Quatro argumentos para filmes curtíssimos

1. Marcha-atrás

Manhãzinha. Um homem com indumentária completa está a sussurrar no telemóvel. Ajeita a gravata e caminha lentamente até ao carro, um esportivo da marca Porsche. A câmera o acompanha à moda close e aos poucos se afasta. Vemos, então, uma linda casa aos fundos da cena: jardim com flores coloridas, grama aparada, janelas com molduras brancas, tudo impecável, paradisíaco. O homem está a falar com a amante. Ele diz para ela não se preocupar, pois daria um jeito naquela questão matrimonial. A amante do outro lado da linha parece insistir, grita alguma coisa inaudível. O homem entra dentro do carro e dá a partida na ignição. Motor Porsche responde com vigor. Não precisa de se preocupar, amorzinho — ele diz. Marcha-atrás, o homem ainda a segurar o telemóvel aos ouvidos. Porsche acerta alguma coisa. Ouve-se um grito abafado, como se o John Bonham tocasse o bumbo preenchido com cobertores da bateria utilizada pelo Led Zeppelin no final dos anos 1960.


2. Bodas de prata

A câmera está a enquadrar um álbum de fotografias cuja capa mostra um casal e certa frase com tipologias enfeitadas a dizer: 25 ANOS DE CASAMENTO — BODAS DE PRATA. O álbum está sobre a mesa da sala, perto de um sofá verde com almofadas vermelhas. Escutamos barulhos de fritura e de louças diversas. A câmera vai até à cozinha do apartamento e fixa-se à porta. A mulher da capa do álbum está sentada numa cadeira a ler o jornal; enquanto o homem da capa do álbum ora mexe nas panelas para a comida não grudar, ora lava a louça acumulada na pia. A mulher de quando em vez abaixa o jornal e, enfurecida, reclama: você é mesmo um inútil, Jardel, imprestável. O homem chora.


3. Surpresa

Escritório de uma firma. Cinco funcionários preparam a festa surpresa de alguém. Um deles diz: não posso acreditar… Os outros balançam a cabeça afirmativamente. Ana é tão nova, diz um outro enquanto ajeita doces e salgados sobre a bandeja. Essas coisas são imprevisíveis, diz uma moça a assoprar balões. Ana é uma das nossas melhores funcionárias, que tragédia, diz aquele que é provavelmente o chefe. Alguém entra na sala e se assusta com a cena. Surpresa, Ana! — todos gritam em uníssono.


4. Tela plana

Estamos no quarto de uma casa mobiliada com esmero. Câmera aberta, lente de grande angular. Todas as cortinas estão fechadas, de modo que não sabemos se dia ou noite. Podemos ver a parte de trás da cabeça de uma senhora grisalha a assistir televisão sentada numa poltrona felpuda. Trata-se de um programa a preto e branco, apesar de a televisão ser moderna (tela plana, fina, etcétera). A cabeça da senhora nunca se mexe.

— P. R. Cunha

Cinema do Centro da Cidade

Um militar que depois de, como se diz, muitos anos de serviços prestados finalmente se aposentara e para não ficar, também como se diz, à toa decidira ir a todas as estreias de filmes ao assim chamado Cinema do Centro da Cidade. Não demorou para que o militar percebesse que o Cinema do Centro da Cidade era frequentado majoritariamente, cerca de setenta por cento, embora esse tipo de estimativa não seja lá muito simples de se fazer, frequentado majoritariamente por jovens que comem pipoca e manuseiam o telemóvel, principalmente às estreias que, como já se ressaltou, eram as sessões às quais o militar se dispusera a ir depois da própria aposentadoria. Como o barulho de pipoca e os ecrãs luminosos dos telemóveis o incomodassem sobremaneira, o militar decidira recrutar um promissor soldado para, devidamente dotado de rifle com mira, esconder-se nalgum canto da sala de cinema e atirar em qualquer pessoa que comesse pipoca, manuseasse telemóvel ou mesmo fizesse outro tipo de ruído que incomodasse a experiência cinematográfica do militar, que, diga-se de passagem, sempre ia às sessões fardado. Calhou de ser inverno aquando da primeira tentativa de se utilizar o soldado armado e — segundo os noticiários, que estranhamente não se excederam em minúcias — o militar andava acometido da gripe, de modo que, no momento em que o filme iniciou-se, foi ele o primeiro a espirrar, e o soldado, apenas seguindo ordens, como mais tarde justificar-se-ia num tribunal de pequenas causas, mirou o próprio rifle para a cabeça do baderneiro e apertara o gatilho com destreza. Ainda segundo os noticiários, essa sala do Cinema do Centro da Cidade tivera de ser desativada por tempo indeterminado, visto que até hoje não conseguiram remover completamente o sangue do militar que naturalmente se esparramara pelos assentos, além do cheiro ter se tornado, como eu mesmo pude averiguar depois, insuportável.

— P. R. Cunha