Politicamente incorreto

Não é preciso de ir muito longe para perceber que se vive numa modernidade de polícias. O desafio talvez seja reconhecê-los, pois não utilizam necessariamente a indumentária marcial. Civis também fazem parte da gangue.

O vizinho mexeriqueiro, a colega de trabalho, o motorista do autocarro, a jornalista, o professor de direito, a médica. Todos suspeitos. Podem ser (e provavelmente são) polícias.

Eles sabem o que é certo para si, ou melhor, para si e para toda a humanidade. Farão de tudo para serem ouvidos, para serem levados em conta, para, se preciso for, enfiarem os próprios ideais corretivos na goela de toda a gente.

Daí vêm as culpas.

Como, por exemplo, dormir demais. Numa sociedade policialesca dormir demais é um pecado capital. Você poderia estar a fazer algo de útil, mas está a dormir. Um breve cochilo vespertino é motivo de crises profundas: afinal, o que vão achar de mim?

Não se pode nem comer um salgado sem que algum espião olhe de cara feia a pensar: esse aí está perdido, brinca com a obesidade, sente tanto prazer ao ingerir salgado gorduroso, que obsceno.

(As bebidas alcoólicas sofrem de estigmas análogos a respeito dos quais muito já se escreveu.)

«Eu sei o que é bom para a raça humana, eu conheço o segredo do sucesso, eu sei o que é uma vida plena, saudável, equilibrada», o sujeito lhe cospe isso antes de voltar ao próprio apartamento de 20mpara perder-se em pensamentos suicidas.

O maior alvo da geração-polícia provavelmente seja o tabaco. A lei que proíbe fumar em locais públicos é sensata, mas não é o bastante. E por que cargas seria? Se você acende um cigarro no conforto da sua casa, sem incomodar vivalma, só você e o cigarro, é bom, por precaução, trancar as portas e fechar as cortinas, pois se alguém observá-lo a cometer tamanho crime saiba que terá de ouvir infinitos sermões.

Roland Barthes escreveu imenso sobre o direito ao tabaco. Parafraseio: sei que faz mal, sei que causa cancro, mas se gosto de fumar, e posso fumar, irei fumar, sou adulto, não necessito de nenhum grupo de fatalistas para esclarecer o que é bom ou ruim para a minha vida, sumam daqui!

Faz lembrar Robert Burton, que em 1621 declarara: oh!, o tabaco, divino, raro, superexcelente tabaco, um elemento milagroso que causa tanto a elevação quanto a ruína da alma.

Ou mesmo aquele antigo beberrão que costumava repetir: a bebida mata, e é bem por isso que continuo a beber.

Acontece que essa independência, essa liberdade de escolha, de compreender e lidar com os riscos, essas posturas desafiadoras obviamente incomodam deveras os membros do Estado Babá. Ora!, como ousa ter esse tipo de autonomia, vontade própria, diz o polícia social, não sabe que vivemos em grupos, e que seguimos regras específicas, e que todos precisam de se comportar direitinho?

— P. R. Cunha