Hotel Brasília

A impressão é a de que cheguei ao fim do mundo. Está tarde, mas posso ainda escutar os barulhos do centro, os autocarros a sair da rodoviária, a motocicleta rangendo, os gritos de amor no quarto ao lado, o choro de uma mulher idosa, marteladas na parede (o que estariam a pregar?), a televisão, o noticiário, um abajur ligado que não ilumina a leitura de ninguém. No restaurante do primeiro piso, vi um garçom aflito porque as mesas mostravam-se impecáveis, as toalhas brancas, os pratos alinhados, os talheres reluzentes, mas algumas taças de vinho, que supostamente deveriam brilhar de tão cristalinas, estavam borradas de batom — alguém lhe dissera às costas: tranquiliza-te, Francisco, ninguém desce para comer a uma hora destas.

— P. R. Cunha

Encontro com a sombra

Para a LPD

A duras penas Samara e Bianca abriram caminho entre as dezenas de funcionários barulhentos que estavam parados à porta do escritório do sr. Toledo. Antes de entrar, elas se viraram rapidamente para aqueles rostos angustiados que aguardavam resposta.

O escritório mostrava-se escuro. A pouca luz do crepúsculo que conseguia ultrapassar as brechas das cortinas de quatro janelas altas iluminava morosamente o piso de granito que em melhores tempos fora motivo de orgulho para aquela multinacional em ruínas. Samara fechou a porta atrás de si e as vozes desconexas foram de súbito abafadas pelo sistema de vedação. Ela respirou fundo e disse friamente: «Certo, Toledo, qual foi a decisão que você tomou?»

O sr. Toledo estava sentado numa dessas cadeiras giratórias que costumamos encontrar na sala dos presidentes de grandes empresas. Mantinha a cabeça baixa como uma criança que aprontara alguma; olhos pequenos, úmidos e retorcidos debaixo das peludas sobrancelhas. Mexia constantemente nos cabelos grisalhos, parecia querer aquecer a caixa craniana para que a substância esponjosa ali dentro funcionasse de uma vez por todas.

Bianca aproximou-se do sr. Toledo: «Você precisa tomar uma decisão, papai…»

Ouviram duas batidas na porta.

— P. R. Cunha

Quatro (muito breves) «poemas» sobre construções & destruições anteriores — desmontagens entre maio de dois-mil-e-quinze & fevereiro de dois-mil-e-dezoito

—1.
lembrança
esta maldita
machuca imenso

—2.
o brasileiro
passa o inverno
ao coqueiro

—3.
dever-se à escrita
literatura
desnecessária

—4.
nasci em Brasília
contei mentiras e disparates
morri em Brasília

— P. R. Cunha