Buraco negro (ou: toda a humanidade vive já há imenso tempo no exílio)

Palco — uma porta à esquerda, fechada. Ao centro, tapete com motivos florais. Pouco mais à direita, sofá, poltrona, luminária de piso, estante abarrotada de livros. Personagens: Pai Psiquiatra está sentado no sofá a ler o vespertino, Mãe Psiquiatra está a bater na porta fechada e ninguém responde.

MÃE PSIQUIATRA
Não abre
estou a bater
e ela não abre

PAI PSIQUIATRA
Deixa a menina
se não quer abrir
que não abra

MÃE PSIQUIATRA
(Afasta-se da porta, fita o marido e cita Schubert)
«Ich bin zu
Ende mit allen
Träumen»

PAI PSIQUIATRA
(Sem baixar o vespertino)
Para os diabos
com o seu alemão
mulher
não me venha
com essa

MÃE PSIQUIATRA
Schubert
Cheguei ao fim
de todos os sonhos
É Schubert

PAI PSIQUIATRA
Gavetas

MÃE PSIQUIATRA
O que têm

PAI PSIQUIATRA
Deitamos tudo
para as gavetas
daí quando abrimos
as gavetas
tudo bagunçado

MÃE PSIQUIATRA
Estou a ver

PAI PSIQUIATRA
Como não queremos
lidar com a nossa bagunça
deitamos tudo às gavetas
sempre foi assim
esconder-se
do mundo inteiro

MÃE PSIQUIATRA
E os mortos
(Aponta para o chão)
como não queremos
lidar com os mortos
deitamo-los
embaixo da terra
ou viram pó

PAI PSIQUIATRA
Estou a ver

MÃE PSIQUIATRA
(Aproxima-se da porta, bate, ninguém responde)
Não abre
a menina não
abre

PAI PSIQUIATRA
(Levanta-se, fica parado, esquece-se por que levantara-se, cai esgotado no sofá)
Às vezes eu também
jogo tudo para as gavetas
gavetas enormes
sim
não sou mais do que isso
enchedor de gavetas
e também não peço
mais nada

MÃE PSIQUIATRA
(Indignada, bate na porta novamente, ninguém responde)
Absurdo

PAI PSIQUIATRA
(Coloca o vespertino no braço do sofá, tira os óculos, limpa-os com uma flanela que estava no bolso da calça)
A verdade é que
quando se quer sobreviver
quando tudo o que se
consegue pensar é
única e exclusivamente
sobreviver
(Alto)
a verdade é que nessas ocasiões
os livros não nos servem
bulhufas
para absolutamente
nada
(Mais baixo)
De fato toda a gente
que lê
que ama os livros
tenta lá dizer que eles servem
mas eles não servem
o instinto de sobrevivência
não leva em conta
a estupidez
da intelectualidade

MÃE PSIQUIATRA
(Vai até à estante de livros, tira um)
Mais tarde ou mais cedo
todos passam por algo
desse gênero

PAI PSIQUIATRA
Ainda encontramos gentes que
gostam de ler
que compram livros
e assim acham que estão
preparando-se para a vida
quando em boa verdade
as palavras nunca
nos salvaram
de morte nenhuma
(Pega o vespertino, levanta-se, vai bater na porta, ninguém responde)
Absurdo
não abre

MÃE PSIQUIATRA
Pois
eu lhe disse
não abre

PAI PSIQUIATRA
(Aponta o vespertino para a esposa)
Bem sabemos
de quem é a culpa

MÃE PSIQUIATRA
A floresta é grande
a escuridão também

PAI PSIQUIATRA
(Aproxima-se da esposa)
Estou-me nas tintas
para as suas florestas

MÃE PSIQUIATRA
(Bate na porta, ninguém abre)
Não vamos nos
separar querido
além disso
a papelada me aborrece
está a ouvir

PAI PSIQUIATRA
(Leva a mão em formato de pistola à têmpora direita, finge-se que deu um tiro)
Nitidamente

MÃE PSIQUIATRA
(Joga-se no sofá)
Só muito raramente
permitir-me o luxo
de reconhecer o grande
fracasso de tudo isto

PAI PSIQUIATRA
(Bate outra vez na porta, ninguém responde)
Não abre

MÃE PSIQUIATRA
Uma mulher que vive a
personificar o papel
de boa profissional
de boa esposa
e boa mãe
exposta a
evidentes riscos
psicológicos

PAI PSIQUIATRA
(Afasta-se da porta, pega um livro na estante)
Dizem que Balzac
antes de morrer
só conseguia perguntar
sobre as suas personagens
Indagava tal louco
Como está Vautrin
e Eugène de Rastignac
Barbet
os Baudoyer
Pensou naqueles que tinha criado
percebe
não pensou nos vivos
em esposa
filha
nada
largou da realidade
o Balzac
sim
recusara a realidade
Mesmo antes de morrer
(Aproxima-se da porta, bate duas vezes, ninguém responde)
Mesmo antes de morrer
mantera-se fiel
às personagens que
criara
Balzac
O escritor não é dono
do livro
o livro é que é dono
do escritor
Sim
Balzac

(Mãe Psiquiatra leva as mãos à cabeça, dir-se-ia que estava a ficar louca)

MÃE PSIQUIATRA
Estou a ficar louca
muitas vezes pergunto-me
se estou a enlouquecer

PAI PSIQUIATRA
Acalme-se lá
mulher
não me tenha um piripaque
pois não

MÃE PSIQUIATRA
A papelada me aborrece

PAI PSIQUIATRA
Volte a si
que carnaval
desnecessário

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, vai até à porta, bate, ninguém abre)
Não abre

PAI PSIQUIATRA
(Joga-se novamente no sofá)
Já estou a crer
que a criança não
abre a porta

MÃE PSIQUIATRA
(Joga-se na poltrona)
O que me acontecerá
a mim

PAI PSIQUIATRA
Escute
eu podia mentir-lhe
não é verdade?
dizer que tudo ajeita-se
no próprio tempo
não é verdade?
mas digo-lhe
que não sei
o que acontecerá a si
não sei

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, como se de súbito tivesse lhe ocorrido uma ideia)
E se tentássemos abrir
a porta

PAI PSIQUIATRA
Como assim

MÃE PSIQUIATRA
A maçaneta
abrir a maçaneta
simplesmente girá-la

PAI PSIQUIATRA
Girar a maçaneta
interessante

(Ambos se aproximam da porta; Pai Psiquiatra encosta a orelha na porta para tentar escutar alguma coisa)

MÃE PSIQUIATRA
(Envergonhada)
Não não não
isso não seria justo
é a privacidade da
menina
Não podemos

(Ambos se jogam no sofá, exaustos)

PAI PSIQUIATRA
Vidas amorosas
mexericos
filosofias
a menina só tem
catorze anos
meu deus

MÃE PSIQUIATRA
Nós adorávamos fazer
perguntas
querido
Possuíamos
aquela persistente
curiosidade
lembra-se

PAI PSIQUIATRA
Não faço ideia
do que está a falar
mulher

MÃE PSIQUIATRA
Ler até as pestanas
tinirem de cansaço
Umas poucas frases ditas
em devido tempo

PAI PSIQUIATRA
O mundo é uma
redução gradual da
luz

MÃE PSIQUIATRA
É disso que estou a falar

PAI PSIQUIATRA
(Aponta com o livro para a porta)
Perene sensação de espera
a menina não abre
e tensão por algo
maravilhoso ou terrível
que deve acontecer

MÃE PSIQUIATRA
Podemos sempre tentar
a maçaneta

PAI PSIQUIATRA
Não seria justo com a criança
privacidade
percebe
privacidade
A criança precisa
de privacidade

MÃE PSIQUIATRA
(Aponta para a porta)
Caladinha

PAI PSIQUIATRA
(Acende um Marlboro)
Tinham lá grandes
expectativas
e muitos investiram em mim
e veja bem no que me tornei
nada daquilo que imaginaram

MÃE PSIQUIATRA
(Levanta-se, fica parada à porta, indecisa)
Um papai tirano
Sol enorme que consome-se
mais rapidamente
É lá um buraco negro

(Encosta na maçaneta, tenta girá-la, a porta não abre)

«FINIS»

— P. R. Cunha

Jovens e velhos

Um jovem escritor brasileiro que, conforme diziam os nossos maiores críticos literários, tinha lá um futuro brilhante pela frente decidira interromper a fazenda do próprio romance depois de descobrir que a literatura nada mais é do que uma enciclopédia de citações, e que os escritores contemporâneos estão sempre a folhear essa enorme enciclopédia com verbetes de autores mortos em busca de temas sobre os quais escrever, tomando muito cuidado, naturalmente, para alterar uma ou outra palavra e assim não serem desmascarados. Como quisesse encontrar a fonte primordial de toda essa enorme enciclopédia, isto é, o primeiro registro de literatura da história, o jovem escritor brasileiro abandonara tudo para dedicar-se única e exclusivamente a essa pesquisa que, qualquer um podia perceber, não tinha cabimento, pesquisa absurda, portanto. Depois de alguns meses, ao finalmente se dar conta da infinidade de trabalho que teria diante de si, o jovem escritor brasileiro jogou-se do sétimo andar de um apartamento no Leblon, bairro carioca cujos moradores, soube eu mais tarde, já estão cansados de ver literatos — jovens e velhos — a cair dos edifícios.

— P. R. Cunha

Tudo acaba

Um assim chamado amigo de juventude, e que sempre foi um grande admirador de jazz, muito provavelmente o maior colecionador de discos de jazz de Brasília, tendo inclusive participado de diversas palestras sobre Charlie Parker, Cannonball Adderley, Billie Holiday, Sarah Vaughan, Etta James, Duke Ellington, Chet Baker, Stan Getz, Buddy Rich, etc., esse amigo de juventude, portanto, decidira conhecer pessoalmente aquele que é considerado o maior baterista de jazz do Brasil, um baterista sem dúvida muito talentoso. Comentei com esse amigo de juventude que ele estava prestes a cometer um grande equívoco, que não deveria ir lá conhecer o baterista, que deixasse o baterista tocar a bateria, e que ele apenas se contentasse em ouvir o baterista tocar a bateria, que isso já seria o bastante. De longe você gosta do baterista, admira o baterista, eu disse a esse meu amigo de juventude, mas de perto você não gosta do baterista, evidentemente, porque quanto mais nos aproximamos daqueles que admiramos, mais os odiamos, é tudo afinal simples como isso. A verdade é que ninguém muda, e meu amigo de juventude, a despeito de minhas recomendações, foi lá ter com o maior baterista de jazz do Brasil, ou seja, não seguiu os meus conselhos, e naturalmente se decepcionara imenso. Disse-me que tão logo apertara a mão do baterista percebera que estava tudo acabado, e se dera conta de que, daí em diante, nunca mais conseguiria ouvir os tambores desse baterista, o maior do Brasil, como já salientei diversas vezes.

— P. R. Cunha

Danças macabras

Menino medieval sai para brincar e, ainda à porta da pequena morada campestre, depara-se com um cadáver. É o corpo em decomposição do tio, que viera de longe para consolar a irmã — mãe do menino — cujo marido não resistira à pestilência. A morte para essa pobre gente como um fantasma ineliminável; ou a convidada indesejada com foice em mãos, pronta para agir. Hélinand de Froidmont, cronista do século doze que escrevia com aquela perturbadora urgência de quem se sabe muito breve, passageiro, reflexo de uma época verdadeiramente brutal em que a vida podia escapar-se num átimo. «A morte tudo desfaz em uma hora», comenta ele nos seus versos saturninos; a morte, uma megera à espreita. De que valem as honras? Rico príncipe que, como se diz, de um dia para o outro simplesmente espatifara-se no chão do castelo, não mais respira, é agora apenas um corpo inanimado que todavia já se mostrara bem composto e viril. Que foi de suas riquezas e primores? Corpo mudando de cor, diz Sebastiano Paoli em Sermões quaresmais, corpo pardacento, corpo morto, dá náusea, dá medo. O consorte que pavoneava-se às dependências ostentosas de um castelo imponente e que agora espirra fora uma morosa lava de imundice, «o lábio pútrido e corrompido», acrescenta Paoli, «a barriga como um saco de vísceras laceradas». De que vale, portanto, a beleza diante da iminência e a inevitabilidade dessa ceifa? «Onde estão as lindas mulheres, as esplêndidas cidades dos velhos tempos?» Sabe-se também que, durante os antigos cortejos romanos, os condottieri vitoriosos costumavam repetir vezes sem conta: recorda-te de que és apenas um homem. Hoje estamos a enterrar um outro alguém, amanhã pode ser em cima de si que jogam este barro alaranjado. Notável discernimento. E difícil não comparar essa meditatio mortis de outrora com as reações inexpressivas de uma modernidade que procura de todas as formas esquecer-se de que um dia será ela a defunta a ser velada. Está-se bem a perceber o rápido declínio da chamada figura do intelectual — principalmente dos filósofos, tipos ascetas que não se cansam de cutucar as feridas hipócritas da humanidade. Naturalmente, se o objetivo é distrair-se da morte, aqueles que a problematizarem por de mais serão ignorados. E assim como ocorrera durante as ditaduras do século vinte, os escritores de ficção contemporâneos, dotados de perífrases e outras ferramentas metafóricas, podem ser lá o último muro que nos separa do abismo do alheamento total. «Pela escrita mostro, a mim própria, coisas que já sabia mas não as enfrentava», refletiu a escritora Leonor Brito. Pois a literatura, como se sabe, é um animal que leva muito tempo a morrer, e que passados tantos anos continua a morrer, sem deixar de enfrentar. Contudo, quando também a musa derradeira for lá enterrada, talvez alguém ainda se lembre das palavras do senhor Hugo von Hofmannsthal: não há maior dor que recordar o tempo feliz na desgraça.

— P. R. Cunha

Duas conversas com um autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários

A primeira conversa que tive com este autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, foi em Viena, quando ele me dissera que, enquanto escreve, o escritor jamais deve pensar em sua escrita, deve apenas escrever. Da mesma forma que o nosso coração está a bater, ele acrescentou ainda, e muitas vezes não nos damos conta deste batimento. Quando eu resolvi lhe perguntar sobre o motivo de ele não ter publicado nada, nem uma linha sequer, nos últimos cinco anos, o autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, respondeu que desde a morte da esposa num trágico acidente rodoviário ele passara a tomar notas única e exclusivamente numa cadernetinha que ela lhe presenteara poucos dias antes do desastre. E como as linhas dessa cadernetinha já estivessem lá quase que completamente tomadas, a faltar apenas uma ou duas para serem preenchidas, o autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, não pretendia, de forma alguma, desperdiçá-las com quaisquer bobagens. Estou desde então, disse-me ele, a esperar pela chamada frase derradeira. Naturalmente, o comentário a respeito da catástrofe rodoviária e da morte da esposa nessa catástrofe rodoviária acabou por ensombrecer um bom bocado a dica — excelente dica, aliás — sobre nunca pensar no que se escreve, apenas escrever.

* * *

A segunda e última conversa que tive com este autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, foi em Gdańsk, cerca de quatro anos depois, e caía uma verdadeira nevasca lá fora. Estávamos hospedados no Sadova. Ao saguão do hotel, eu a ler o vespertino e ele a dar baforadas num cachimbo à moda Sherlock Holmes. O autor muito famoso, vencedor de vários prêmios literários, quebrara o silêncio e dissera que tornara-se trágico não somente por conta da morte da esposa, mas principalmente por ter sido privado de atividades literárias. Como os futebolistas a quem é vedada a bola, ou jardineiros banidos do jardim. Prestar atenção, ele disse, nos escritores que se isolam demais, progressivamente melancólicos. Ou estão a fugir de algo, ou sentem-se lá já meio mortos — daí a predileção pelos ambientes frios, subsolos, salas de mármore ou de madeira, tudo muito apropriado para as celebrações fúnebres. O medo de que amanhã possa estar já tudo perdido. No dia seguinte, uma camareira do Sadova chamada Malwina encontrara pendurado o corpo do autor muito famoso, vencedor de vários prêmios, com lençol branco ao redor do pescoço enrijecido.

— P. R. Cunha

Departamento de trânsito

Depois da morte do pai do Nestor — meu amigo dos tempos de escola — a mãe dele que, bem me lembro, costumava nos preparar deliciosas tortas de framboesa, a mãe dele, estava eu a dizer, passou a dirigir o automóvel que pertencia ao esposo falecido, um Honda ano 2016. Acontece de por vezes a mãe do Nestor, que mete-se nos copos todas as sextas-feiras, passar dos limites de velocidade. Quando chegam os avisos de multa, os envelopes levam ainda o nome do pai do Nestor, e não o da mãe do Nestor. O Nestor comenta, num tom que nunca sei se de brincadeira ou de malevolência, que, pelo menos para o departamento de trânsito, o pai dele ainda está vivo e dirige por aí como um desvairado. O departamento de trânsito não tomara conhecimento, portanto, do suicídio do pai do Nestor.

— P. R. Cunha