Brasileiro Moderno de Azevedo

Brasileiro Moderno de Azevedo é um daqueles estranhos casos em que não conseguimos definir a idade com a devida precisão que gostaríamos: tanto pode andar na casa dos vinte como na dos quarenta e cinco, cinquenta anos. Veste-se de punk, jamais folheou Karl Marx porque detesta qualquer tipo de viés ideológico — apesar de levar a mão direita ao peito enquanto toca o hino dos United States of America e colar bandeirinhas de Israel na traseira do automóvel Land Rover. Brasileiro Moderno defende os produtos nacionais enquanto toma uma garrafa de Coca-Cola na fila do McDonald’s escutando no próprio iPhone X (made in algures) o novo álbum do Jay-Z. Brasileiro Moderno diz-se democrático, mas trabalha numa empresa em que mulheres ganham 20,5% a menos do que os homens; diz-se também a favor de um governo que defenda os interesses de todos os cidadãos, mas vota em políticos homofóbicos. Tenta mostrar-se engajado e às vezes até sai para as ruas a fim de «protestar pelos direitos dos menos favorecidos», ocasião em que Brasileiro Moderno veste com-muito-orgulho-com-muito-amor a camisa do selecionado de futebol (R$ 500) comandada pela mui honesta CBF, que, como sabemos, quase não se mete em escândalos de corrupção. Depois de ter ficado rouco de tanto gritar frases como «Fora Rede Globo!», «Globo é Lixo!», «Basta de Novelas!», Brasileiro Moderno chega em casa, ainda vestido apropriadamente com a camisa desportiva amarela, e escolhe sem qualquer pudor o canal da TV Globo para assistir ao nacionalíssimo esquadrão de Tite — com 23 convocados, dos quais apenas três atuam no futebol local. Desnecessário dizer que o patriotismo de Brasileiro Moderno de Azevedo aumentará ou diminuirá de acordo com o resultado obtido pelos guerreiros futebolistas. Que vença, portanto, o Brasil.

— P. R. Cunha