Mãe do ilustrador

O ilustrador permitia-se apenas desenhar e comentava mesmo com toda a gente que desenhava o dia inteiro. Isso porque a mãe dele, uma mulher rica, pagava-lhe por assim dizer uma mesada muito generosa. Como não precisava de trabalhar algures, o ilustrador só ilustrava e jamais se incomodou com o fato de ninguém comprar as ilustrações que produzia. Permitiu-se, portanto, ser um artista independente. Mas, como se sabe, as pessoas morrem. E quando a mãe do ilustrador caíra de um penhasco de duzentos metros — conforme o relato de testemunhas —, o ilustrador descobrira sem demora que ela havia deixado toda a herança para um jovem rapaz que conhecera aquando de uma viagem que fizera para Dublin, no outono de dois mil e quinze. Sem a mesada generosa da mãe, o ilustrador viu-se na obrigação de procurar emprego. E desde então não toca mais nas canetas e nos pincéis.

— P. R. Cunha

Tinha uma abordagem utilitária ao vestuário

A minha tia-avó, que até onde sei não teria motivo nenhum para mentir, contou-me sobre um determinado jardineiro que trabalhou na casa dela durante mais de quinze anos, e que sempre se mostrara muito afável, delicado com as plantinhas, ela disse, jardineiro correto, leal, honesto. Mais de quinze anos, nenhum problema, nenhuma reclamação, bom jardineiro. Até o dia em que ele pedira licença à minha tia-avó, e minha tia-avó com a benevolência que lhe é de praxe pedira ao jardineiro que entrasse, ou melhor, que ficasse mesmo à vontade, mais de quinze anos, dissera a minha tia-avó ao jardineiro, mais de quinze anos. O jardineiro entrou, tirou calmamente o chapéu, poisou o chapéu na mesa. Minha tia-avó ficou a observá-lo, a esperar que o jardineiro dissesse o que queria dizer. Em silêncio absoluto, o jardineiro sacou do bolso uma pistola Winchester Magnum Rimfire, primeiro apontou para a minha tia-avó, depois apontou para si e finalmente apertara o gatilho. Mais de quinze anos, ela repetiu consigo mesma, mais de quinze anos.

— P. R. Cunha

E observa como é que as pessoas reagem a isso

Diz-se que numa tarde muito chuvosa um escritor de Brasília, que vivera muitos anos em Brasília, mas que, é preciso que se esclareça tudo aos mínimos detalhes, nascera em Niterói, de forma que talvez fosse melhor escrever escritor de Niterói que vive há muito em Brasília, ao invés de escritor de Brasília, que vivera muitos anos em Brasília mas que nascera em Niterói, esta introdução por certo grande demais, e que pode aborrecer e leitores — porque palavras desnecessárias — e as gentes da editora — porque gasto desnecessário de tinta tipográfica. Então diz-se que numa tarde muito chuvosa esse escritor niteroiense que foi viver para a capital federal, esse escritor muito distraído consigo mesmo escorregara e batera a cabeça num hidrante que, segundo o Correio Braziliense, era de cor amarela. E que após esse acidente que quase lhe tirou a vida, por muito pouco mesmo não o matara, o escritor que antes só escrevia no bom e velho português passara a criar as próprias narrativas no idioma russo — língua materna do bisavô, mas à qual nunca havia se dedicado. Tudo fica ainda mais estranho quando se descobre que esse escritor de Niterói e que se considera um pouco brasiliense porque vive em Brasília há trinta e dois anos, muitas vezes, inclusive, a se sentir mais brasiliense do que niteroiense, mas não estou aqui para ladainhas, tudo fica mais estranho quando se descobre que ele nunca fora publicado pelas casas editoras brasileiras quando lá escrevia em português. Porém, assim que terminou o primeiro livro em cirílico, resolveu enviá-lo para três editoras russas (duas em São Petersburgo e uma em Moscou). As três demonstraram interesse em publicá-lo. Tudo isto é muito curioso.

— P. R. Cunha

Além da escrita #3

PR – Kelton Gomes (Superquadra 202 Norte)
— Kelton Gomes, Superquadra 202 N / Fotografia: P. R. Cunha

[…] Insisto — escrever é um trabalho solitário, mas o escritor não precisa ser de todo sozinho. Escritor que se isola para a torre de marfim, parte indissociável da lenda; porque romântico. Montaigne o fez, de fato, fugiu das gentes do castelo e anotara para si os ensaios, longe. Mas depois percebeu que não aguentaria escrever somente para as paredes de pedra lascada e publicara os próprios pensamentos em edições caprichadas (pelo menos se levarmos em conta o conceito de caprichado para os convivas do século dezesseis). Sai do bunker, ou levanta submarino de vez em quando, e tudo se torna fonte de inspiração. Quando se tem a sorte de lidar com amigos talentosos, tanto melhor. A música do Kelton Gomes, por exemplo, sempre me foi crucial. Thomas Bernhard dizia que o escritor deve alimentar-se de todas as formas de arte. Se por um acaso a escrita lhe cansava, refugiava-se na ópera, na música clássica, no violino, nas pinturas. E o Kelton é bem isso. Um refúgio. Artista que ainda tem o cuidado de pensar na narrativa musical, e muitos já não se importam mais com esses detalhes. Quer dizer, a ordem das músicas para o Kelton é imprescindível. Trata-se de um álbum, ele diz, e se uma determinada canção destoa das demais, preciso colocá-la de lado, é outra coisa. Isto, repito, numa época em que o shuffle e os dez mil temas armazenados no aparelho do ouvinte é meio que regra. Por vezes essas afinidades se transformam em parceria. O Kelton pediu para utilizar uma foto que tirei em Frankfurt para ser capa do disco Distraído concentrado. Ou mesmo quando a escrita me aborrece. Tiro da mochila a câmera fotográfica, o Kelton está ao estúdio produzindo belezas e me coloco a retratá-lo. Depois, no conforto do lar, como se diz, edito tudo numa sessão «metakelton» — Kelton fotografado, Kelton nos fones de ouvido.

— P. R. Cunha

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A turma — uma peça breve

Personagens

ARQUITETO
ESCRITOR
FUNCIONÁRIO PÚBLICO

Representa-se em Brasília no princípio de dois mil e dezoito

No salão de festa de um qualquer bloco de uma qualquer quadra na Asa Sul: ambiente pequeno, bagunçado, uma porta, duas janelas (à direita e à esquerda do espectador), parede branca ao fundo. Perto da cozinha, mesa redonda com cinco cadeiras — garrafas de vinho, cerveja, vodca e uísque espalhadas sobre a mesa. Clima de fim de festa, luz baixa. Televisão ligada, mas sem áudio. Passa das nove da noite.

FUNCIONÁRIO PÚBLICO, ARQUITETO, ESCRITOR

Funcionário Público — trinta e oito anos, acima do peso, cabelo encaracolado, têmporas grisalhas, barba por fazer, está sentado à direita da mesa, bebe cerveja. Arquiteto — vestido de forma impecável, cabelo engomado, óculos com armações arredondadas, sentado ao centro, segura um copo de uísque e pretende acender um cachimbo em breve. Escritor — magro, em mangas de camisa, calça cáqui, está a brincar com uma caneta enquanto observa os outros dois amigos conversando.

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
É que todo ano
é a mesma

ARQUITETO
Construa essas frases
direito porque ninguém
lhe entende

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Quero dizer que todo ano
é a mesma coisa
esses encontros de turma
e toda a gente quer saber
o que cada um lá fez
não fez
encontro estúpido

ARQUITETO
E por que vai a todos

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Porque li Marquês de Sade
em criancinha
o que acha
porque faço qualquer coisa
para me ver livre
de casa
da Vera

(Arquiteto acende o cachimbo, inspira a fumaça do cachimbo)

ARQUITETO
E Vera
Verinha
como vai

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Então a verdade é que
só temos dez doze se muito
quinze anos durante os quais
podemos dizer que fomos
protagonistas
de alguma coisa
ou durante os quais
nós nos permitimos sonhar
em ser protagonistas de
alguma coisa
os anos vinte
basicamente
depois
passamos dos vinte
é ladeira abaixo

ARQUITETO
Eu quero saber
é da Verinha

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Ter lá os complexos de grandeza
e poucos dão conta de ser alguma
coisa mesmo
no fim de contas
passamos e não somos nada
é isto

(Escritor joga a caneta sobre a mesa, toma um gole de vodca com Fanta)

ESCRITOR
Arquiteto perguntou
da Verinha

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Ah mas não pensem
vocês que eu cá não tive
os meus complexos de
grandeza
porque eu os tive
e muito

ESCRITOR
Verinha

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Eu teria sido
um grande músico
vocês sabem
crooner e violão
voz boa
boa mesmo
lírica
música de primeira
voz boa e violão bom
sim
tudo de primeiríssima

(Arquiteto fuma o cachimbo, Escritor fica a observar Funcionário Público)

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Mas daí vocês sabem
quando vemos
quando paramos
para pensar
temos os miúdos
e a esposa
(Arquiteto faz que vai interromper, não interrompe)
a esposa trabalha uma
barbaridade
e eu tenho mesmo as minhas
obrigações como provedor de família
sim provedor de família
colocar o pão na mesa

ARQUITETO
Arcaico

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Por que diz isso

ARQUITETO
Arcaico pedante
ingrato

ESCRITOR
Verinha

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Mas esses encontros
nunca me fizeram bem
nunca
o Médico a dizer que construiu
um império
hospital
magnífico
a Advogada a dizer que
resolveu não sei quantos casos
que ganha um salário incrível
magnífico
cliente estilo
Banco do Brasil
tem lá um gerente
só para si

ARQUITETO
Rancoroso

(Arquiteto olha para Escritor)

ESCRITOR
Sim
rancoroso

(Funcionário Público enfurece-se, olha para Escritor)

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Arquiteto tem empresas
logrou êxito sem dúvida
vai à Alemanha
na próxima semana
congresso de arquitetura
Frankfurt
estou certo

ARQUITETO
Certíssimo

(Funcionário Público continua a olhar para Escritor)

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Mas você
mas você
o que faz
fica ali a escrever os livrinhos
ou melhor
a punhetar os livrinhos
masturbação verborragia
a dizer
céus! sou grande
sou o maior
e que as pessoas se lembrem
de mim quando eu estiver
já há muito embaixo da
terra
sempre foi assim

ARQUITETO
Sempre
impressionante
desde a oitava série

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
E tem lá coragem
de me chamar de rancoroso
a desfaçatez

ARQUITETO
Nem livro publicado tem
o coitadinho

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Complexo de
grandeza
triste
você é
um homem triste

(Escritor, num só gole, entorna outro copo de vodca com Fanta)

ESCRITOR
Pratico minhas caminhadas
ando na minha bicicleta
depois leio
passo a manhã inteira a ler
os clássicos
só os livros publicados antes
de dois mil e um
até Sebald
minha literatura termina em
Sebald

ARQUITETO
Sebald
gosto dele
mas o que você escreve
Escritor
digo
atualmente

ESCRITOR
Uma grande obra
(Funcionário Público solta uma gargalhada)
sim grande obra

(Arquiteto olha para o relógio com pulseira de ouro)

ARQUITETO
A mim também
sempre me enojaram
esses encontros
nossa turma
(puxa o fumo do cachimbo, dá uma baforada no Escritor)

FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Sim um fracasso
verdadeiro fracasso
voz e violão e
fracasso

ESCRITOR
Como vai
a Verinha

(cai o pano)

— P. R. Cunha

Seu destino também seria o de tombar cedo no combate

Hemingway dizia que fazer literatura era fácil: bastava estar à maquina de escrever e sangrar. A ironia do autor de Adeus às armas — que dera adeus ao mundo com um tiro de fuzil na própria cabeça — incrementa-se com o fato de ele sempre ter trabalhado em pé, postura que, como se sabe, proporciona melhor circulação sanguínea. Literatura autodestrutiva, a do Hemingway. E não raro observa-se nos chamados novos escritores um terrível asco por essas gentes de outros tempos que entregavam-se à boemia, ao sofrimento, às batalhas, ao suicídio. Porque hoje se escreve à base de vitaminas e minerais, água potável no cantil. Há mesmo diversos sítios web que contam lá como/quando/onde deve comer o literato contemporâneo — vestido com o pulôver costurado pela bisavô (que já vive cá um bocado de tempo). Joseph Conrad escreve sobre o livro O emblema vermelho da coragem, do amigo Stephen Crane, edição Penguin: obra espontânea que parece jorrar e fluir como uma nascente das profundezas da alma do autor. Jorrar, fluir, emblema vermelho — eufemismos de sangue. E este grande período de pseudo-paz pelo qual a humanidade está a passar desde o colapso da União Soviética, período obscuro, de indiferenças. Literatura que por vezes se torna o reflexo do status quo; escritores alheados que vestem as máscaras jubilosas e preferem esquecer que o animal humano sobrevive num esforço nascido de dor e morte. Que a arte, e aqui cito o Crane: é filha do padecimento.

— P. R. Cunha

O amante (esboço de cena)

Sala de estar dos Medeiros. Ela — sentadano sofá aler revista de arquitetura. Ele — a preparar uísquepara um trago vespertino.

SRA. MEDEIROS
Belas casas, jardins, pomares, terraços,
automóveis importados na garagem,
gabinetes com muitos livros,
como lê, essa gente, céus!

SR. MEDEIROS
Ele há de ser reputado
como um gracioso
lorde, ou mecenas,
homem afortunado.

SRA. MEDEIROS
Do que fala?
Toma um trago e
perde lá as estribeiras.

SR. MEDEIROS
Do amante.

SRA. MEDEIROS
Amante?

SR. MEDEIROS
Do seu, é claro.
Virtuoso, honesto.
Veleja?

SRA. MEDEIROS
Enlouqueceu?

SR. MEDEIROS
Fica a ler arquitetura,
mas, a sério, pensa nele,
não pensa?

SRA. MEDEIROS
Em quem?

SR. MEDEIROS
Não se faça de tola,
pode ser?

SRA. MEDEIROS
Não tenho amante
nenhum.

SR. MEDEIROS
Dupla negação.

SRA. MEDEIROS
Como é?

SR. MEDEIROS
Não, nenhum
dupla negação.
Então que há alguém
é que há.
(entorna o copo num só gole,
levanta-se para preparar
outro
)

SRA. MEDEIROS
Bem que a
minha mãe falou.

SR. MEDEIROS
E o que falara,
a mãezinha?

SRA. MEDEIROS
Não se meta
com os escritores,
loucos, todos,
doidos.

SR. MEDEIROS
Bem, vejamos.
Eu cá
(coloca cubos de
gelo no copo
)
Eu cá tenho inclinações
a vilanias, certo
endoidei.
Fico a beber. Fico a escrever.
Depois bebo outra vez.
Escrevo outra vez.
E o amante?
Veleja?

SRA. MEDEIROS
Sim, veleja.

— P. R. Cunha