O marido

O teu marido é um neurótico. Ou melhor: vamos «supor» que ele seja um neurótico. Ele se mantém confinado em casa a verificar se todas as janelas estão devidamente fechadas, se as portas estão trancadas à chave (duas voltas completas de chave), se há alguma teia de aranha a se formar nas quinas do teto. O teu marido pouco faz além dessa rotina que, convenhamos, já começa a te perturbar imenso: não brinca com a criança, não te leva aos espetáculos, não discute contigo os pormenores do teu dia-a-dia. Qualquer plano fora as janelas fechadas, portas trancadas e teias de aranha fica completamente alheio ao comportamento do teu marido. Tu começas a perceber também que ele está a ponto de se tornar psicótico, que ele mal consegue manter-se dentro daquilo a que chamamos — não sem um certo escárnio — de «realidade». Tem comportamentos estranhos, o marido. Um tipo excepcionalmente medroso, inseguro, infeliz, dir-se-ia. Então, a fim de salvaguardar a tua própria sanidade mental, tu começas a refletir com afinco sobre o buraco em que estás atolada. À tarde, antes da tua aula de yoga, o telemóvel vibra, o ecrã ilumina-se — é o Harold, do departamento de finanças da empresa para a qual tu trabalhas; ele está a convidar-te para tomar um café.

— P. R. Cunha

O café

Há um café ao qual o sr. Vargas vai todas as manhãs para tomar o pequeno-almoço. E isto assim se passa há mais de trinta anos. O sr. Vargas acorda, banha-se, veste-se, vai ao café, toma lá o pequeno-almoço. O café fica perto do apartamento do sr. Vargas, de modo que ele vai caminhando. Essas caminhadas muito agradam ao médico do sr. Vargas, que estava a ficar preocupado com o sedentarismo do velho paciente. Havia uma altura, reflete o sr. Vargas, havia uma altura em que as pessoas íam aos cafés para olhar outras pessoas a tomar o pequeno-almoço, ou a comer a torta de morango, ou apenas para fingir que liam o jornal enquanto observavam as outras pessoas convivendo às mesas — e assim por diante. Acontece que agora os cafés têm Wi-Fi. E por terem Wi-Fi acabam por receber um dos tipos mais capciosos de clientela: o escritor de café. O perfumado escritor de café com o próprio computador, os auscultadores Bluetooth, a cabeça orgulhosamente erguida, como uma girafa ao público, impossível de não se notar. Por todos os cafés há assim um disparate dessa laia, pensa o sr. Vargas. E isso bole-o com os nervos.

— P. R. Cunha

A colmeia

O pai e a mãe estão conversando na cozinha. Enquanto o pai prepara o café, a mãe lê o jornal e diz: é mesmo um sistema econômico predatório, inútil, onde já se viu?, telemóvel com ecrã dobrável, quem precisa de um troço desse? O pai fica a observar o fluxo constante do café a cair do coador: dizem que o Franklin lá da firma tem um desses — ele fecha a garrafa térmica —, qualquer dia o planeta não suporta mais esse tipo de capricho. Lá em cima o menino está dormindo. Abre os olhos. Faz uma espécie de cabana com o próprio cobertor. Espera até que alguém vá chamá-lo para se arrumar e ir à escola. O menino regozija-se com aqueles minutinhos extras de sono, os melhores minutinhos de preguiça de sempre, ele pensa. Mas ninguém aparece. O menino se dá conta de que é sábado e a soneca transgressora perde todo o sentido. Ficar deitado sem ter que fugir de compromissos não possui o mesmo sabor. O menino se levanta e vai até ao quintal. O pai e a mãe ainda estão a conversar na cozinha. A mãe está a comer as torradas com manteiga enquanto observa pela janela embaçada o filho a brincar no quintal. O menino fica parado embaixo da árvore. Ele tenta jogar pedras na colmeia. As três primeiras pedras não atingem a colmeia, a quarta, sim. Daí as abelhas assustadas voam em todas direções, inclusive na direção do menino, que começa a ficar com a pele empolada — é alérgico. Mas não há nenhuma moral realmente relevante nesta história.

— P. R. Cunha

Contra dicções

Em tempos de colégio tínhamos um treinador de futebol muito rigoroso — era o Mr. Bryan. Nunca se mostrava satisfeito. O Mr. Bryan era do Canadá, Québec. Vocês precisam de treinar mais, ele dizia. E mais. E mais. Numa altura chegamos a vencer quatro dos cinco torneios escolares disputados, e o Mr. Bryan ficou possesso porque não vencemos os cinco. Éramos para ter vencido os cinco, ele disse. Anos depois, encontrei-me com o Mr. Bryan num café arborizado. Os cabelos grisalhos, as rugas marcavam vales no rosto do canadiano. Contou-me que pouca gente o visitava em casa, pois onde ele morava havia uma quantidade absurda de mosquitos.

[…]

Imersão em trabalhos criativos, preocupar-se mais com os outros (com os estranhos, especialmente), tirar sarro da condição humana (ri-se na cara do absurdo, como se diz), escrever a respeito das próprias crises, procriar (ter filhos, adotá-los), cuidar da saúde, evitar os comportamentos obsessivos, viver melhor, viver mais, o marinheiro que ganha «uma noite ao bordel do vilarejo» antes de ser enforcado pelos outros marinheiros, viver melhor do que os pais, superar os pais, fazer parte de algum clube (group membership), ser menos intolerante com as religiões, resgatar o álbum de fotografias da família esquecido ao sótão, praticar desportes radicais/perigosos (paraquedismo, escalada em montanhas íngremes [sem o equipamento adequado]), experimentar drogas exóticas, cair ao abismo do álcool, cultivar múltiplas personalidades, negar a morte.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #41)

não sou humano. vivo dentro do p. r. cunha. somos vários, milhares. quero dizer: eu sou eu, único, mas há outros da minha espécie que se hospedam noutras cabeças literárias. alguns tentaram nos tirar do anonimato, estudaram-nos, perseguiram-nos, escreveram teses sobre os nossos modos, procuraram termos para nos rotular — «gêmeo indomável», «homônimo», «duplo», «deus», «pseudônimo», «consciência», «diabo», «doppelgänger». nobres tentativas, mas, de minha parte, digo que a nomenclatura ainda deixa um bocadinho a desejar. eu gosto de fotografias antigas, cartografias, café sem açúcar, john cage, do teatro de tadeusz kantor, história das guerras (quentes, mundiais, frias, regionais), dos contos mais obscuros da susan sontag. eu acumulo, p. r. cunha escreve. ou melhor, transcreve. & às vezes ele até recebe alguns elogios & quando isso acontece p. r. cunha aceita-os com certa vaidade. ah!, mas quando as coisas não vão lá muito bem, quando as ideias não surgem com a frequência que ele tanto gostaria, p. r. cunha — indigno!, cafajeste!, sem-vergonha! — aponta o indicador para a têmpora & culpa-me, sem pudores. onde já se viu… há também alturas em que me perco em divagações aleatórias: a vida dos artistas, dos gênios, as noites de boemia, a bebedeira, o canto de um pássaro, a perdição, o delírio, os sabores, a voz de uma mulher. até perceber que p. r. cunha está ali, à espreita. o danado está a tomar notas — vida, artistas, pássaros, boemia, bebedeira, voz, mulher, noite, sabores. no dia seguinte, leio qualquer coisa no blogue «dele», ou num esboço de capítulo do livro «dele», ou um artigo para revista com as MINHAS ideias, com os MEUS devaneios. é terrível. por isso estou aqui a colocar, como se diz, os pingos nos «is». cansei, sim, estou farto de tanta exploração. & agora, sem nada a perder, desafio o meu hospedeiro a publicar-me. vejamos se ainda lhe resta alguma migalha de dignidade.

— p. r. cunha (?)

Carta aos leitores

(PENSAMENTO INTRODUTÓRIO: se tu tomas o café enquanto escreves é bom saberes que eventualmente o café cairá na superfície da tua mesa, causando grande transtorno.)

Damas e cavalheiros,

Há momentos na vida do animal humano em que tudo parece acontecer/surgir no mesmo período, mesma época, mesmo mês, mesmo dia. Mas não falo isto com aquele já tradicional azedume do funcionário contemporâneo (vide estereótipo) que reclama do excesso de afazeres da firma, da casa, da sociedade, de tudo, sente-se claustrofóbico, inútil, desesperançoso. Consigo compreender com cada vez mais clareza que o facto de eu ter passado por, como se diz, poucas-e-boas na última década ajudou-me a consolidar a casquinha que me isola das feridas da procrastinação. Os Cure têm uma música que resume bem a coisa toda; chama-se Sleep when I’m dead. Organizo o próprio cronograma com parcimônia e procuro cumprir a próxima tarefa depois de ter terminado a atividade anterior.

Um passo de cada vez, diria um antigo.

Hoje tentarei responder aos leitores que me enviaram mensagens nas páginas deste blogue e também àqueles que preferiram a comodidade dos emails. Infelizmente, é com certo pesar que vos digo que o número de cartas de papel que recebi neste ínterim foi zero.

Eis:

Coitada da Flávia, é culpa da Flávia… mas pensemos também naquele que precisa de responder que «não há Flávias por aqui». Sobre virar o pobre do besouro amarelo e o orientar para a janela: não posso fazê-lo, pois são personagens (e besouros) de celulose. A coisa toda ganharia ares de origami. Em vida real, porém, teria virado o besouro amarelo, com certeza. Outra: falam connosco como se tivéssemos culpa. As pessoas retratadas nos textos de ficção: tudo de mentirinha, não (necessariamente) condizem com a realidade do autor. Sim, nada é para sempre. Era uma fábula em 64 trechos, na verdade. Estou a caminhar algures, inclusive pelas vias do suspense. O menino também aprecia a geleia de morango, plausível. Obrigado por gostares (sabes que estou a falar contigo). Pode parecer travessura de minha parte, mas acho que o Superman das bancas de jornais tem um bocado a ver com o Übermensch de Also sprach Zarathustra — ambos possivelmente impossíveis. Não há mais botões de curtir nas páginas do blogue. Mas parece que não consigo retirar essa funções da plataforma WordPress (página interna dos utilizadores, por exemplo). Então, tecnicamente, a estrelinha das curtidas ainda existe. Também acharia muito giro transformar os devaneios em banda desenhada. Quem sabe? Ainda sobre os likes: a vossa leitura me interessa imenso, são as estrelinhas que me parecem um bocadinho supérfluas, não acham? Respeito/cultivo/encorajo a diversidade de modos na chamada blogosfera (o que quer que isto signifique), apenas calhou de a minha natureza criar certa aversão às trocas: lê o meu textinho que daí leio o teu textinho. É capaz de funcionar para outras pessoas, a mim, pelo menos, não funciona. Também prefiro o «show, don’t tell», é bem o segredo da empreitada, aliás. Há muitas distrações, aqui, ali, acolá, distrações para todos os lados. Não saberia lhe dizer o que significa «receber notificação no email de resposta ao comentário». Eu sempre desativo todas essas mensagens automatizadas. Nadamos em mares profundos, pois não. Alguns se afogam. A tua descrição de pós-modernidade pareceu-me um bocado moderna — principalmente a parte do «ninguém se importa, nada importa». Apesar de achar que era assim também em tempos remotos, o que muda é a quantidade de meios para compartilhar certas nulidades (reverberação, eco, amplificadores sociais etc. etc.). A máquina de escrever nunca está estressada; o piloto da máquina de escrever, bom, talvez, às vezes. Pedantismo à parte, gosto de compartilhar perguntas importantes para épocas importantes. A simples dicotomia sim/não: é tudo o que se precisa dizer em determinadas alturas.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #22)

a revigorante liberdade de se escrever qualquer coisa à maquina numa manhã parcialmente nublada depois de gladiar-se com pensamentos intranquilos. cortinas abertas. ampla — a janela. café com baileys (o suficiente para ser tachado de alcoólatra pela parcela mais puritana da população) &tc.

querer-se-ia dizer: chegará a altura em que não teremos mais vocabulário (e.g. palavras adequadas que não se percam em metafísicas paradoxais) para designar as nossas eras. […] modernidade, pós-modernidade. certo, & agora? o que vem depois do pós? super-pré-modernismo — com uma escola arquitetônica cujo mentor seria uma mistura andrógina de oscar niemeyer com le corbusier? idade dos robôs, & daí a coisa toda meio que se reiniciaria («reboot», à guisa de descontração linguística). robôs que sonham com discussões filosóficas a respeito do tempo em que vivem & publicam os próprios apontamentos num sítio web com diagramação, como se diz, «clean». não é estranho? muito estranho.

— p. r. cunha