Dias / três

É do Harold Pinter que eu gosto mais, sabes?, ela disse. Fala de mim um bocadinho — também gosto do jeito que tu escreves.

*

A viagem é um efeito Doppler: alastra-se. Início, difuso; fim, incerto. Quantas vezes não precisei de prolongados distanciamentos à guisa de digerir metrópole alienígena?

*

Fotografia
escrever —
à luz.

*

Niterói é uma cidadela nostálgica, casa das férias, da meninice. Lembranças que ficaram muito para trás no passado. Niterói nunca foi minha, sempre foi dos meus pais, do meu irmão mais velho. Ela não se incomoda, recebe-me com carinho, acolhe-me com esmero. Niterói por vezes é ausência, é saudade, que dói, destrói, corrói. Niterói.

*

E só havia mais uma pessoa no Icaraí Café — ela. De manhãzinha, passeio no Campo de São Bento; fiquei um bocado parado ao sol, a pensar em qualquer coisa, ao que minha pele possui agora aquele curioso tom vermelho-molho-de-tomate-aguado. Ela olhou para a chávena de café, e depois para mim, daí olhei para ela, e ela olhou para a chávena de café, e assim por diante. Não nos movemos. Apenas olhos, chávenas de café, vermelho-molho-de-tomate. Até que os passos afastaram-se, e então silêncio. Como se ela nunca lá tivesse estado.

*

Daqui às vezes ouve-se o Atlântico. Mas é precisa muita atenção, porque ondas preguiçosas:

Ao mar
os rapazes
esperam
as moças
esperarem
as senhoras
e os senhores
à espera
da velhice
passar.


Texto e fotografia: P. R. Cunha

Sob o efeito de John Cage — cinco ou sete doses de Baileys

Depois de uma noite de bebedeiras ao botequim [na Lopes Trovão, perto do Campo de São Bento] — estamos de ressaca: o mar & eu.

Influenciado pelos escritores do caótico e especialmente pelo azedume dos Ex.{mos} srs. Bernhard e Oswald de Andrade e H. de Campos (Eurico Browne) e A. de Campos (IRMÃOS) este outro-eu-autor/actor (escrevente brasileiro sempre a pensar nas coisas mais essenciais do país tropical &tc [porta-voz]) eu-autor/actor/outro-eu a escrever um sem-número de conto-macchina portanto em Niterói 496.696 habitantes alguns felizes outros nem tanto eu-autor/actor/eu descrevendo entre outros 1) bêbados 2) jogadores de xadrez 3) baristas que não tomam café porque Niterói é quente 4) artistas do teatro 5) boêmios em geral.

conto-macchina — é a recepcionista da pousada que me confundira com o fantasma de Dylan (Dylan não morreu, eu lhe disse; Dylan está morto, ela disse, hospeda-se o fantasma de Dylan nesta nossa pousada, Niterói [inútil insistir quando nos tomam por fantasma de Dylan] desisto). conto-macchina estilo mecânico como o próprio nome sugere ———— industrial sirenes de ambulâncias experimental: o afiador de facas da rua Otávio Carneiro, liberdades & gramaticais & estilísticas (não definir o que é estilo [?]), pontua-se como/e onde/e quando (se) quiser, os fogos de artifício que iluminam o Morro do Cavalão, conto-macchina, não se preocupar com rimas (n’outros termos: tudo bem se rimar as palavras afinal ou rimam ou não rimam), 50% porcento percentagem, o vendedor de picolé queimou o pé nas areias de Camboinhas/Sossego, bolhas no pé do vendedor de picolé, conto-macchina, museu de arte contemporânea ——————— o.Niemeyer, disco, voador, ARQUItecto de um futuro que ultra|passado. conto-macchina, um pouco de tudo.


Texto e fotografia: P. R. Cunha

Prelúdios

Brasília, abril de 2018. O Viajante está sentado à mesa do Clandestino Café e Música, escreve uma peça de teatro para a amiga galega Marina López Fernández. Há tempos que ele está preparado para uma grande viagem, mas ainda não havia chegado a altura de ir-se. O Viajante leva a chávena até aos lábios e sopra a superfície do café — a bebida ondulada o faz lembrar do oceano, da sua paixão pelo Atlântico. Aos poucos o efeito da cafeína enche os abismos do Viajante, os abismos entre aquilo que ele é e o que ele ainda gostava de ser. O Viajante poisa a chávena sobre a mesa e, como agora sabemos, decide que chegara a altura de ir-se. Vai viajar, portanto, o Viajante.

*

Brasília, maio de 2018. A viagem inicia-se num aeroporto. O Viajante contempla demoradamente os transeuntes que vão-e-vêm; pressente de certo modo o seu próprio destino — afinal, também ele está a ir-e-vir. Observa os passageiros desembarcarem, cumprimentam os familiares com grande euforia, como se chegassem de outro planeta e tivessem sobrevivido a grandes atentados terroristas. O Viajante olha então para o ecrã com os horários dos voos e percebe que esses mesmos passageiros acabaram de chegar de Goiânia — ou seja, estavam a meros 200 km de distância, 43 minutos de viagem. Perante tal cena, reflete-se sobre o que costuma acontecer nos aeroportos: a pessoa, ele diz consigo mesmo, a pessoa está a viver a própria vida alhures, decide que quer viajar, vai para o aeroporto e viaja. Dias depois, continua o Viajante para consigo, dias depois ela volta para casa sem saber por que diabos viajou, e continua a viver a própria existência, e a esperar. Estamos sempre esperando, no aeroporto, noutros cantos, na vida. Umas viagens a mais, umas viagens a menos, não fazem qualquer diferença para algumas pessoas, pensa o Viajante. Desta vez, sem sussurrar palavra.

» Versos à janelinha

1.
Brasília —
avião de concreto
vista de um avião de aço

2.
Passageiro desafinado
a cantarolar Jobim
vontade de bater no passageiro.

3.
Aqui do alto
as nuvens tão pesadas
— quanto o meu coração

4.
Adeus
Brasília
você nem liga.


Texto e fotografia: P. R. Cunha

 

Tu — esperas & notas antes de viajar

» Camus equivocara-se 

Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: quais livros levaremos para a viagem. Julgar se colocamos para a bolsa de mão o Sebald ou o Handke ou o Carrión, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto — se vai chover, se escolheremos as camisas vermelhas, se levaremos as bermudas que a tia Rita nos deu — vem depois. Camus, portanto, equivocara-se. O suicídio não é tão absurdo quanto essas seleções literárias. Poucos escolhidos, muitos deixados para trás. Vive-se com esse barulho.

» Discretamente, D. Delgado escreve sobre P. R. Cunha

O pensamento deste narrador, que se diz desventuroso, é um autêntico jogo de xadrez. De um lado do «tabuleiro», o pensamento-ficção; do outro, a realidade. Acho que a ficção podem ser as peças brancas e a realidade as pretas. Ou talvez não. As «peças»… num dos lados são os personagens reais da vida, e no outro, filósofos, autores e pensadores fruto de muitas leituras. Por vezes dão-se todos bem, noutras nem tanto. A estratégia deste «jogo» é o «desventuroso narrador», como se intitula aos trinta e poucos anos de vida, estratégia que entre avanços, recuos, dúvidas e certezas, tem jogadas/pensamentos de mestre. Penso que será um jogo eterno, sem xeque-mate, nem vencedor. Porque cada um sabe que precisa do outro para se sentir vivo e produtivo.


IMG_1532Há muitos livros; e não podemos levá-los todos numa mala


» Gostava de ter o cabelo à Scott Fitzgerald — haikus tropicais

1.

vendedor de pipoca
não aproveita o parque —
um automóvel passou

2.

Para a amiga M. L. F.

jogadores de xadrez
à berma da praia
o rei está louco

3. 

Sturm und drang

sonhador solitário
perseguido pela culpa
poeta sem remorso

— P. R. Cunha

Balões & Saída Norte

Boas! Este electro-sítio, residência de minhas loucuras, completa hoje três meses. Numa palavra: o blogue ainda vive e respira — assim como o próprio autor. E, o que é mais, há-de continuar a respirar, se a fonte da saúde agraciá-lo com regojizo e boa disposição.

«Um maquinista gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino», é Blaise Cendrars, citado por Oswald de Andrade — citados por mim.

Assim prossigo, com grande entusiasmo.


» Piloto / Plano / Brasília

Superquadras (SQS ––––––––– SQN)

[112 Sul]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
guarda-se a tristeza
das coisas que não foram

[405 Sul]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
sozinhas, as pessoas
tomam o pequeno-almoço

– – – – – – – – EIXO

[106 Norte]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
esconde-se o Sol
que não quer mais se ver

[309 Norte]
Por trás do bloco
d’uma superquadra
por vezes há apenas
uma outra superquadra.


IMG_1465Mesa de trabalho deste autor, um seu criado


» Amantes

Certa mulher chega a casa e está a beijar o amante na sala de visitas. Ambos caminham lentamente para o quarto dela, entram no cômodo escuro e ainda não notaram que o marido da mulher encontra-se esticado sobre a cama, com os olhos cerrados. A mulher e o amante fazem uma verdadeira algazarra, mas o marido não percebe. É muito estúpido. Ou talvez…

— P. R. Cunha

Álbum à vista

A canção Domingo à tarde foi escolhida pela Cássia para ser música de trabalho do meu próximo álbum, cujo título provisório é «Triunfo». As outras faixas serão produzidas e masterizadas nos estúdios OC, em Niterói, perto da praia de Icaraí.

PRCunhaDomingo