Brasília é a metrópole do futuro que está a acontecer agora

A primeira experiência ciborgue de Frederico foi no mês passado, quando decidiu visitar os pais em Brasília — cidade feita de/&/para automóveis. 

Frederico está dirigindo na larga avenida L4, às margens do lago. Carros velozes ultrapassam o Renault Clio do forasteiro, que não compreende tanta hostilidade no trânsito. Depois de alguns dias, entretanto, o próprio Frederico acostumara-se ao modus operandi da capital: dirigir devagar estava definitivamente fora de cogitação.

Numa cidade em que as pessoas (ainda) prefiram sair às ruas a pé, e há o contato visual, quem sabe um leve esbarrar de ombros na faixa de pedestre acompanhado do discreto «peço-lhe desculpa», pode-se dizer que ali existe qualquer vestígio de humanidade — no sentido mais ingênuo da palavra.

Acontece que em Brasília Frederico estava a experimentar outro tipo de dinâmica. Não eram necessariamente humanos nas autopistas, eram caixas de metal que aceleravam em alta velocidade na direção de outras caixas de metal. 

Um motorista que é fechado por uma dessas bolhas com vidro fumê está a xingar uma pessoa de verdade ou grita feito louco para o estranho objeto pneumático?

É um pouco como ir ao consultório médico e na sala de espera deparar-se com corpos de cabeça baixa, a manusear os telemóveis luminosos, à parte, comunicando-se eletronicamente com outros da própria espécie.

— P. R. Cunha

Animal em extinção

Que a literatura esteja sempre a morrer, desde os gregos antigos, desde as transições da oralidade para a escrita, que ela, portanto, tenha sido declarada moribunda já no próprio nascimento, negligenciada, esquecida, poucos leem, como se diz, e que esse vagar fantasmagórico — e categórico — rumo ao desfiladeiro, o grande salto para o vazio, «o que se confessa em silêncio» (DERRIDA, Jacques), que sempre tenha vivido, ou melhor, sobrevivido de agonias, sem recursos, errática, perdida, desconfiada, descartada, que se transforma em ciborgue, que se adapta ao ciborgue, que se desmancha, se apruma, se constrói, se corrige no software de edição de texto, e os sonhos com ovelhas elétricas mesclam-se com realidade(s), com aquilo que se considera realidade, hiper-real, com transmissões wireless, telepáticas, literatura como meio, e o meio, Marshall McLuhan bem o sabia, é a mensagem.

— P. R. Cunha

Turma de filosofia

Para Aguarela de Viagens

7h42 da manhã. Max entra na sala de aula. Com passos inquietos dirige-se ao quadro de ardósia e coloca sobre a mesa a própria maleta marrom que poderia ter pertencido a um qualquer espião búlgaro durante a Guerra Fria. Sem dizer bons-dias aos alunos e com os olhos fixos num horizonte invisível, o professor parafraseia Irvin D. Yalom: porque não podemos viver congelados pelo medo, criamos subterfúgios para amenizar o terror da morte. 

Os alunos permanecem em silêncio. Max continua:

Um curioso exercício filosófico consiste em nomear ao menos cinco pessoas que viveram durante o século XVI. Obviamente, o propósito da empreitada perderá todo o sentido se algum espertinho utilizar-se dos recursos Google e que tais relacionados. 

Vamos… Cinco nomes de pessoas que viveram no século XVI, assim, de cabeça.

A ironia, continua Max, é que estamos a viver na era das tecnologias midiáticas, numa altura em que raramente ficamos alguns minutos sem receber notícias de alguém ou de alguma coisa, e, mesmo assim, muitos não conseguem se lembrar de cinco, apenas cinco dos milhares de humanos que viveram há cerca de quinhentos anos.

É de se pensar nisto, diz Max, será que as pessoas de 2500 lembrar-se-ão de nós? Ou, num tom menos egotista, mais abrangente (aqui Max adota certa postura teatral, distante, está a desempenhar o papel dramático que tanto lhe apetece): qual será o legado desta época de abundâncias, de quantidades, dos planos de saúde, mas também de negligências memoráveis?

Um aluno tosse, outra aluna leva o dedo em riste aos lábios e faz shhhh!

Talvez até lá, prossegue Max, seres humanos e robôs tenham se fundido, transformaram-se num organismo inclassificável. Ciborgue que não dá a mínima para as instabilidades cronológicas e psicológicas do ultrapassado e emotivo Homo sapiens. O próprio interesse em fazer perguntas perderia um bocadinho o sentido, pois as respostas, se levarmos o Elon Musk a sério, estariam embutidas na programação da «placa-mãe» (Max faz as aspas aéreas), o famigerado cérebro de silício atualizável.

— P. R. Cunha