devaneios da própria máquina de escrever (episódio #12)

arrumar a escrivaninha para um novo trabalho, nova empreitada, quantas portas serão abertas, escancaradas, outra vida. 

(& era como se minha cabeça estivesse hibernando, até que, de repente: booooom!)

vamos supor que francisco & samir sejam amigos, conheceram-se em criança, na escola. vamos supor também que eles não se encontram há décadas, vinte anos talvez. sabemos que vivem na mesma cidade; francisco é advogado, mora perto da praia; samir é arquiteto, mora ao cimo da serra. ambos estão naquela fase a que chamamos — não sem um comedimento desconfortável — de meia idade. aconteceu de franciso ser contratado para defender o caso de um empresário que, assim como samir, possui residência ao cimo da serra. francisco raramente sobe a serra, não lhe apetece o clima frio das montanhas, de forma que decidira aproveitar-se da ocasião & convidar o longevo amigo para, como se diz, colocar a conversa em dia. samir mostrara-se de facto muito surpreso com a ligação de francisco: eu realmente não esperava, ele disse, & antes de se despedirem ao telefone, combinaram hora (às 15h) & local do encontro (cafeteria da serra). vamos supor que francisco tenha aparecido, vamos supor ainda uma última vez que francisco tenha esperado cerca de duas horas pelo amigo arquiteto — mas samir nunca apareceu.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #10)

entre lá & seja você mesmo, disseram-lhe. mais dois tapinhas nas costas, «tap-taps», não tão leves ao ponto de serem considerados protocolares nem tão pesados ao ponto de darem a impressão de arrogância/indiferença. tapinhas nas costas na medida certa, ele pensou antes de ultrapassar as cortinas do auditório da universidade, «tap-taps» realmente encorajadores, eficientes. o auditório era formado por plateia dispersa: alunos, professores, alguns coordenadores, visitantes temporários. como da praxe, todos faziam cara de que gostariam de estar algures. mas estão ali sentados. plateia. ele se aproxima do púlpito. o púlpito/tribuna possui o brasão da universidade. um brasão ostentador, ele pensa, agora que está próximo o suficiente do brasão para ter a certeza de que se trata mesmo de um brasão ostentador. há poucos meses ele também estava sentado numa daquelas cadeiras apenas aparentemente confortáveis do auditório da universidade. também com uma fisionomia distante, aluada (dir-se-ia). agora, porém, estava ao púlpito. atrás do brasão ostentador. e não queria fazer feio. de forma alguma. fazer feio estava fora de cogitação. um fracasso seria terrível, irreparável, justo agora que as coisas pareciam ter se ajeitado. tira pigarro invisível da garganta, dá algumas cutucadas no microfone, percebe que está funcionando perfeitamente. é um ótimo microfone, ele pensa. uma garota com cabelo colorido acaba de bocejar. ela está sentada sozinha na primeira fileira. seria impossível não perceber o bocejo. a garota emite sons ao bocejar, sons prolongados: ahhhhhhm/uhhhhhhmmm/arrrrrrrgmmm, sons do tipo que o tio bob fazia quando a tia mércia dava-lhe um sermão. mas não é altura para distrações. ele está sobre o palco, ao púlpito, atrás do brasão ostentador com as iniciais da universidade gravadas em, ao que parece, ouro. o mais provável, no entanto, é que não seja ouro, seja algum material cor-de-ouro, mas que não seja ouro propriamente dito: uma imitação, portanto. ele posiciona o fino & flexível mastro do microfone para que a sua voz saia límpida, inteligível. depois ajeita os óculos ao nariz. óculos arredondados à moda professor universitário anos 1960, ou daqueles que os vocalistas das bandas indie costumavam usar (weezer, ric ocasek, telekinesis, death cab for cutie &tc. &tc.). sente vergonha do próprio aspecto. livresco demais, (pseudo)intelectual demais, ele pensa. a camisa de flanela com motivos quadriculados-preto-&-vermelho parece querer estrangulá-lo. olha para trás, para a brecha da cortina pela qual entrara ao palco. pensa se ainda daria tempo de desistir. de voltar ao conforto daquela brecha. de ir-se embora. mas não pode. tem de continuar. chegara a vez dele.

— p. r. cunha

Quinta das irmãs gêmeas

As chuvas voltaram, aos poucos as sementeiras de frutos diversos mostram-se novamente em condições apresentáveis, enquanto o marrom da relva desidratada despede-se, já se vê o verde despretensioso da horta, as batatas estão em belo estado, os pomares têm boa desenvoltura, está em meio o apanho do tomate, cuja abundância trouxe aos fazendeiros da região um ânimo inédito. As velhas irmãs gêmeas Soraia e Cândida, porém, passam às bermas desses felizes acontecimentos.

Trancadas na quinta que receberam de herança de um tio distante — tipo sério e ranzinza que só botara os olhos nas gêmeas em duas ocasiões: 1) quando elas vieram ao mundo; 2) poucas horas antes da própria morte levá-lo alhures. Que a quinta ficasse sob a supervisão das sobrinhas sempre foi algo suspeitoso, principalmente porque nenhuma delas jamais possuíra qualquer intimidade com os pormenores da terra. No entanto, quis o destino que as irmãs se mudassem à antiga morada do falecido parente, onde ambas decidiram em comum desacordo passar o resto dos seus dias. 

Elas estão na sala principal da sede da quinta. Soraia abre as janelas que não eram abertas desde a primavera passada, o vento invade o interior do aposento como se, sufocado, desse enfim um longo suspiro de alívio. Cândida oscila na poltrona: rique-reque-rique-reque, é o barulho que faz a poltrona. Soraia passa o paninho molhado sobre os móveis. Cândida boceja e resmunga sem vontade de ser ouvida: velha!, passas a vida toda a limpar os móveis, que obstinação estranha. Soraia escuta, escuta cada palavra, continua a limpar os móveis reluzentes e sem se virar para a poltrona comenta: sabes, Cândida, estive cá a pensar numas coisas… talvez eu compre um trator, um trator enorme, com aquelas rodas gigantescas, desproporcionais, pois é, nem preciso de trator, nunca precisei de trator, mas talvez eu compre mesmo um, quero trator, está decidido. Ao virar-se para avaliar a reação da irmã sentada, Soraia percebe que o rique-reque da poltrona cessara. Cândida, por algum motivo, não balançava mais.

— P. R. Cunha

Sistemas de irrigação

A tímida lua de uma noite de outubro que se esconde atrás das nuvens como se tentasse cobrir as cicatrizes da própria superfície que, assim explica a astronomia, fôra bombardeada por toda a sorte de pedras espaciais.

Do lado de fora da casa dos Mendes, o sistema de irrigação automático entra em funcionamento e aos poucos começa a deixar a relva noturna com um aspecto brilhante e vistoso que Ruy Sereno, vizinho, tanto admira.

Ruy Sereno está a segurar a chávena perto da janela, admirando aquele feito da engenharia de jardinagem. A esposa se ajeita sob o cobertor de lã comprado durante a última visita do casal aos Andes chilenos: o que está fazendo, Ruy? — ela pergunta —, sai dessa janela, parece louco. O vapor do chá embaça os óculos fundo de garrafa do Ruy, que responde: são os Mendes de novo, com aquela magnífica chuva artificial.

O jato de água completa uma volta: 360º de relva molhada. Quando o jato se aproxima da casa dos Mendes, respinga na janela do quarto dos pequenos irmãos Bento e Adriano. Os dois estão sentados no tapete. Bento chora enquanto Adriano tenta consolá-lo. Escutam um barulho. Surge homem com máscara de oxigênio que segura-os pelo braço.

Bento e Adriano tateiam o corredor escuro. O homem com máscara de oxigênio puxa-os com mais força. Bento engole o choro. Quando chegam à porta indicada pelo mascarado, percebem que o sr. e a sra. Mendes também estão ali. Eles se abraçam. O mascarado abre a porta e de lá brilha um clarão estranho. Escutam-se vozes abafadas, gritos talvez, até que a porta se fecha novamente.

A família Mendes permanece unida na escuridão do corredor. Todos esperavam alguma coisa, todos queriam saber, e no entanto, temendo talvez a resposta, ninguém ousava perguntar.

— P. R. Cunha

Passeios habituais por entre as montanhas

Os dois já estavam a caminhar há mais de três horas. Um dia bastante soalheiro castigava-os sem piedade. Carregavam pesadas mochilas às costas e utilizavam bastões para se equilibrarem entre as incontáveis pedras multicolores que encontravam pela trilha. Kozinski levara o cantil até à boca. Enquanto enxugava os lábios com a manga da camisa disse ao amigo: tu sabes melhor do que ninguém que sou dado a fazer estas longas caminhadas, David, que é da minha natureza sumir… mas quando vou muito algures as pessoas me chamam de louco. Sem diminuir o passo, Kozinski guardou o cantil dentro da mochila e continuou: vê lá, o que é natural e agradável para alguns sendo para outros algo de imoderado, de loucura mesmo. Prosseguiram em silêncio sob um céu sem nuvens. David então parou subitamente, como se se sentisse ameaçado. Notou que havia alguma coisa estranha no horizonte, perto das montanhas. Pegou o binóculo para perceber melhor e estupefato, suando em bica, passou-o para Kozinski: olha isto! Kozinski ajeitou o binóculo perto do nariz e não conseguia acreditar no que estava a ver, aquilo era simplesmente impossível.

— P. R. Cunha

Brasília, 24 de setembro

Era terça-feira. O sol da tarde invadia o para-brisa do automóvel dele. Um calor surreal-desértico-insuportável esquentava as janelas do veículo como se quisesse anunciar a chegada do próprio diabo. Ele aumentou a potência do ventilador interno e uma baforada infernal atingira-lhe o rosto. O ventilador não fazia diferença. Em verdade, só piorara a situação. Uma motocicleta barulhenta surgiu do nada e ele teve de travar fundo o pedal de freio — fundo mesmo, parecia que a sola do sapato iria se desintegrar a qualquer momento. Não atingiu a motocicleta por questão de centímetros, talvez milímetros. Ele ainda xingava a progenitora do motociclista quando ouviu o telemóvel vibrando. Tateara o banco do passageiro para procurar o iPhone que mostrava-se tão quente quanto magma vulcânico. Levou o aparelho ao ouvido e antes de dizer «alô» sentiu como se a orelha fosse derreter. Por puro reflexo, jogou violentamente o telemóvel sobre o painel. Alguém do outro lado da linha gritara alguma coisa, mas ele não escutou nada. Estava ocupado demais coçando a orelha direita, que ardia imenso.

— P. R. Cunha