Armadilhas literárias

Está o escritor presente em tudo o que escreve? As histórias, ou melhor, estórias que ele publica são autobiográficas? É legítimo fazer-lhe aquelas perguntas que tanto inquietam Orhan Pamuk — a saber: isto que o senhor escreveu realmente ocorrera?, o senhor passara por todas essas coisas? Diversos estudos psicológicos procuram compreender os pormenores do discurso daqueles que contam mentiras; se é ou não possível acreditar numa mentira caso essa mentira seja repetida inúmeras vezes etc. Noutros termos mais literários: pode o escritor confundir-se com a própria ficção? Neurocientistas apontam que a memória é traiçoeira. Mesmo se o emissor, com as melhores das intenções, garantir que está a falar a verdade, essa verdade pode se mostrar bem distinta dos acontecimentos ocorridos. Recordamos de forma equivocada e parece claro que essa sinuosa via neurológica levar-nos-ia a paradoxos absurdos nos quais a Verdade (com V maiúsculo) é apenas uma concepção artística. Ao passo que deveria de existir uma espécie de acordo tácito entre aquele que descreve e aquele que lê. Se o autor se identifica como escritor de ficção, voilà, os leitores deveriam apreciá-lo como tal. Mesmo que a verdade lhe sirva de alimento criativo, o que ele está a contar são representações (ilustrações, se preferir). Os envolvidos que não levarem esse acordo em alta conta correm o risco de caírem naquele obscuro vale descrito por Henry James — onde o observador se vê também como um estranho e perdido personagem.

— P. R. Cunha

Certos valores de arte / alegorias

Compartilho estas hipóteses com o objetivo de continuar minhas tentativas de descrever possíveis verdades ocultas que algumas manifestações artísticas carregam em si. Trata-se de um olhar franco e direto, mas longe de ser angustiado. Pois, quando posso, afasto-me do abismo — de aí recebo um colorido diferente da vida e sinto-me já deveras recompensado.

Sabe-se que a teoria de evolução das espécies do afável Charles Darwin baseia-se em características de variações. Em suma, aqueles organismos que se adaptarem às intempéries terão mais chances de se reproduzir e consequentemente de compartilhar o próprio material genético. Chama-se a isto seleção natural, um dos motivos pelos quais o ser humano é o único primata bípede do gênero Homo ainda vivo.

Em um exercício adaptativo — à laia de manter a terminologia adequada —, poder-se-ia utilizar o conceito geral da teoria de Darwin à sobrevivência das manifestações artísticas humanas.

Com finalidades ilustrativas, comecemos com as peças de William Shakespeare. Hamlet foi escrita no início do século XVII e ainda hoje é encenada nos palcos modernos. Em termos evolutivos, trata-se de um titã difícil de superar. Nesta mesma linha de raciocínio, ainda lemos os livros de Goethe, as sátiras de Swift, os contos de Dickens, ainda admiramos a Mona Lisa, ou as esculturas de Michelangelo, tantos ainda se emocionam diante da Rapariga com o brinco de pérola, de Vermeer. Mas, por quê?

No livro O que é a arte?, Nigel Wartburton discorre com extrema elegância sobre os desafios de se identificar uma intervenção artística. Conceito maleável, que depende da época, do contexto, de um grupo de fatores altamente arbitrários. Para não cairmos nas valas infinitas da subjetividade, aconselho simplificarmos a paisagem e lidarmos primordialmente com os aspectos emocionais da arte. Ou seja, arte a ser aquilo que gostaríamos de guardar, manter connosco, pois causa-nos boas sensações.

A obra de arte precisa de dialogar com aqueles que se deparam com ela. Ainda assistimos às peças de Shakespeare porque elas conversam com a plateia, retratam situações que continuam a ser relevantes — apesar dos mais de quatrocentos anos de diferença. O mesmo valeria para os quadros de Van Gogh, ou os sonetos de Camões. Voltamos a esses objetos mistificados porque queremos sentir aquilo de novo, e de novo, e de novo. Não é apenas uma pintura de um Quarto em Arles, é também o meu quarto, é como eu me sinto por dentro.

A linguagem, os símbolos utilizados pelo artista tornam-se então de suma importância para a experiência do observador, que vai absorver a obra de acordo com as próprias expectativas. 

Antes de seguir adiante, sugiro analisar este exemplo. Duas reproduções de O ensaio de Ballet, 1873 pintado por Edgar Degas.

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A primeira está embaçada, quase não é possível distinguir os elementos da pintura. Se não soubéssemos que se trata de Edgar Degas, talvez nem conseguíssemos identificar as bailarinas aquecendo-se. Já a segunda reprodução é uma tentativa de retratar fielmente a obra original — claro, com as devidas considerações cromáticas.

O propósito deste exemplo é mostrar que a nossa relação com a obra se modifica de acordo com a complexidade dos elementos que nos são apresentados: aquilo que o nosso cérebro consegue reter, misturar, reconstruir/desconstruir.

Tais reflexões também se mostram pertinentes quando observamos a constante transformação linguística nos meios de comunicação modernos. Ressalto que ainda estou a analisar o ponto de vista do observador, no sentido de optimizar a experiência. Pensemos nas intervenções epistolares — para muitos, uma edificante forma de se expressar artisticamente. Não é preciso ser nostálgico, pode-se bem trocar as cartas pelos pixels dos correios eletrônicos. Interesso-me pela mensagem inserida. Um amante escreve palavras desconjuntadas e termina o bilhete com um qr t v (i. e., quero te ver). Fosse o caso de se estudar se tais abreviações fazem ou não diferença na experiência do receptor. 

O qr t v (embaçado) e o quero te ver (nítido) seriam exemplos análogos aos dois quadros de Degas acima? 

Se recebo um texto abreviado penso que a pessoa que o escrevera estava sem tempo, às pressas, tinha coisas mais importantes para fazer. Não quero guardar uma carta (uma arte) assim. Seria esse um dos motivos pelos quais tantas formas contemporâneas se revelam descartáveis? Pensemos brevemente nas músicas que vão-e-vêm, nos filmes que não contam nada, nos livros que se repetem…

O empobrecimento das mensagens é, sem dúvida, fator preponderante na seleção natural das obras de arte. E é provável que a longevidade de Shakespeare, Dostoiévski, Cervantes tenha ainda muito a nos dizer sobre este processo.

— P. R. Cunha