Sábado noturno

Alonso Rivera ergueu o dedo em riste para o barista, que de má vontade levantara-se da cadeira de onde assistia à final do torneio futebolístico. Quase sem tirar os olhos da televisão, o barista encheu o copo de Alonso Rivera e da rapariga que estava ao lado dele. Depois fechou a garrafa de uísque, afundou-se novamente na cadeira. A rapariga era no mínimo uns vinte anos mais nova do que Alonso Rivera, facto que não passara despercebido para os outros sentados à bancada, que vez ou outra cochichavam entre si qualquer coisa maliciosa a respeito. Os dois — Alonso Rivera e rapariga — pareciam não se incomodar. Bebiam o uísque, conversavam sobre jazz, literatura latino-americana, ele tocava suavemente nas costas das mãos dela, ela sorria, ele contava mentiras, ela ajeitava os cabelos e fingia que acreditava. Só aquela noite, pensou Alonso Rivera enquanto levava o último gole do líquido escuro à boca, só mais uma noite. E cada um finalmente partiria para o seu lado, sem se tornar a ver.

— P. R. Cunha

Passeios habituais por entre as montanhas

Os dois já estavam a caminhar há mais de três horas. Um dia bastante soalheiro castigava-os sem piedade. Carregavam pesadas mochilas às costas e utilizavam bastões para se equilibrarem entre as incontáveis pedras multicolores que encontravam pela trilha. Kozinski levara o cantil até à boca. Enquanto enxugava os lábios com a manga da camisa disse ao amigo: tu sabes melhor do que ninguém que sou dado a fazer estas longas caminhadas, David, que é da minha natureza sumir… mas quando vou muito algures as pessoas me chamam de louco. Sem diminuir o passo, Kozinski guardou o cantil dentro da mochila e continuou: vê lá, o que é natural e agradável para alguns sendo para outros algo de imoderado, de loucura mesmo. Prosseguiram em silêncio sob um céu sem nuvens. David então parou subitamente, como se se sentisse ameaçado. Notou que havia alguma coisa estranha no horizonte, perto das montanhas. Pegou o binóculo para perceber melhor e estupefato, suando em bica, passou-o para Kozinski: olha isto! Kozinski ajeitou o binóculo perto do nariz e não conseguia acreditar no que estava a ver, aquilo era simplesmente impossível.

— P. R. Cunha

Período sabático / primeiras impressões sobre o vindouro passeio chileno

O ritual matutino de sempre: acordar às 7h20, tomar o duche gelado, descer para preparar o pão com manteiga, o suco, a chávena de café, ir ao próprio gabinete, dedicar-se às primeiras leituras, aguardar as faíscas, uma frase, uma palavra, a vírgula — escrever, sentir-se poderoso, firme, dizer-se: «Não queria estar em nenhum outro sítio»; sentir-se em casa, absolutamente em casa.

As viagens, assim como a própria fisionomia, modificam-se [aparência/significado/propósito/etc.] no decorrer do tempo: o tal riacho que depois de passar sob a ponte jamais voltará a ser como antes. Entropia (é cedo demais para se falar disto).

Não se trata de uma reflexão sobre a irreversibilidade do tempo, mas sim a respeito do abandonar rituais matutinos de sempre. Ir-se alhures.

A imagem (R. Barthes): o lançamento de foguetes: procedimento feito com abandonos controlados [é tema para todo um livro!] — começa-se com um grande foguete cheio de compartimentos para combustível; à medida que foguete consegue se livrar das garras gravitacionais do planeta, inicia-se o processo de desacoplamento. O aparato gigantesco transformara-se numa cápsula espacial a conter apenas o necessário.

Meter-se em viagem é deixar quase tudo atrás de si, levar na bagagem apenas o imprescindível.

Nos últimos dois ou três anos, a cada partida, a cada nova jornada, pensa-se sobre o período em que vivera na Rússia, naquela época (24 anos de idade) em que a plena juventude permitia os sonhos mais disparatados, mais inatingíveis. Porque, como se sabe, o jovem longe da pátria-mãe é o vencedor — nada lhe parece impossível.

No entretanto:

Viagens atuais (faltam três semanas para o embarque [Chile]): realistas, objetivas, idealizações controladas. Não se sai mais em busca de algo, ou de alguém. Viaja-se atrás de si, movido pelo paradoxal desejo de se perder para, ao dobrar de uma esquina estrangeira, encontrar-se novamente. 

— P. R. Cunha

Há algo de errado, mas não se sabe ao certo o quê

Ele está a lavar a louça. Ela passa, espreguiça-se e diz: bons-dias, Frank. Sem desviar os olhos do conjunto esponja-prato-talheres-detergente, Frank acena com a cabeça. Ela abre a geladeira e pega do fundo um copo de requeijão light. Frank distrai-se, alguma coisa cai na pia e faz aquele barulho metálico de coisas que caem na pia — talvez um garfo, ou uma colher. Ela fecha a geladeira com imensa força e diz com voz infantil: ora, Frank, que tal se tomássemos cuidado com a louça? Os lábios de Frank tremem, mas hoje ele não irá dizer nada.

— P. R. Cunha