Brasília é a metrópole do futuro que está a acontecer agora

A primeira experiência ciborgue de Frederico foi no mês passado, quando decidiu visitar os pais em Brasília — cidade feita de/&/para automóveis. 

Frederico está dirigindo na larga avenida L4, às margens do lago. Carros velozes ultrapassam o Renault Clio do forasteiro, que não compreende tanta hostilidade no trânsito. Depois de alguns dias, entretanto, o próprio Frederico acostumara-se ao modus operandi da capital: dirigir devagar estava definitivamente fora de cogitação.

Numa cidade em que as pessoas (ainda) prefiram sair às ruas a pé, e há o contato visual, quem sabe um leve esbarrar de ombros na faixa de pedestre acompanhado do discreto «peço-lhe desculpa», pode-se dizer que ali existe qualquer vestígio de humanidade — no sentido mais ingênuo da palavra.

Acontece que em Brasília Frederico estava a experimentar outro tipo de dinâmica. Não eram necessariamente humanos nas autopistas, eram caixas de metal que aceleravam em alta velocidade na direção de outras caixas de metal. 

Um motorista que é fechado por uma dessas bolhas com vidro fumê está a xingar uma pessoa de verdade ou grita feito louco para o estranho objeto pneumático?

É um pouco como ir ao consultório médico e na sala de espera deparar-se com corpos de cabeça baixa, a manusear os telemóveis luminosos, à parte, comunicando-se eletronicamente com outros da própria espécie.

— P. R. Cunha