A árvore

Há mais ou menos trinta e quatro anos, as mãos pouco habilidosas do fazendeiro trouxeram cá sementes. Ele abriu uns buracos na terra e colocou as sementes dentro dos buracos. Muitas não deram conta, outras sobreviveram. Eu faço parte do grupo das sementes que sobreviveram. Sou, portanto, uma árvore. De início, o fazendeiro trazia a filha para me visitar. Ele colocava a filha no colo e dizia: vê lá, Susan, quando tu cresceres esta árvore será a tua sombra. Mas isso foi por pouco tempo. As visitas cessaram depois que Susan sofreu aquele terrível acidente de trator.

— P. R. Cunha

A fuga

Durante mais de quarenta e cinco anos o sr. Fukushima montou réplicas em miniatura de automóveis clássicos. Quase todos os dias, por volta das 17h, ele descia ao porão onde havia improvisado para si um ateliê de dimensões consideráveis. O sr. Fukushima dizia que quando estava no próprio ateliê a montar os carrinhos era como se de súbito ele fosse transportado para algum outro universo, algum tecido-espaço-tempo em que as leis de física não operavam da mesma maneira. Até que certa tarde de outono, quando as folhas das árvores começavam a cair na relva do jardim, um dos netos do sr. Fukushima desceu ao porão para fazer-lhe visita e deparou-se com quantidade absurda de réplicas em miniatura de automóveis clássicos. O neto, que tinha acabado de frequentar o curso de marketing numa renomada universidade da região, sugeriu ao avô que começasse a vender aqueles brinquedos que, fora o tamanho, em tudo se assemelhavam aos carros de verdade. E, como era de se esperar, os carrinhos do sr. Fukushima foram mesmo um grande sucesso comercial. Mas desde então o sr. Fukushima não desce mais ao próprio ateliê para montar as réplicas. A fuga, segundo ele, perdera completamente o sentido.

— P. R. Cunha

A bailarina

Comentaram com a bailarina que a apresentação daquela noite, «Noite de Gala», como escreveram os jornais, teria uma plateia repleta de figuras importantes, dentre elas a mais importante sem dúvida era o excelentíssimo Diretor do Teatro. A bailarina, uma talentosa jovem do interior, não queria desperdiçar a oportunidade de impressionar e resolveu dar absolutamente tudo de si. Durante a apresentação, a plateia não podia crer na beleza e na desenvoltura dos movimentos que pairavam diante dos próprios olhos. A bailarina dançava com tanto entusiasmo que aos poucos os pés dilaceraram-se, o sangue a manchar-lhe a saia de tule a cada pirueta. No final do ato, exausta, confusa e desacordada, ela apenas se deixou cair ao palco. A plateia, muito antes de perceber a verdadeira gravidade da situação, aproveitou o momento deveras teatral e no mais profundo êxtase aplaudiu de pé a performance da bailarina.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #38)

o menino acorda com os gritos da briga dos pais. é o quinto, ou melhor, o sexto domingo seguido que isso acontece. o menino acha que os pais brigam aos domingos porque é justamente o dia em que o pai, motorista de trator, fica em casa. os gritos trafegam em todas as frequências audíveis: graves, agudos, médios etc. o pai claramente é o contralto da orquestra. a voz da mãe modula-se de acordo com o andamento da partitura: por vezes tenor, daí soprano, noutras vezes barítono. a sinfonia é insuportável, pensa o menino. nos dias da semana, os pais não brigam porque cada um fica, como se diz, «na sua». o pai a dirigir trator, a mãe a vender miudezas na quitanda da dona célia, uma senhora redondinha que nunca tira o lenço da cabeça. o menino está claramente a desenvolver uma aversão aos domingos. ele sai de casa para arejar os próprios pensamentos. o sol da manhã já se mostra cruel. o menino vai até à beira do rio. a água do rio que passa & jamais volta, ele lera qualquer coisa do gênero na biblioteca da escola, em algum livro sobre o conceito de tempo, passagem do tempo, entropia, algo assim. o menino agacha-se & ao colocar a água na boca ele pensa que ninguém jamais tocará naquela água novamente. ele agora reflete se deve cuspir a água de volta para o rio, a ver se o acaso levaria aquela mesma porção de líquido às mãos de uma outra pessoa. antes de decidir (se cospe ou não cospe), o menino escuta um barulho distante de tiro de pistola. os pássaros assustados abandonam apressadamente os galhos das árvores. & o silêncio. aquele silêncio de morte, tão comum aos domingos, sussurra o menino.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #29)

julián benítez distraíra-se à cafeteria da firma. o céu azulado de uma noite chuvosa misturava-se com o branco da lâmpada fluorescente tubular dando ao recinto um aspecto ligeiramente mais otimista do que um necrotério. quando olhou para o relógio digital, que por superstição ele usava no punho direito, julián benítez sussurrou para si mesmo: droga! daí correu para a própria mesa com divisórias sob medida (um metro & sessenta de largura, um de profundidade, quinze centímetros de altura, cor: bege), pegou a maleta & a chave do fiat que estava jogada ao lado de um livro sobre análise de sistemas. ao caminhar até ao elevador, os sapatos de julián benítez pressionavam a tapeçaria do corredor da firma & faziam um barulho de desenho animado. entrou no automóvel. respirou fundo. deu a partida. não ligou o rádio. durante o trajeto, algumas perguntas que muitos rotulariam como «questionamentos filosóficos» inquietaram o silêncio de julián benítez: qual o propósito do trabalho?, por que as pessoas decidem se casar?, por que se separam? por que elas viajam a lugares estranhos?, por que usamos as roupas que usamos? ele estacionou o fiat na vaga 605 do prédio & acenou com a cabeça ao reconhecer o porteiro do turno da noite. o porteiro bocejou dentro da cabine de vidro enquanto levantava a mão para retribuir o aceno. julián benítez abriu a porta do apartamento sem fazer barulho. tirou os sapatos & colocou-os perto do sofá da sala. na cozinha, bebeu um copo d’água & lavou o resto de louça que estava na pia. antes de ir tomar banho, passou pelo quarto do bebê. o bebê dormia com a barriguinha para cima, as mãozinhas praticamente coladas nas grades do berço. julián benítez ficou a observar o sobe-&-desce da barriguinha do bebê. até que a barriguinha do bebê parou de subir-&-descer. julián benítez esperou que a barriguinha se movesse novamente, mas a barriguinha não se movia, ele se aproximou do berço. a barriguinha ainda não se movia. ele se inclinou de forma abrupta. quando estava prestes a segurar a cabeça do filho, o bebê fez um ruído de bebê & a barriguinha voltou ao sobe-&-desce. julián benítez cambaleou-se até à suíte do casal. abriu a torneira. molhou o rosto. sentia vontade de chorar.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #15)

PEQUENO PEDAÇO DE TORTA COM SABOR DO DIA-A-DIA / ESCRITORES NÃO ENLOUQUECEM, JOGADORES DE XADREZ ENLOUQUECEM

ontem levei a minha olivetti lettera para tomar sol ao terraço & a campainha tocou. vejam bem, não gosto de ser incomodado enquanto escrevo, muito menos enquanto escrevo ao terraço com a minha olivetti — ambos a ingerir as chamadas «doses diárias de vitamina d». (sou mesmo um daqueles intratáveis com tendência para lidar com as mais simples tarefas [atender à campainha, por exemplo] de forma tão rancorosa & descomedida que a coisa toda ganha proporções hercúleas, torna-se absurdamente cansativa, irrealizável.) então me arrasto até ao interfone, que possui pequeno ecrã através do qual posso observar quem está lá fora. percebo um sujeito taciturno, por volta dos quarenta, mordiscando palito, boné com a marca da transportadora estampada. retiro o interfone do gancho & digo com voz ressentida: pois não… o rosto do sujeito se aproxima da câmera do interfone: é da transportadora. encomenda para quem?, insisto. para a senhora ([pausa] aqui ele tira um papelzinho do bolso), para a senhora flávia. não há flávia nesta casa, eu digo. ele faz cara de quem comeu pastel estragado: nenhuma flávia?, tem certeza? ora, eu digo, é claro que tenho a certeza, moro aqui há mais de quinze anos &, garanto, nunca vi nenhuma flávia. o funcionário da transportadora olha em redor, coça as têmporas, relê o papelzinho que tirara do bolso: é que está escrito flávia, compreende? compreendo. & ela não mora mesmo aí? não, não mora. certo, diz o funcionário num tom hostil, certo, certo, certo. depois, com desprezo, cospe o palito no meu jardim — toda a cena devidamente enquadrada pelo ecrã do interfone.

— p. r. cunha

Sábado noturno

Alonso Rivera ergueu o dedo em riste para o barista, que de má vontade levantara-se da cadeira de onde assistia à final do torneio futebolístico. Quase sem tirar os olhos da televisão, o barista encheu o copo de Alonso Rivera e da rapariga que estava ao lado dele. Depois fechou a garrafa de uísque, afundou-se novamente na cadeira. A rapariga era no mínimo uns vinte anos mais nova do que Alonso Rivera, facto que não passara despercebido para os outros sentados à bancada, que vez ou outra cochichavam entre si qualquer coisa maliciosa a respeito. Os dois — Alonso Rivera e rapariga — pareciam não se incomodar. Bebiam o uísque, conversavam sobre jazz, literatura latino-americana, ele tocava suavemente nas costas das mãos dela, ela sorria, ele contava mentiras, ela ajeitava os cabelos e fingia que acreditava. Só aquela noite, pensou Alonso Rivera enquanto levava o último gole do líquido escuro à boca, só mais uma noite. E cada um finalmente partiria para o seu lado, sem se tornar a ver.

— P. R. Cunha