Manhãs em Sobradinho (casa dos meus avós)

Diz-se primeiro Brasil: de aí pode-se imaginar: país do futuro, país do passado, terra sem terramoto, ditadura(s), corrupção, Jorge Ben: e neste imenso Portugal (Evaldo Cabral de Mello), uma cidade: e nessa cidade uma pequena região administrativa: e nessa região administrativa uma casa construída à volta de jardim, campo de futebol, área de entretenimento aquático: e dessa casa um quartinho com mesa, cama, varanda, rádio de pilha que pertencera ao meu avô: e nesse rádio João Gilberto canta Zingaro (Vou colecionar mais um soneto / Outro retrato em branco e preto / A maltratar meu coração): à mesa, ouvindo João Gilberto, está uma pessoa com uma caneta: eu.

— P. R. Cunha


berenice&edyl

Esta história aconteceu de verdade

Claire e Victor receberam um considerável aumento de salário e decidiram que era altura de se mudarem para uma casa no subúrbio. A mudança será boa para todos nós, disse Claire enquanto guardava livros dentro de uma caixa de papelão. Ela fechou a caixa com fita adesiva e continuou: principalmente para a Lorena, e podemos tentar nos esforçar mais para fazermos a festinha dela na casa nova, o que achas? Victor sentou-se na cama, fitou o quarto onde dormira durante quase uma década: seis anos, Claire, a nossa pequena vai fazer seis anos… nem consigo acreditar. Claire agachou-se e beijou a bochecha do marido: vai dar tudo certo.

Victor carregou o resto das malas para a furgoneta. Claire apareceu com Lorena no colo: Lorie não está se sentindo muito bem. Victor abriu a porta do automóvel para elas: deve ser o estresse da mudança. Deve ser, disse Claire enquanto se ajeitava na poltrona. Victor segurou o aro do volante e com um entusiasmo que soara um bocadinho artificial disse: aqui vamos nós.

Chegaram. O portão estava aberto. Victor estacionou a furgoneta na pequena estradinha de paralelepípedos que leva até à garagem. O antigo dono da casa estava esperando perto da porta de entrada. Oh, aí estão vocês, ele disse. Victor abaixou a janela e acenou com as mãos: senhor Pedro!, demoramos? De forma alguma, chegaram bem na hora, ele respondeu.

Entraram na casa. Claire segurou o braço do marido: vou levar a Lorie para o quarto, acho que está com febre. Quer ajuda, perguntou Victor. Não precisa, disse Claire enquanto subia as escadas. Pedro apenas observou a cena sem esboçar qualquer reação.

Pedro e Victor sentaram-se no sofá que a empresa de mudanças trouxera no dia anterior. Pedro tirou um molho de chaves do bolso e entregou para Victor: estão todas devidamente etiquetadas, as etiquetas verdes indicam que são chaves do interior da casa, as amarelas que são chaves do exterior da casa. Victor ficou a olhar para as chaves durante alguns segundos. Alguma pergunta?, disse Pedro. Victor não respondeu. Ei, alguma outra pergunta?, insistiu Pedro. Como se acordasse de um transe, de uma viagem psicodélica, Victor se assustou: não, não, não, senhor Pedro, está tudo certo.

Claire desceu as escadas e os dois se levantaram do sofá. Victor balançou o molho de chaves como se dissesse: é nossa!, a casa é finalmente nossa! Pedro ergueu os braços: bom, acho que está mesmo tudo resolvido. Despediram-se. Victor foi ligar a geladeira na cozinha, Claire ficou na sala imaginando onde colocaria o restante dos móveis.

Victor aproveitou para arrumar algumas gavetas também. Separou os garfos, depois as facas, abriu a torneira a ver se saía água. Estava prestes a começar a organizar as colheres quando ouviu a voz da esposa: ei, Victor, vem até aqui rapidinho.

Claire olhava para a escada como se não acreditasse no que estava vendo. Lorena tinha colocado a fantasia de princesa e sorria de forma radiante. Victor aproximou-se da filha para segurá-la no colo: vejam só quem melhorou! Claire parecia preocupada. Lorena abraçou o pai: papai, será que eu podia convidar um amiguinho novo para o meu aniversário? Victor beijou a testa da filha e virou-se para Claire: amiguinho novo, querida? É, papai, disse Lorena, diz que sim, por favor, por favor!

Na manhã seguinte, antes de descer para preparar o pequeno-almoço, Victor aproximou-se do quarto da filha. Escutou a inconfundível vozinha nasalada a conversar com alguém. Victor abriu a porta e viu Lorena de costas: Lorie, com quem estás conversando? Ela virou-se para o pai: com o Hugo, papai, ele ainda quer saber se vai ser convidado para a minha festinha de aniversário.

Mais tarde, Victor comentou com Claire sobre o que tinha acontecido. Estranho, ela disse, muito estranho, Lorena nunca foi disso. Victor encheu a chávena de café: sabes, ela andou lendo um daqueles livros de vampiro que a tua irmã deu de Natal. Claire largou o prato na mesa: lá vem de novo, Victor, agora a culpa é da minha irmã, é sempre culpa de alguém da minha família. Victor não sabia como lidar com a situação, nunca soube: não estou dizendo isso, Claire, só sei que a nossa filha anda conversando com um amigo invisível e isso está a me dar nos nervos, só isso.

Victor buscou Lorena na escola. Ela parecia triste. O que foi, princesinha?, perguntou Victor olhando pelo espelho retrovisor. Lorena não disse nada. 

Chegaram em casa e a menina subiu correndo para o quarto. Claire fitou o marido. Também subiram as escadas e ficaram a ouvir atrás da porta da filha. Lorena estava chorando. Dizia que não importava o que eles achavam, a festinha é minha, eu convido quem eu quiser, é claro que você está convidado, Hugo, você é meu amiguinho agora. Sem fazer barulho, Victor e Claire desceram para a sala.

Os dois permanecerem em silêncio por um tempo. 

Como é mesmo o sobrenome do senhor Pedro?, Claire perguntou enquanto abria o laptop. Por quê?, disse Victor. Anda, Victor!, qual o nome inteiro dele. Alencar…, Pedro Alencar Viana. Claire digitou o nome no Google. As primeiras buscas mostravam dados irrelevantes sobre a vida do antigo proprietário da casa, até que quase ao rodapé da página uma notícia chamara a atenção de Claire. Ela puxou o marido pela manga da camisa: olha aqui! — ACIDENTE DOMÉSTICO MATA FILHO DE ADVOGADO. Antes que Claire se mexesse, Victor clicou no link da notícia. O jornal comentava sobre uma terrível tragédia que teria acontecido no dia 14 de outubro de 1998, quando Hugo Alencar Viana, filho mais novo do insigne advogado Pedro Alencar Viana, escorregara da escada e morrera antes mesmo de chegar ao hospital.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #49)

[da importância de se manter um diário.] certo, você está a esperar o autocarro, ou dentro de um anfiteatro durante o intervalo do espetáculo, ou na fila da cafeteria, ou a ler os jornais no saguão do hotel — quando alguém diz algo realmente interessante, uma faísca de ideia, aquela frase de certeza é a semente de uma narrativa (um romance, se calhar). você agora apalpa todos os bolsos da calça & não encontra nada. sem caneta, sem bloco-notas. a frase, como costuma acontecer com todas as frase, desvanece, torna-se opaca, fantasmagórica, até se mostrar apenas um rastro amorfo, como um lençol após incêndio doméstico. alas! depois de ter passado por incontáveis ocasiões desse gênero, resolvi finalmente comprar um diário. um diário portátil, pode-se dizê-lo, já que sempre me dei muito bem com os cadernos que costumo preencher de maneira um bocadinho neurótica durante as leituras da praxe. mas precisava de algo que eu pudesse levar para todos os lados. não é nenhum moleskine, não tem capa de couro, não é item de colecionador. trata-se de uma cadernetinha 11 x 16 cm fabricada pela tilibra que me custara doze dinheiros em papelaria popular no centro de taguatinga, distrito federal. a primeira medida que tomei foi garantir a mim mesmo que nunca, em hipótese alguma, mostraria o diário para vivalma. pois sei que quando quero mostrar algo a alguém acabo invariavelmente me policiando: importo-me com a tipologia, deixo de escrever termos inadequados (férteis adubos do fluxo de consciência), fico com medo de rabiscar & de repente arruinar a estética da página &tc. DIÁRIO SECRETO, escrevo na primeira página, sentindo-me um ingênuo miúdo do primário. mas que assim seja. por vezes, pego-me distraído, estou debruçado para diante do bloquinho com papel cor de creme, meu banco de dados às proliferações de possibilidades, discorro a respeito do baloiço moroso dos galhos de uma sibipiruna («caesalpinia peltophoroides»), sobre a importância de se manter um diário. estou feliz.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #48)

eis o relato de um «milagre natalício». na manhã do dia 24 o meu amigo ortega telefonou-me & disse: francisco, sei que não tens sítio para ir este natal, então vou te levar à festa de uns conhecidos. quando chegamos à festa, ortega me apresentou a duas senhoritas. eu disse: nada mau, nada mau mesmo. mas há sempre qualquer coisa. um sujeito meia-idade aproximou-se & pediu ao garçom duas doses de johnnie walker, outras três de gordon’s. ele queria impressionar. as senhoritas levaram as mãos aos lábios & ao próprio coração: senhor, nós nem bebemos. meia-idade disse: são para mim. todas as doses?, perguntei. sim, todas, ele disse. a atmosfera, obviamente, ficou pesada como um búfalo, mas permanecemos ali, acho que à guisa de decoro. as doses chegaram, meia-idade colocara-as em cima da mesa, perto de uma taça de vinho cheia. ele tomou um gole de johnnie walker & disse: eu gosto mesmo é de ler filosofia, história das guerras (pausa), literatura ficcional não me agrada. daí ele começou a vomitar umas datas aleatórias, confundia voltaire com rousseau, achava que nietzsche tinha morrido durante a segunda guerra mundial, fez apologia aos combates nas trincheiras, garantiu que não se fazia mais soldado como antigamente. as moças estavam muito aborrecidas & olhavam para mim & pareciam dizer: francisco, faz alguma coisa, isto aqui está um inferno, isto aqui não dá & tals. mas eu não sabia o que fazer para livrar-nos daquele sujeito. até que o espírito natalício arquitetara o milagre. meia-idade estava prestes a começar extenso monólogo sobre a quantidade de livros que lera em 2019 quando virou-se para pegar outra dose de johnnie walker (ou de gordon’s, já não me lembro) & esbarrou o braço na taça de vinho. meia-idade gritou: merda! o vinho sujara toda a roupa branca dele. segurei as senhoritas pelo braço & disse: senhor, não se preocupe, iremos buscar ajuda imediatamente, fique bem aí onde o senhor está, não se mexa em hipótese alguma &tc. &tc.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #47)

aqueles sim eram os tempos difíceis. & não estou a falar dos 1950/60/70, estou a falar dos anos 1980, no brasil. as roupas coloridas, a lambada, o electro-brega, os táxis da volkswagen, o punk rock tardio, o futebol da seleção que encantava & nunca ganhava a copa do mundo, a democracia de fachada, o josé sarney, moças & rapazes com cabelos tipo ninho de pombão. na quadra residencial onde morávamos em brasília as pessoas começaram a se jogar dos prédios porque o estado estava a bloquear/congelar a conta bancária de toda a gente. era só ouvir o barulho dos automóveis dos bombeiros que meu pai, deitado no quarto assistindo à corrida de fórmula 1, perguntava para a minha mãe quem tinha se suicidado desta vez. a palavra suicídio na nossa família nunca foi tabu, papai pronunciava-na como se pedisse um sorvete, ou algo assim. às vezes saíam os dois, papá & mamã, para ver o que tinha acontecido. eu & meus irmãos ficávamos dentro do apartamento com a nossa babá, rosinha. ela tinha 13 anos, de forma que ninguém sabia ao certo quem cuidava de quem, se rosinha de nós ou se nós de rosinha. para ser justo com os meus pais, a mãe de rosinha, uma mulher adulta, fazia a nossa comida. mas ela só aparecia caso alguém começasse a chorar. do contrário, éramos só nós & rosinha — enquanto meus pais estavam lá embaixo a ver de quem era o corpo estraçalhado na calçada. sim, aqueles eram os tempos realmente difíceis.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #41)

não sou humano. vivo dentro do p. r. cunha. somos vários, milhares. quero dizer: eu sou eu, único, mas há outros da minha espécie que se hospedam noutras cabeças literárias. alguns tentaram nos tirar do anonimato, estudaram-nos, perseguiram-nos, escreveram teses sobre os nossos modos, procuraram termos para nos rotular — «gêmeo indomável», «homônimo», «duplo», «deus», «pseudônimo», «consciência», «diabo», «doppelgänger». nobres tentativas, mas, de minha parte, digo que a nomenclatura ainda deixa um bocadinho a desejar. eu gosto de fotografias antigas, cartografias, café sem açúcar, john cage, do teatro de tadeusz kantor, história das guerras (quentes, mundiais, frias, regionais), dos contos mais obscuros da susan sontag. eu acumulo, p. r. cunha escreve. ou melhor, transcreve. & às vezes ele até recebe alguns elogios & quando isso acontece p. r. cunha aceita-os com certa vaidade. ah!, mas quando as coisas não vão lá muito bem, quando as ideias não surgem com a frequência que ele tanto gostaria, p. r. cunha — indigno!, cafajeste!, sem-vergonha! — aponta o indicador para a têmpora & culpa-me, sem pudores. onde já se viu… há também alturas em que me perco em divagações aleatórias: a vida dos artistas, dos gênios, as noites de boemia, a bebedeira, o canto de um pássaro, a perdição, o delírio, os sabores, a voz de uma mulher. até perceber que p. r. cunha está ali, à espreita. o danado está a tomar notas — vida, artistas, pássaros, boemia, bebedeira, voz, mulher, noite, sabores. no dia seguinte, leio qualquer coisa no blogue «dele», ou num esboço de capítulo do livro «dele», ou um artigo para revista com as MINHAS ideias, com os MEUS devaneios. é terrível. por isso estou aqui a colocar, como se diz, os pingos nos «is». cansei, sim, estou farto de tanta exploração. & agora, sem nada a perder, desafio o meu hospedeiro a publicar-me. vejamos se ainda lhe resta alguma migalha de dignidade.

— p. r. cunha (?)