono, volta a ser o maior companheiro de sempre.

— P. R. Cunha

Forças Armadas

prcunhaoffice

Poeta escondido escrevia sinceros poemas sobre todas as coisas. Sentia-se à vontade para enaltecer o mar, o padrão amarelo e preto de uma abelha ligeiramente zangada, ou perceber o despretensioso movimento das asas da cotovia matinal. Mas um dia comentaram por alto que o comandante das Forças Armadas estava obcecado pela poesia de Poeta — o que, naturalmente, restringiu sobremaneira a sua capacidade de escrever poemas.

— P. R. Cunha