Estranha humanidade

Fotografia em que um homem levemente curvado está a dar o que comer a um cachorro. A foto retrata a intimidade entre dono e o próprio animal canino. O pastor alemão mostra-se sentado, submisso, mas muito à vontade com aquele que lhe oferece petiscos. É uma cena, de muitas formas, tocante. Até que o observador se recorda de que o homem fotografado é ninguém menos do que Adolf Hitler e a situação se torna um bocado constrangedora. Como diria Paul Strand (e aqui parafraseio, à guisa de resumo): as anomalias quando observadas em papel fotográfico revelam uma estranha humanidade.

— P. R. Cunha


Hitler and Blondie

Canícula

Gostava hoje de falar brevemente sobre os múltiplos significados do termo «cachorro». No Brasil o cão é tido como um animal que preza pela lealdade, muito companheiro, atencioso, pouco egoísta, conciliador. Em suma: o melhor amigo do homem — como já se leu tantas vezes nas memórias de celebridades apaixonadas pelos caninos. É mister, no entanto, lembrar-vos que a inofensiva palavra «cachorro» pode também ganhar juízos pejorativos a depender do contexto em que ela se mostra inserida. Por exemplo: um casal irado está a brigar na varanda de um apartamento em Niterói-RJ; a dama não hesita em chamar o cavalheiro de cachorro; o cavalheiro, por sua vez, não se intimida e chama a dama de cadela. Sabe-se que os alemães têm uma forma de xingamento análoga: linker Hund, ou o cão sinistro. Totem, a representação animalesca das frustrações humanas, «a suposta sujeira, heresia do cachorro» [Wolfram Eilenberger]. No entanto, num triste entardecer invernal, quando a solidão aperta, lá está o cão que abana o rabo para o dono, volta a ser o maior companheiro de sempre.

— P. R. Cunha