Notas de um verão carioca (dezembro/2011)*

Tenho a certeza de que me chamarás de louco, mas te garanto, leitor, que existe uma longa linha imaginária a dividir as praias do Rio de Janeiro. De um lado, o calçadão, os bons modos, os tênis Nike, as pessoas vestidas com esmero, o asfalto, os automóveis com ar-condicionado; do outro, a areia, a devassidão, o calor, os biquínis, o futvôlei, os bumbuns, o suor, as peles bronzeadas. Vou a um restaurante de frutos marítimos a dez passos da praia, funcionário vestido de pinguim fica à porta e explica que ali não é permitida a entrada com fatos de banho, nem com calção tipo shorts. Perto do bufê há um enorme vidro panorâmico através do qual a clientela observa o baile das ondas. Ao sair do restaurante, tu bem poderias andar com um tapa-sexo de dez centímetros que gente nenhuma iria te incomodar, mas, dentro do restaurante, repito, dentro do restaurante é outra coisa. Dentro do restaurante impera a mais alta etiqueta da chamada civilização: todos usam muitas roupas, comportam-se direitinho, a mamã pede silêncio ao miúdo serelepe — é o lado recatado da linha imaginária, percebes? Depois do almoço, levo a minha espreguiçadeira e deito-me diante da brisa atlântica. Estou, naturalmente, com as pernas à mostra. Uma senhora por volta dos setenta passa perto e diz sem olhar nos meus olhos: tu tens aí umas pernas tão brancas, nunca apanhas sol? Sou de Brasília, Distrito Federal, preciso de descansar — respondo à queima-roupa.

— P. R. Cunha


*Crônica originalmente publicada na Folha de Icaraí.