O amante (esboço de cena)

Sala de estar dos Medeiros. Ela — sentadano sofá aler revista de arquitetura. Ele — a preparar uísquepara um trago vespertino.

SRA. MEDEIROS
Belas casas, jardins, pomares, terraços,
automóveis importados na garagem,
gabinetes com muitos livros,
como lê, essa gente, céus!

SR. MEDEIROS
Ele há de ser reputado
como um gracioso
lorde, ou mecenas,
homem afortunado.

SRA. MEDEIROS
Do que fala?
Toma um trago e
perde lá as estribeiras.

SR. MEDEIROS
Do amante.

SRA. MEDEIROS
Amante?

SR. MEDEIROS
Do seu, é claro.
Virtuoso, honesto.
Veleja?

SRA. MEDEIROS
Enlouqueceu?

SR. MEDEIROS
Fica a ler arquitetura,
mas, a sério, pensa nele,
não pensa?

SRA. MEDEIROS
Em quem?

SR. MEDEIROS
Não se faça de tola,
pode ser?

SRA. MEDEIROS
Não tenho amante
nenhum.

SR. MEDEIROS
Dupla negação.

SRA. MEDEIROS
Como é?

SR. MEDEIROS
Não, nenhum
dupla negação.
Então que há alguém
é que há.
(entorna o copo num só gole,
levanta-se para preparar
outro
)

SRA. MEDEIROS
Bem que a
minha mãe falou.

SR. MEDEIROS
E o que falara,
a mãezinha?

SRA. MEDEIROS
Não se meta
com os escritores,
loucos, todos,
doidos.

SR. MEDEIROS
Bem, vejamos.
Eu cá
(coloca cubos de
gelo no copo
)
Eu cá tenho inclinações
a vilanias, certo
endoidei.
Fico a beber. Fico a escrever.
Depois bebo outra vez.
Escrevo outra vez.
E o amante?
Veleja?

SRA. MEDEIROS
Sim, veleja.

— P. R. Cunha

Do qual mais não se sabe

Há um andarilho solitário que fica a rodear o Conjunto Nacional, centro de Brasília, perto da rodoviária. Quando o observei pela primeira vez, ele caminhava de-um-lado-para-o-outro a dizer que era bonito ver as pessoas se divertirem no oceano, em cima dos barcos, mas num naufrágio — todos vão para o fundo do mar. Imagem terrível, o naufrágio, mas de muito boa feitura narrativa.

— P. R. Cunha