O que a ansiedade do P. R.-civil ensinou ao P. R.-escrevinhador

» Estipule metas realistas;
» Chávena de café;
» Mantenha o traseiro sobre a cadeira;
» Não espere por nenhuma inspiração metafísica;
» Chávena de café;
» Escreva sempre, mesmo quando aborrecido;
» Não comece as atividades do dia seguinte antes de terminar as atividades de hoje;
» Chávena de café;
» Tenha sempre uma boa noite de sono entre todas essas coisas.

— P. R. Cunha

Hemisfério de Magdeburgo

Um relógio de parede já estava farto de estar na parede, desistiu de funcionar e deu consigo no chão da sala. Já não tinha mais de dizer as horas a ninguém.

(…)

O silêncio como forma de opressão/tortura; fazemos uma pergunta, esperamos resposta, que nunca chega, o receptor permanece calado, mudo, como se jamais tivéssemos feito pergunta alguma — a indiferença, portanto, desassossega.

(…)

Por entre as cadeiras
de um café
certa dama está a ler —
não lhe sei o nome
mas pouco demora
para chegar-me
um perfume
— a saudade.

— P. R. Cunha


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© Gravura de Gaspar Schott

Por um sábado sem benzina no Brasil (voltar a escrever [quase] todos os dias)

Parque — ao som das gaivotas.

Podem estar à vontade, meus fidalgos. Um vosso humilde servidor com ar cortês e gentil, olhando pela janela, diz que cá neste electro-sítio há quanto se quer. Noutros termos: julgo-me feliz, senhoras & senhoras. O João Maurício Brás falara sem receio que quando um escritor se torna muito estudado — até que ponto devemos/podemos confundir vida-e-obra, ficção-e-realidade, o que-é-o-quê? — deixa com frequência de ser vivido. A análise, portanto, possui algo de esquartejamento e artificialismo. Se simplesmente escrevemos que determinado personagem encontra-se num café e leva a chávena aos lábios, poucos perguntariam se esse personagem seria ou não o próprio autor. Ato corriqueiro: ir ao café, tomar o café, etcétera. Mas daí acrescentamos que sentimentos de amor fazem com que o personagem leve a chávena aos lábios, ele está à espera de alguém, e, como se sabe, para um enamorado toda a demora é um sacrifício. N’um abrir e fechar de olhos, fantasia se transforma em biografia: ora!, quem o autor está a esperar?, que amor é esse que o aflige? Digo-vos que a viagem é de longe, e com boa fome tudo sabe bem. Mas os fidalgos muitas vezes se enganam. Acontece de a caneta-livre ser o maior tesouro que um romancista pode possuir, quando é rijo o braço e esforçado o coração. A tinta, porém, também falha. De forma que — não raro sem saber — observamos as linhas do escritor dançarem sobre o pedaço de papel a pedir perdão, se a mágoa e a vida o tornaram um bocadinho injusto. Ele não fez por mal.

— P. R. Cunha

Na dissolução do espaço e do tempo de uma partida de xadrez, também o enxadrista se desintegra

Ajeitou as peças com esmero,
e viu-se desaparecer no tabuleiro,
no jogo de xadrez,
num combate glaciar.

Há anos que arquiteto uma fuga do mundo para passar o resto dos meus dias a jogar xadrez. Uma escapada, como se costuma dizer, para apaziguar a angústia que me tolhe, etc. Jogar o jogo de xadrez, ter ao meu lado uma chávena de café — como se essas coisas fossem as derradeiras. AMBIENTE DO JOGO DE XADREZ: cabana alpina à Nietzsche, sem qualquer sinal de vida além do ronronar distante dos aquecedores e o som do nevão que cai alhures. ADVERSÁRIO DE XADREZ: semblante indiferente, como que perdido num labirinto de jogadas mentais que aos poucos se materializam ao tabuleiro; ele-ou-ela inclina a cabeça para trás, na atitude de quem concentra-se com afinco imperturbável. Adversário de xadrez (ele-ou-ela) demonstra, portanto, uma frieza assustadora; e quando me vejo perante essa criatura polar reconheço, em todos os sentidos do termo, o meu íntimo opositor (doppelgänger). Que coisa tão estranha! DURAÇÃO DO JOGO DE XADREZ: tempo indeterminado, um jogo de xadrez sem cronometragem. INÍCIO DA PARTIDA DE XADREZ SEM CRONOMETRAGEM: os enxadristas analisam-se como dois condenados que se dirigem ao cadafalso; têm no rosto aquela vã tentativa de coragem. Resignaram-se. Os enxadristas aguardam o movimento do adversário em absoluto silêncio. Escutam o tamborilar da neve no tejadilho. Os enxadristas agora jogam o xadrez — para dar cor a uma vida que já lhes feriu imenso.

— P. R. Cunha

Pergunta #19 — António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha

[A. G.] Criou para si rituais específicos à escrita, ou mesmo um bunker-esconderijo?

[P. R.] Eu escrevo numa cadernetinha cinza. A cor, em verdade, não me importa. As páginas, no entanto, precisam ser pautadas. Trata-se de uma cadernetinha barata, porque se crio qualquer vínculo daí já não escrevo nada. Olha que Moleskine incrível, com capa de couro, celulose creme, que beleza. Quem é que pode danificar uma preciosidade dessas? Tomo o café antes de me sentar à mesa, café sem nada, precisa ser amargo como um cão acometido de sarna — estranho eu gostar do café desse jeito, mas assim são as coisas. Depois, permito-me un regalo, como se diz, caso consiga preencher vinte ou trinta pautas (eis o porquê das pautas, aliás). Un regalo é basicamente: outra chávena de café. Acontece de às vezes a mesa estar uma verdadeira bagunça, e há folhas para todos os cantos com anotações sobre uma suposta tese a respeito das narrativas do senhor W. G. Sebald que dura já cinco anos, e começo a ter cá sérias dúvidas se um dia vou mesmo terminar essa tese. Imagino a cara do António quando receber essas duas-três-mil laudas sobre o Sebald, e você de certeza vai achar aquilo um disparate. P. R., nós não podemos publicar isto aqui. Eu percebo. Há uma janela que dá para os meus vizinhos, e como não sou de lidar com vizinhos nunca me distraio para a janela. Mantenho um violão por perto e dedilho o violão quando angústias. Escrever usurpa. Não é lá sempre muito bonito como imaginam. Pó de almas destroçadas. Mas não me lembro mais da pergunta.

p. r. cunha