Só mais um rostinho bonito (e indefeso) no capcioso universo literário

Dizem que todas as profissões criam para si um conjunto de maneirismos — uma espécie de manual de etiqueta informal que ao fim e ao cabo acaba definindo um bocadinho esta ou aquela área de atuação. Penso nos uniformes de guerra, nas perucas dos juízes, no jaleco branco a mostrar que fulano é médico e confiável, nas patentes aeronáuticas, penso na indumentária alternativa dos que trabalham com publicidade, nos homens e mulheres hightech que praticam o jogging pela manhã e depois levam os próprios animais (cães, gatos, porquinhos da Índia) à sede de empresas com edifícios «amistosamente ecológicos» tais como Google, Facebook, Microsoft. São esteriótipos. E como acontece muitas vezes com as imposições arbitrárias, os esteriótipos têm também qualquer coisa de cafona, de surreal. Nunca compreendi, por exemplo, os porquês de os políticos brasileiros vestirem terno e gravata. O Brasil é um país tropical com temperaturas diabolicamente infernais. Uma terra a arder e mesmo assim os gajos se metem em fatos de algodão, ficam tão ensopados e fedorentos quanto um gambá silvestre depois de fugir do Leopardus spp. — popularmente conhecido como gato-do-mato. No entanto, é provável que no quesito «brega casual» nenhuma cafonice consiga superar a dos chamados (pseudo-)intelectuais. Christopher Hitchens dizia que não conseguia ler o livro de autores que tirassem retratos com a mão no queixo, a fazer poses de: mamã, estou na orelha de um livro, o meu livro, sou mesmo muito importante, passo os weekends a ler Tolstói, analisando os pormenores do formalismo búlgaro. Ou mesmo a postura de pessoa fragilizada pelas mazelas do mundo, a citar Bertrand Russell fora do contexto. O desabafo vem a calhar, porque dia desses um jornalista solicitou-me fotografia à guisa de ilustração — ele escrevera uma nota a respeito de Paraquedas. Acontece que depois ficou deveras aborrecido com a imagem que eu lhe enviara (uma foto descontraída em que estou perto da piscina, com t-shirt branca e tênis de beisebol). Não tem nenhuma mais bonitinha?, ele me perguntou. Pedi que definisse o adjetivo com mais esmero. A resposta: sei lá, uma com a mão no queixo, essas fotos que vocês (sic!) costumam mandar para a imprensa.

— P. R. Cunha


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Crasso exemplo de autor-fragilizado-pelas-intempéries-do-mundo-com-a-mão-no-queixo (a mídia parece adorar esse tipo de pose) ©BWC Photos

Se pretendo ser escritor

A minha amiga poetisa G. lembrou-me que hoje é dia dos seres humanos que escrevem. Coincidentemente, estava a organizar meus textos mais antigos e deparei-me com este curioso manifesto (na falta de melhor termo) que escrevi em 2009, aquando vivia para São Petersburgo. Eu tinha 24 anos na altura.


SE PRETENDO SER ESCRITOR

Hoje eu moro na Rússia, perto da antiga casa do Dostoiévski. Hoje eu pretendo ser escritor.

As pessoas que me leram (basicamente: mãe, pai, o editor de suplementos do Correio Braziliense, namorada, uma prima que mora em Ipanema) disseram que minhas estórias são melancólicas, introspectivas, «têm qualquer coisa de crua ali», sinceridade etc.

Se pretendo ser escritor, que tipo de escritor pretendo ser:

Há os escritores ácidos. Escrevem para tumultuar, tirar-nos da zona de conforto. (Utilizo-me do tempo presente à guisa de estilo, mas a maioria dos autores que citarei adiante já, como se diz, bateu as botas): Hemingway, os melhores ensaios do Orwell, Christopher Hitchens, Swift, Handke, Norman Mailer, Ginsberg, S. Thompson, Bernhard, Kerouac, Burroughs, Dos Passos, Casanova, Sade, Bukowski. Outros escritores são bonzinhos e contemporizam; o sr. Chesterton, por exemplo, bonzinho, os contos alienígenas do Bradbury, bonzinhos, a prosa bucólica do Walden, idem.

Eu pretendo ser um escritor ácido & bonzinho, inverno & verão, Rússia & Brasil, luz & sombra. Um escritor bipolar, portanto — assim como o rapaz que segura esta caneta azul (presente da minha madrinha, a Marli).

O que é um escritor? Escritor é aquele que constrói frases. Um engenheiro gramatical.

Gostava de ser isto: engenheiro gramatical.

Quem sabe um dia.

— P. R. Cunha