Dançarinas

A professora de balé amava todas as alunas como se fossem da família, mas quando chegava em casa tratava a própria filha pequena com brutal agressividade que a menina não teve outra alternativa a não ser fugir, esperar alguns anos até se tornar irreconhecível, matricular-se na turma de balé da mãe e enfim sentir como era ser amada pela professora.

— P. R. Cunha 

Sem titubear

Em 14 de junho um maratonista de Petrópolis saiu para praticar os exercícios noturnos. No meio do percurso ele notou que uma mulher subia na balaustrada do famoso mirante à beira do precipício. O maratonista correu para segurá-la, os dois se sentaram num banco de madeira e ele disse: sei que não é da minha conta, mas por que cargas você queria pular? A mulher respondeu que talvez fosse melhor não dizê-lo, pois temia que o relato fosse «contagioso», que de alguma forma «influenciasse» outras pessoas a fazer o mesmo que ela estava prestes a fazer (ou seja: pular do mirante à beira do precipício). O maratonista garantiu-lhe que não haveria problema, que já escutara de tudo nesta vida, que era um sujeito calejado, etc., ao que a mulher começou a contar os motivos nos mínimos detalhes. A história era de facto tão perturbadora que o maratonista, sem titubear, atirou-se ao precipício antes mesmo de a mulher terminá-la.

— P. R. Cunha

Vão encontrá-lo algures

A viagem elaborada durante certa inquietação/irritação ao lugar onde se está agora. Aquele que faz as malas para fugir (e o verbo não seria outro), que quer se ver livre dos vícios geográficos da própria morada. «Vou de viagem porque não aguento mais este prédio, estas ruas, este céu, ou mesmo a cara de Fulano(a)», diz-se. De aí a ojeriza que o viajante pode sentir por aqueles que não querem trocar de sítio, por aqueles que se sentem confortáveis no quarto de sempre. Viajante que não admite, ou melhor, que não aceita que o espaço que tanto lhe oprime possa ser um canto confortável para almas menos irascíveis etc.

— P. R. Cunha

Luz branca tipo néon

Senhor grisalho está a varrer o canto esquerdo do salão a vassoura carrega pratinhos e talheres e copos de plástico pedaços avulsos de salgados doces canapés a carne moída de um pastel a vassoura faz barulho agudo enquanto fricciona a superfície lisa do salão o senhor grisalho leva na cabeça boné vermelho com a marca do posto de gasolina Shell ele às vezes para de varrer a sujeira e encosta o queixo na extremidade pontuda da vassoura metade homem metade vassoura a festa acabou.

— P. R. Cunha

Entropia

A pedra sente a água do rio passar-lhe pelo corpo. A pedra percebe que o momento, o breve instante em que o rio lhe acaricia é único, pois a correnteza possui uma só direção: ida. As águas jamais se repetem.

— P. R. Cunha

O violoncelo

Para a Marcella Cunha, minha irmã

O violoncelo é um instrumento robusto. Se — a título de entretenimento — colocássemos roupa humana no violoncelo, ele ficaria parecido com uma pessoa de estatura mediana. Inclusive, a forma como o violoncelista toca o violoncelo lembra muito a maneira que duas pessoas se abraçam. O violoncelo parece um contrabaixo, mas não é um contrabaixo, é outra coisa. O violoncelista experimenta sons no violoncelo, aperfeiçoa-se com o tempo. Numa altura, violoncelista-e-violoncelo parecem um só organismo. O violoncelista dedilha as cordas do violoncelo e acredita-se um deus acústico. O prazer que sente o violoncelista ninguém lho tira. Podem jogar maçãs no violoncelista, baldes d’água, terra, lama, podem cuspir no violoncelista que ele continuará tocando. E mesmo que o teatro lhe caia sobre a cabeça, e o aglomerado de pedras, cascalhos e areia comece a lhe sufocar, ele continua tocando.

— P. R. Cunha

O telefone

Começa assim: você está em casa a resolver tarefas domésticas quando escuta o telefone tocar. Você raramente recebe telefonemas, e não estava de forma alguma a pensar em telefonemas, muito menos na morte, você apenas distraía-se com os afazeres domésticos. No entanto, eis que toca o telefone e alguém do outro lado da linha diz que sente muito, sente muitíssimo, que não queria lhe dar aquela notícia terrível, que nunca é fácil dar notícias desta natureza, mas, infelizmente, é preciso fazê-lo… Você então desaba a chorar e passa a desenvolver um trauma patológico. Você agora tem aversão incontornável ao telefone, e por vezes você escuta o barulho penetrante do toque do telefone às nove da noite, ou mesmo às duas horas da madrugada, e você não atende. O telefone toca durante dias inteiros, você escuta-o tocar, mas não se atreve a atendê-lo. Você sente medo.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #12)

arrumar a escrivaninha para um novo trabalho, nova empreitada, quantas portas serão abertas, escancaradas, outra vida. 

(& era como se minha cabeça estivesse hibernando, até que, de repente: booooom!)

vamos supor que francisco & samir sejam amigos, conheceram-se em criança, na escola. vamos supor também que eles não se encontram há décadas, vinte anos talvez. sabemos que vivem na mesma cidade; francisco é advogado, mora perto da praia; samir é arquiteto, mora ao cimo da serra. ambos estão naquela fase a que chamamos — não sem um comedimento desconfortável — de meia idade. aconteceu de franciso ser contratado para defender o caso de um empresário que, assim como samir, possui residência ao cimo da serra. francisco raramente sobe a serra, não lhe apetece o clima frio das montanhas, de forma que decidira aproveitar-se da ocasião & convidar o longevo amigo para, como se diz, colocar a conversa em dia. samir mostrara-se de facto muito surpreso com a ligação de francisco: eu realmente não esperava, ele disse, & antes de se despedirem ao telefone, combinaram hora (às 15h) & local do encontro (cafeteria da serra). vamos supor que francisco tenha aparecido, vamos supor ainda uma última vez que francisco tenha esperado cerca de duas horas pelo amigo arquiteto — mas samir nunca apareceu.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #10)

entre lá & seja você mesmo, disseram-lhe. mais dois tapinhas nas costas, «tap-taps», não tão leves ao ponto de serem considerados protocolares nem tão pesados ao ponto de darem a impressão de arrogância/indiferença. tapinhas nas costas na medida certa, ele pensou antes de ultrapassar as cortinas do auditório da universidade, «tap-taps» realmente encorajadores, eficientes. o auditório era formado por plateia dispersa: alunos, professores, alguns coordenadores, visitantes temporários. como da praxe, todos faziam cara de que gostariam de estar algures. mas estão ali sentados. plateia. ele se aproxima do púlpito. o púlpito/tribuna possui o brasão da universidade. um brasão ostentador, ele pensa, agora que está próximo o suficiente do brasão para ter a certeza de que se trata mesmo de um brasão ostentador. há poucos meses ele também estava sentado numa daquelas cadeiras apenas aparentemente confortáveis do auditório da universidade. também com uma fisionomia distante, aluada (dir-se-ia). agora, porém, estava ao púlpito. atrás do brasão ostentador. e não queria fazer feio. de forma alguma. fazer feio estava fora de cogitação. um fracasso seria terrível, irreparável, justo agora que as coisas pareciam ter se ajeitado. tira pigarro invisível da garganta, dá algumas cutucadas no microfone, percebe que está funcionando perfeitamente. é um ótimo microfone, ele pensa. uma garota com cabelo colorido acaba de bocejar. ela está sentada sozinha na primeira fileira. seria impossível não perceber o bocejo. a garota emite sons ao bocejar, sons prolongados: ahhhhhhm/uhhhhhhmmm/arrrrrrrgmmm, sons do tipo que o tio bob fazia quando a tia mércia dava-lhe um sermão. mas não é altura para distrações. ele está sobre o palco, ao púlpito, atrás do brasão ostentador com as iniciais da universidade gravadas em, ao que parece, ouro. o mais provável, no entanto, é que não seja ouro, seja algum material cor-de-ouro, mas que não seja ouro propriamente dito: uma imitação, portanto. ele posiciona o fino & flexível mastro do microfone para que a sua voz saia límpida, inteligível. depois ajeita os óculos ao nariz. óculos arredondados à moda professor universitário anos 1960, ou daqueles que os vocalistas das bandas indie costumavam usar (weezer, ric ocasek, telekinesis, death cab for cutie &tc. &tc.). sente vergonha do próprio aspecto. livresco demais, (pseudo)intelectual demais, ele pensa. a camisa de flanela com motivos quadriculados-preto-&-vermelho parece querer estrangulá-lo. olha para trás, para a brecha da cortina pela qual entrara ao palco. pensa se ainda daria tempo de desistir. de voltar ao conforto daquela brecha. de ir-se embora. mas não pode. tem de continuar. chegara a vez dele.

— p. r. cunha

Quinta das irmãs gêmeas

As chuvas voltaram, aos poucos as sementeiras de frutos diversos mostram-se novamente em condições apresentáveis, enquanto o marrom da relva desidratada despede-se, já se vê o verde despretensioso da horta, as batatas estão em belo estado, os pomares têm boa desenvoltura, está em meio o apanho do tomate, cuja abundância trouxe aos fazendeiros da região um ânimo inédito. As velhas irmãs gêmeas Soraia e Cândida, porém, passam às bermas desses felizes acontecimentos.

Trancadas na quinta que receberam de herança de um tio distante — tipo sério e ranzinza que só botara os olhos nas gêmeas em duas ocasiões: 1) quando elas vieram ao mundo; 2) poucas horas antes da própria morte levá-lo alhures. Que a quinta ficasse sob a supervisão das sobrinhas sempre foi algo suspeitoso, principalmente porque nenhuma delas jamais possuíra qualquer intimidade com os pormenores da terra. No entanto, quis o destino que as irmãs se mudassem à antiga morada do falecido parente, onde ambas decidiram em comum desacordo passar o resto dos seus dias. 

Elas estão na sala principal da sede da quinta. Soraia abre as janelas que não eram abertas desde a primavera passada, o vento invade o interior do aposento como se, sufocado, desse enfim um longo suspiro de alívio. Cândida oscila na poltrona: rique-reque-rique-reque, é o barulho que faz a poltrona. Soraia passa o paninho molhado sobre os móveis. Cândida boceja e resmunga sem vontade de ser ouvida: velha!, passas a vida toda a limpar os móveis, que obstinação estranha. Soraia escuta, escuta cada palavra, continua a limpar os móveis reluzentes e sem se virar para a poltrona comenta: sabes, Cândida, estive cá a pensar numas coisas… talvez eu compre um trator, um trator enorme, com aquelas rodas gigantescas, desproporcionais, pois é, nem preciso de trator, nunca precisei de trator, mas talvez eu compre mesmo um, quero trator, está decidido. Ao virar-se para avaliar a reação da irmã sentada, Soraia percebe que o rique-reque da poltrona cessara. Cândida, por algum motivo, não balançava mais.

— P. R. Cunha