Quasimodo chora

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Tive a oportunidade, ou melhor, o privilégio de conhecer a catedral de Notre-Dame em 2009, quando voltava para o Brasil do meu «exílio russo» em São Petersburgo. Lembro-me de que quando entrei no monumento um turista polonês, provavelmente a falar com a própria esposa, dissera atrás de mim: querida, isto aqui é tão fabuloso que estou quase acreditando em deus. E por mais que exista uma infinidade de livros, artigos acadêmicos, ensaios contemplativos sobre Notre-Dame, a mim me parece até hoje que esse comentário do turista polonês teve muito melhor êxito no quesito resumir bem o que é possível sentir ali dentro.

Esta segunda-feira um incêndio abominável destruiu boa parte deste que é provavelmente o maior símbolo do estilo gótico. Dizem-se que conseguiram salvar relíquias que se encontravam no interior da catedral, que a estrutura do monumento não corre mais risco de desabar. No entanto, a tragédia expôs um outro tipo de ferida, uma ameaça deveras mais complexa: a vulnerabilidade dos patrimônios arquitetônicos em França e no mundo.

Um fogo incontrolável que durou algumas horas ameaçou afundar 850 anos de História. Os contemporâneos costumam exaltar os grandes avanços tecnológicos desta era high-tech, os telemóveis, tablets, computadores, robôs, as redes sociais, o mercado integrado (sic), mas nada disso parece servir de alguma coisa quando o desafio é preservar a memória e os feitos dos antepassados.

Quem acompanhou pelas televisões o incêndio que atingiu a catedral de Notre-Dame pôde perceber a enormidade de tempo que os bombeiros levaram para chegar até ao local. Justificaram a demora a dizer que o intenso trânsito de Paris, as famosas ruelas de Paris, o planejamento urbano de Paris dificultaram o acesso.

Como se o absurdo fosse lá insondável, descobriram-se — depois que o fogo já havia devorado o pináculo da catedral (a verdadeira extensão dos danos, aliás, não foi ainda avaliada) —, descobriram-se, como estava eu a dizer, descobriram-se que o monumento não tinha sequer um sistema de segurança contra incêndios, não possuía avisadores que acionam os meios de proteção automáticos, aqueles simples jatos d’água que caem dos tetos e ajudam a impedir a combustão etc. etc.

De acordo com imagens oferecidas pelos ecrãs widescreen com mais pixels do que o olho humano consegue perceber, e com as fotografias de super-alta-definição compartilhadas pelos modernos e indestrutíveis telemóveis, Notre-Dame ardeu porque continua ilhada nas imprevisibilidades medievais.

— P. R. Cunha

Nova canção // refúgios musicais &tc.

Depois de escrever uma cena importante para o meu próximo livro, depois de anotar verdades inconvenientes, com a cabeça arejada, e aquela doce atenção — discreta — para com o mais pequeno dos pormenores: sóbrio, firme, longe de ostentações, como se diz, depois de ter aprendido como aceitar os agrados dos amigos sem perder o respeito próprio, sem parecer ingrato, com dignidade e possuidor dos melhores sentimentos, refugiei-me ao bem-afamado Estúdio da Cris, com guitarra(s) / spin cycle / cascade / crunch ping pong delay / royal rock / sitar / baterias Four on the Floor (tipo retrô) / microfone unidirecional (smooth vocal, empty church, cellar, phone filter etc.) e gravei esta canção chamada I’m not crazy but I can pretend que faz parte de um projeto a solo cujo desfecho ainda é-me um total mistério. 

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— P. R. Cunha

Anuncia-se o lançamento do livro «Quando termina», de P. R. Cunha e Paulo Paniago

Brasília, Distrito Federal

» Não é sem infinita alegria que chegamos ao conhecimento de que os autores P. R. Cunha e Paulo Paniago conseguiram, com enorme trabalho e não poucos sacrifícios de toda a espécie, finalizar um ambicioso projeto literário. Trata-se de Quando termina, livro de contos vencedor do Prêmio Cidade de Belo Horizonte 2012. Os escritores convidam para o lançamento dessa simpática obra: esta quinta-feira, a partir das 18h, ao Ernesto Cafés Especiais (115 Sul).

» Ocasião àqueles que sabem dividir com método o seu tempo, deixando algumas horas disponíveis para cuidarem também do espírito, pela leitura de escritores locais.

» Quando termina tem um desenho semelhante ao de um jogo de xadrez, ou mesmo ao mapa de uma cidade com múltiplos meandros, onde situações imprevisíveis se acumulam em toda a parte. Escrito a quatro mãos, um dos autores começa os primeiros parágrafos e passa a vez ao outro — que para, reflete, coça as têmporas, imagina o movimento adequado, toma notas, responde. Por vezes a situação escala, a ponto de se tornar difícil saber quem escreveu o quê. Tanto melhor. As diferenças desapareceram, as suturas se tornam imperceptíveis, ao passo que o leitor pode manter-se sempre atento àquilo que realmente importa numa obra de ficção: o movimento de personagens em tabuleiros que simulam um jogo ainda mais inquietante — o jogo da vida. (Assim o diz a quarta capa.)

» Apesar de avançado em anos, Quando termina ainda conta histórias com grande segurança narrativa e com toda a verve e entusiasmo de outrora. É ainda um livro bastante atual, portanto; de liberdades por vezes arrojadas.

» O livro tem a capa negra como a sombra, revestimento de primeira qualidade, mecanismo de abertura aperfeiçoado. Exterior elegante, boa legibilidade, construção sólida cuidada de forma a resistir a todos os climas. Custa 40 dinheiros.

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