Contos revisitados (levemente alterados): geladeira vermelha estilo retrô

Elizabete está assistindo ao noticiário enquanto o marido Norberto frita uns ovos com bacon e orégano, pitadas de sal, sem excessos, porque o médico anda muito preocupado com o alto nível de sódio no sangue do Norberto, hipernatremia (no idioma medicinal), e o colesterol, precisa de se cuidar, diz o médico, não é mais uma criancinha, Norberto. A luz azulada da tela de TV reflete nas lentes grossas dos óculos da Elizabete, que também não é mais uma criancinha (5 graus de miopia / 4.5 de astigmatismo). Ela corta umas verduras que estão ficando já meio passadas, os pedaços desabam numa bacia circular cor de abacate, e a faca que perdera a afiação dos melhores dias. Pode-se dizer que Elizabete e Norberto são como as facas que pararam de cortar, mesmo que numa altura fossem afiadíssimas e deixassem toda a sorte de verduras (até as mais resistentes) em pedacinhos. Agora o noticiário fala de um empresário que, como se diz, se dera muito bem na vida. O nome dele é Carlos Bragança. Elizabete para de cortar as verduras, fica de pé na sala sob o olhar luminoso do televisor e diz: Norbe!, Norbe!, vê só!, o nosso amigo dos tempos de escola está no noticiário. Norberto esquece o ovo a fritar na frigideira e vai ver o que se passa: humn, ele era bem mais magro, não achas?, e não tinha lá essas entradas na testa… Elizabete, como que hipnotizada, pronuncia vagarosamente o nome: Braaaaa-gannnnn-ça, ainda o acho muito atraente, e tenho a certeza de que todas as meninas da turma concordariam comigo. Ela solta uma risada alta e descontrolada, parece louca. Norberto coça a têmpora, incomodado com aquele adversário de luz, um fantasma que se levantara de um sonho plasmático de televisão: péssimo aluno de geografia, péssimo, não te lembras disso? Elizabete limpa os óculos com a camisola para enxergar melhor, continua a sorrir para o noticiário. Carlos Bragança fala agora sobre uma venda importante, guinadas econômicas, mais dinheiro para o produto interno bruto. Que homem!, ela suspira. Norberto dá de ombros, volta para a cozinha e continua a fritar os ovos com bacon, orégano, pitadas de sal, etc.

— P. R. Cunha

Armário embutido

Tendo voltado de um longo & ardiloso dia de trabalho, Sebastião é recebido pela filha pequena com os beijinhos & os abraços & ele pergunta: mamã, onde está?, a filha diz que mamã está no quarto, & antes de Sebastião abrir a porta do quarto eis que surge a mamã; ela aparece para recebê-lo com assaz de alegria, alegria desmedida, pensou Sebastião, que há tempos não notava um sorriso no rosto da esposa, talvez nos primeiros anos de casamento, nos bons primeiros anos de casamento, mas depois ela, ou melhor, à guisa de sinceridade, ambos perderam o hábito do sorriso, ao que a mamã fechou a porta atrás de si, empurrara o marido para o corredor, disse-lhe que oh!, foi pega de surpresa, não imaginava que ele fosse chegar tão cedinho, que ela mesma tivera um dia longo & ardiloso de trabalho, que o quarto estava uma bagunça, percebes?, que talvez fosse melhor ele, Sebastião, aguardar lá na sala, ao que ele disse: tudo bem, vou apenas colocar a minha maleta no armário & espero lá na sala com a filhota, eles poderiam brincar de aviãozinho, Sebastião levantaria a filha & fingiriam que estavam a flutuar no céu azul da Galícia, & a esposa de repente começara a suar, uma transpiração fria, descontrolada, segurara na alça da maleta, garantira que ela mesma guardaria a maleta no armário, não te preocupes, não havia mesmo a necessidade de ele entrar no quarto, que estava uma bagunça, ela insistira, uma baderna, não gostava que visses aquela algazarra, ela disse, mas Sebastião deu de ombros, fez que nem era com ele & entrou no quarto mesmo assim & abriu a porta do armário mesmo assim & lá dentro guardara a própria maleta como sempre fizera ao chegar da firma.

— P. R. Cunha

Waltz

Acontecia muita festa naquele apartamento — valsas de Tchaikovsky, minuetos, recitais de todos os gêneros. Era um casal com repertório variado, percebes? Mas parece que brigavam muito também. Bebiam em demasia, e à noite ouvíamos uns barulhos de vidro quebrando, gritos, xingavam-se os dois, ela o chamava disso, ele a chamava daquilo, os móveis caíam, cadeiras, mesas, sei lá. Daí que na semana passada ele sofreu acidente bastante sério, foi atropelado por um autocarro. Os médicos tiveram de sedá-lo, não havia outra alternativa, coma induzido (droga barbitúrica), esse tipo de jazz, ele não saía da maca do hospital, com aqueles aparelhos fazendo ruídos de morte, sabes?, e ela chorava ao lado dele: me perdoa, querido, estou tão arrependida, me perdoa, me perdoa. Talvez ele escutasse. Nunca se sabe.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #42)

robert gould estava em pé a mexer nos papéis sobre a mesa de estudos. a esposa saiu do banho enrolada na toalha: o que estás a fazer, robbie? o marido ajeitou os óculos de leitura enquanto segurava uma espécie de lista: li noventa & oito livros este ano. helen vestia a roupa de dormir: ora, muitos parabéns, robbie. não, não, não, ele disse, não é disso que se trata. helen abraçou o marido como se abraçasse uma criança perdida, deu-lhe um beijo na testa: então, do que é que se trata? ele tirou os óculos, esfregou os olhos, deu um peteleco na lista: noventa & oito livros & me sinto vazio como os diabos, como se não tivesse realizado coisa alguma. oh, robbie, ela sussurrou, oh, robbie, vamos deitar. os dois se ajeitaram na cama. robert gould apagou a luz do abajur: te contei que ontem sonhei com o meu pai? helen virou a cabeça na direção do marido: com o teu pai? sim, com o meu pai. permaneceram em silêncio. helen estava prestes a fechar os olhos quando lembrou-se da última vez em que deixara o marido a falar sozinho & no dia seguinte ele se mostrava absolutamente intratável: como… foi, o sonho? robert gould ligou a luz do abajur, colocou o travesseiro na cabeceira da cama para encostar-se: estou sentado na areia, é bem cedo, sei lá, sete, oito horas, no máximo, meu pai nos acordava muito cedo para irmos à praia, & a praia estava praticamente vazia quando chegávamos, talvez um aposentado a praticar o running, ou uma moça com trajes new wave a fazer yoga, de forma que papai pegava o melhor lugar, a melhor mesa, & logo fazia amizade com o dono da barraquinha diante da qual arrumávamos as nossas trouxas, & o resultado era que todos adoravam as conversas do meu pai, o jeito extrovertido do meu pai, & chamavam-no de chefe, sempre traziam as nossas comidas primeiro, serviam-nos o peixe frito, perguntavam para o meu pai se «tudo certinho por aqui, chefe», & meu pai dizia que sim, tudo certinho, &tc, daí lá estou eu sentado na areia, pequeno, branco, loiro, desengonçado, sunga com motivos ducktales, tio patinhas, emburrado porque eram sete horas da manhã, sonolento, colérico, enquanto papai era tratado como um rei & perguntava-me com uma voz leve, brincalhona, descompromissada, sem entender nada do meu azedume, papai perguntava-me se eu queria milho verde com manteiga, ou um potinho de salada de frutas com leite condensado, enquanto estou a observar as ondas, & não me viro para o meu pai, não viro, quero continuar a mostrar a ele que estou zangado, muito zangado, que não faz sentido acordar tão cedo para ir à praia, & no fundo eu adoraria um milho verde com manteiga, um potinho de salada de frutas com leite condensado, mas não pretendo ceder, & de birra, sem tirar os olhos do mar, apenas digo não!, não quero nada!, & consigo sentir o ar expelindo dos pulmões do meu pai, o desapontamento do meu pai, a melancolia que invade o coração dele por ser tratado com tamanha indiferença pelo próprio filho, o príncipe… helen não aguentara ouvir tudo — decidiu que lidaria com os complexos do marido no dia seguinte, ao pequeno-almoço, depois de uma noite de sono mais ou menos revigorante.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #38)

o menino acorda com os gritos da briga dos pais. é o quinto, ou melhor, o sexto domingo seguido que isso acontece. o menino acha que os pais brigam aos domingos porque é justamente o dia em que o pai, motorista de trator, fica em casa. os gritos trafegam em todas as frequências audíveis: graves, agudos, médios etc. o pai claramente é o contralto da orquestra. a voz da mãe modula-se de acordo com o andamento da partitura: por vezes tenor, daí soprano, noutras vezes barítono. a sinfonia é insuportável, pensa o menino. nos dias da semana, os pais não brigam porque cada um fica, como se diz, «na sua». o pai a dirigir trator, a mãe a vender miudezas na quitanda da dona célia, uma senhora redondinha que nunca tira o lenço da cabeça. o menino está claramente a desenvolver uma aversão aos domingos. ele sai de casa para arejar os próprios pensamentos. o sol da manhã já se mostra cruel. o menino vai até à beira do rio. a água do rio que passa & jamais volta, ele lera qualquer coisa do gênero na biblioteca da escola, em algum livro sobre o conceito de tempo, passagem do tempo, entropia, algo assim. o menino agacha-se & ao colocar a água na boca ele pensa que ninguém jamais tocará naquela água novamente. ele agora reflete se deve cuspir a água de volta para o rio, a ver se o acaso levaria aquela mesma porção de líquido às mãos de uma outra pessoa. antes de decidir (se cospe ou não cospe), o menino escuta um barulho distante de tiro de pistola. os pássaros assustados abandonam apressadamente os galhos das árvores. & o silêncio. aquele silêncio de morte, tão comum aos domingos, sussurra o menino.

— p. r. cunha