Jovens e velhos

Um jovem escritor brasileiro que, conforme diziam os nossos maiores críticos literários, tinha lá um futuro brilhante pela frente decidira interromper a fazenda do próprio romance depois de descobrir que a literatura nada mais é do que uma enciclopédia de citações, e que os escritores contemporâneos estão sempre a folhear essa enorme enciclopédia com verbetes de autores mortos em busca de temas sobre os quais escrever, tomando muito cuidado, naturalmente, para alterar uma ou outra palavra e assim não serem desmascarados. Como quisesse encontrar a fonte primordial de toda essa enorme enciclopédia, isto é, o primeiro registro de literatura da história, o jovem escritor brasileiro abandonara tudo para dedicar-se única e exclusivamente a essa pesquisa que, qualquer um podia perceber, não tinha cabimento, pesquisa absurda, portanto. Depois de alguns meses, ao finalmente se dar conta da infinidade de trabalho que teria diante de si, o jovem escritor brasileiro jogou-se do sétimo andar de um apartamento no Leblon, bairro carioca cujos moradores, soube eu mais tarde, já estão cansados de ver literatos — jovens e velhos — a cair dos edifícios.

— P. R. Cunha