Sistemas de irrigação

A tímida lua de uma noite de outubro que se esconde atrás das nuvens como se tentasse cobrir as cicatrizes da própria superfície que, assim explica a astronomia, fôra bombardeada por toda a sorte de pedras espaciais.

Do lado de fora da casa dos Mendes, o sistema de irrigação automático entra em funcionamento e aos poucos começa a deixar a relva noturna com um aspecto brilhante e vistoso que Ruy Sereno, vizinho, tanto admira.

Ruy Sereno está a segurar a chávena perto da janela, admirando aquele feito da engenharia de jardinagem. A esposa se ajeita sob o cobertor de lã comprado durante a última visita do casal aos Andes chilenos: o que está fazendo, Ruy? — ela pergunta —, sai dessa janela, parece louco. O vapor do chá embaça os óculos fundo de garrafa do Ruy, que responde: são os Mendes de novo, com aquela magnífica chuva artificial.

O jato de água completa uma volta: 360º de relva molhada. Quando o jato se aproxima da casa dos Mendes, respinga na janela do quarto dos pequenos irmãos Bento e Adriano. Os dois estão sentados no tapete. Bento chora enquanto Adriano tenta consolá-lo. Escutam um barulho. Surge homem com máscara de oxigênio que segura-os pelo braço.

Bento e Adriano tateiam o corredor escuro. O homem com máscara de oxigênio puxa-os com mais força. Bento engole o choro. Quando chegam à porta indicada pelo mascarado, percebem que o sr. e a sra. Mendes também estão ali. Eles se abraçam. O mascarado abre a porta e de lá brilha um clarão estranho. Escutam-se vozes abafadas, gritos talvez, até que a porta se fecha novamente.

A família Mendes permanece unida na escuridão do corredor. Todos esperavam alguma coisa, todos queriam saber, e no entanto, temendo talvez a resposta, ninguém ousava perguntar.

— P. R. Cunha

Passeios habituais por entre as montanhas

Os dois já estavam a caminhar há mais de três horas. Um dia bastante soalheiro castigava-os sem piedade. Carregavam pesadas mochilas às costas e utilizavam bastões para se equilibrarem entre as incontáveis pedras multicolores que encontravam pela trilha. Kozinski levara o cantil até à boca. Enquanto enxugava os lábios com a manga da camisa disse ao amigo: tu sabes melhor do que ninguém que sou dado a fazer estas longas caminhadas, David, que é da minha natureza sumir… mas quando vou muito algures as pessoas me chamam de louco. Sem diminuir o passo, Kozinski guardou o cantil dentro da mochila e continuou: vê lá, o que é natural e agradável para alguns sendo para outros algo de imoderado, de loucura mesmo. Prosseguiram em silêncio sob um céu sem nuvens. David então parou subitamente, como se se sentisse ameaçado. Notou que havia alguma coisa estranha no horizonte, perto das montanhas. Pegou o binóculo para perceber melhor e estupefato, suando em bica, passou-o para Kozinski: olha isto! Kozinski ajeitou o binóculo perto do nariz e não conseguia acreditar no que estava a ver, aquilo era simplesmente impossível.

— P. R. Cunha

Brasília, 24 de setembro

Era terça-feira. O sol da tarde invadia o para-brisa do automóvel dele. Um calor surreal-desértico-insuportável esquentava as janelas do veículo como se quisesse anunciar a chegada do próprio diabo. Ele aumentou a potência do ventilador interno e uma baforada infernal atingira-lhe o rosto. O ventilador não fazia diferença. Em verdade, só piorara a situação. Uma motocicleta barulhenta surgiu do nada e ele teve de travar fundo o pedal de freio — fundo mesmo, parecia que a sola do sapato iria se desintegrar a qualquer momento. Não atingiu a motocicleta por questão de centímetros, talvez milímetros. Ele ainda xingava a progenitora do motociclista quando ouviu o telemóvel vibrando. Tateara o banco do passageiro para procurar o iPhone que mostrava-se tão quente quanto magma vulcânico. Levou o aparelho ao ouvido e antes de dizer «alô» sentiu como se a orelha fosse derreter. Por puro reflexo, jogou violentamente o telemóvel sobre o painel. Alguém do outro lado da linha gritara alguma coisa, mas ele não escutou nada. Estava ocupado demais coçando a orelha direita, que ardia imenso.

— P. R. Cunha

Os netos estão a passar as férias com a avó

Fabrício e Miguel estão a passar as férias com a avó, Rosana. A avó insiste em dizer que não tem um neto predileto: gosta dos dois, do mesmo tanto. Certa madrugada, Miguel vai até à cozinha porque está com imensa sede. Ao acender a luz ele escuta um barulho que vem da sala — Rosana a fumar um cigarro. «Quem está aí?, é o Fabrício?», diz a voz rouca da avó. Miguel expira resignado: não, vovó, é o Miguel. «Ah…», balbucia Rosana. A senhora deseja alguma coisa da cozinha?, o neto pergunta. «Achei que fosse o Fabrício. Aliás, tinha a certeza de que era o Fabrício», insiste a avó.

— P. R. Cunha

Orlando não acredita em fantasmas

Os quatro filhos do velho Orlando, com o pretexto de lhe dar um final de vida digno, como se diz, decidem tirá-lo de Niterói — transferi-lo, portanto, para o interior de São Paulo: Botucatu, mais especificamente. Orlando está com noventa e três anos, não tem muito tempo; ou pelo menos era essa a linha de raciocínio dos filhos (um deles, inclusive, criador de gado). O pai, que já batalhara imenso, merece um derradeiro descanso perto dos seus, mesmo que isto signifique remover as revigorantes caminhadas na areia da praia de Icaraí, atividade que há muito tornara-se hábito para o quase centenário homem oceânico. É um momento de cortar o coração quando Orlando descobre que toda aquela logística Niterói-Botucatu nada mais era do que uma oportunidade para os filhos controlarem de perto o dinheiro do velho, conter eventuais gastos, gerir os bens de maneira adequada para evitar dívidas inconvenientes quando a morte, enfim, viesse buscar a alma do progenitor. Como vingança e ato último de dignidade, Orlando decide-se permanecer vivo, sobreviver o máximo que puder — plano cujos estágios ele realmente coloca em prática com muita robustez. Já enterrara dois dos quatro filhos; ainda respira com desenvoltura, Orlando.

— P. R. Cunha

Canícula

Gostava hoje de falar brevemente sobre os múltiplos significados do termo «cachorro». No Brasil o cão é tido como um animal que preza pela lealdade, muito companheiro, atencioso, pouco egoísta, conciliador. Em suma: o melhor amigo do homem — como já se leu tantas vezes nas memórias de celebridades apaixonadas pelos caninos. É mister, no entanto, lembrar-vos que a inofensiva palavra «cachorro» pode também ganhar juízos pejorativos a depender do contexto em que ela se mostra inserida. Por exemplo: um casal irado está a brigar na varanda de um apartamento em Niterói-RJ; a dama não hesita em chamar o cavalheiro de cachorro; o cavalheiro, por sua vez, não se intimida e chama a dama de cadela. Sabe-se que os alemães têm uma forma de xingamento análoga: linker Hund, ou o cão sinistro. Totem, a representação animalesca das frustrações humanas, «a suposta sujeira, heresia do cachorro» [Wolfram Eilenberger]. No entanto, num triste entardecer invernal, quando a solidão aperta, lá está o cão que abana o rabo para o dono, volta a ser o maior companheiro de sempre.

— P. R. Cunha

Criatura de hábitos — uma (quase) sátira

Acordar (de preferência antes das seis / um bocadinho antes do próprio Sol), tomar um duche, pegar o matutino à porta, ler o matutino, fazer o pequeno-almoço — tostex, ou bauru, ou misto-quente, café (leite [opcional]), Pharmaton, suco de laranja, Benzedrina (muita moderação) —, caminhada, regar as plantas, sentar-se à escrivaninha e escrever, dedicar-se à pesquisa, fazer compras, ler o noticiário estrangeiro, aproveitar que o computador está aberto e: 1) responder aos e-correios; 2) publicar no blogue; 3) assistir a documentários diversos; 4) lembrar-se da lista de documentários diversos; ir aos Correios para enviar os livros àqueles que compraram os livros, ir ao crossfit, depois, à guisa de divertimento, uma qualquer leitura despretensiosa (sugere-se Mark Twain, Bill Bryson, O meu pipi [sermões], Ricardo Araújo Pereira, Mencken, etc.), comer uva, maçã, manga, abacaxi, jantar, preparar a bebida noturna (gosto pessoal), conversar com o cônjuge, fumar o tabaco (charuto e que tais), ouvir Beethoven, tomar os sedativos (Valdoxan, Seconal), ir para a cama, eventualmente dormir. No dia seguinte, a mesma rotina — com uma ou outra (pequena) variação.

— P. R. Cunha

Turfe

Pablo acordou e viu a esposa coçando os olhos. Perguntou-lhe: ainda coçam? A esposa respondera que sim, coçam, muitíssimo. Tu devias procurar um oftalmologista, disse Pablo enquanto desligava o ventilador de teto. Tenho medo, a esposa disse, quando coço sinto uma dorzinha estranha, percebes? Pablo não percebia. Ele foi até à casa de banho. Lavou o rosto. Tomou um duche rápido e vestiu a roupa — uma t-shirt branca, calça jeans, tênis. Notou que havia vazamento numa das paredes da casa de banho. Outro vazamento, ele pensou. Pablo comeu quatro bolachas com manteiga, saiu, fechou a porta dando apenas uma volta à chave. Ao trancar a porta pensou em retornar e dizer novamente para a esposa ir ao oftalmologista. Apertou o botão do elevador fabricado por Atlas Schindler. Schindler. Nome que dava calafrios na espinha de Pablo. A porta do elevador se abriu e lá dentro encontrava-se a zeladora do prédio. A zeladora disse: bons-dias, Pablo. Pablo acenou com a cabeça, sem dizer palavra. Ele não ia muito com a cara da zeladora. Na rua, Pablo ergueu o braço para o táxi e o táxi não parou. Pablo odiava imenso quando isso acontecia. Sentia-se invisível, desprezado. Resolveu ir de autocarro. Quando entrou no autocarro um escolar sombrio ficou encarando Pablo. O escolar escutava rap estrangeiro e a voz do rapper estourava os auscultadores do escolar. Pablo sentou-se num dos bancos ao fundo, longe dos olhares agourentos do escolar. Na poltrona à direita dele, do outro lado do corredor, duas senhoras — sessenta/setenta anos, calculara Pablo — conversavam sem cerimônias, como se diz, a respeito das corridas de cavalos. Pablo nunca foi às corridas de cavalos, mas o avô paterno dele ganhara pequenas fortunas apostando nesse tipo de corrida. Há inclusive uma história curiosa na família de Pablo. Dizem que o nome dele é homenagem a um puro-sangue que se destacara pela velocidade, flexibilidade, dorso largo, reto, cabeça com formato fino, dois olhos bem separados (um metro e cinquenta e oito de altura). O avô paterno de Pablo teria apostado nesse cavalo homônimo, morrendo-se logo em seguida de — atestaram os médicos — ataque cardíaco fulminante. Uma coisa leva a outra. Pablo resolveu prestar atenção à conversa das senhoras. A mais velha disse que os comentaristas e os locutores das corridas de cavalos poderiam pelo menos tentar montar num cavalo antes de zangarem-se com os jóqueis, mesmo que nunca participem de corridas oficiais, ela disse, pelo menos compreenderiam a luta, a guerra, a batalha dos jóqueis ao turfe, entenderiam o quão aterrador é montar num cavalo, a ansiedade, ou melhor, corrigiu-se a senhora, a angústia dessa experiência, para que os comentaristas e os locutores pudessem ter alguma empatia antes de destruir, arruinar a carreira de um jóquei. A outra senhora apenas escutava. O autocarro trepidava. O asfalto não estava em boas condições. A voz da senhora era tão cadenciada, precisa, incisiva, gerava tanta calma aos ouvidos de Pablo que ele acabou por se esquecer de si próprio. A pouco e pouco deixara de se preocupar com o conteúdo da conversa. Percebeu que não gostava mesmo das corridas de cavalos, o assunto lhe aborrecia. Chegou a altura de descer na próxima paragem. Pablo desceu e viu que um rapaz com fato esportivo estava a pedir dinheiro. Pablo refletiu que o fato esportivo do gajo de certeza valia mais do que a t-shirt branca e a calça jeans que ele estava vestindo. Achou aquilo estranho. Ali estava Pablo na berma da avenida. Quando passou por uma padaria notou que o padeiro gritava com alguém. Como Pablo não parou para prestar atenção, nunca soube com quem o padeiro estava a gritar. O cheiro dos pães, no entanto, causara-lhe uma espécie de fome, branda, a ganhar intensidade. Mais adiante havia uma loja colorida que vendia bugigangas orientais. Dentro da loja uma dama com olhinhos puxados assistia ao noticiário matinal. Os olhinhos puxados da dama fizeram com que Pablo voltasse a pensar nos olhos da esposa. A loja cheirava-lhe a qualquer coisa agridoce. Pablo continuou a caminhar. Alguém esbarrou nele. Antes de zangar-se com a pessoa, a mulher abriu os braços para abraçá-lo e disse: Pablo!, ao tempo que não nos víamos… Pablo não se recordava da mulher.

— P. R. Cunha

Não abras mão de um ambiente personalizado e bonito em tua casa

Osvaldo estava a lavar louças enquanto Lucy tomava o pequeno-almoço. O nome Lucy é porque a rapariga nascera em Austin, Texas — nome estrangeiro, portanto. Osvaldo lavava as louças de um modo descompromissado, por vezes hostil, furioso. Sim, Osvaldo parecia pouco feliz. Lucy só conseguia ver as costas do Osvaldo. Ela mastigava a torrada com queijo e geleia Queensberry sabor morango e observava as costas do Osvaldo. Amiúde, o Osvaldo resmungava qualquer coisa incompreensível, chutava a porta do armário, mas a Lucy nunca achava que era a sério. Ao deixar os copos sobre o escorredor, Osvaldo refletiu se era possível amar Lucy sem tornar-se prisioneiro do amor por Lucy. Mas Lucy, como já se disse, não percebia nada dos pensamentos do Osvaldo. Ela continuava a mastigar as torradinhas com queijo e geleia Queensberry sabor morango*.

— P. R. Cunha


*Aquilo que importa para os propósitos desta narrativa é: Queensberry sabor morango.