O sorriso

As árvores eram verdes
o céu, azul
uma nuvem branca
preguiçosa
aproximava-se lentamente
tinha o formato de um gigante
urso polar
o urso polar sorria
talvez porque fosse sábado.

— P. R. Cunha

A firma

Todos os dias úteis, pontualmente às 9h30 da manhã, quando os funcionários da firma estão já alojados nos respectivos cubículos, a bater nas teclas do computador, fingindo produtividade, o alarme estridente do prédio toca para avisar que é altura de fazer exercício físico com o professor Bob. Os funcionários formam uma fila indiana e são conduzidos por certa moça fitness até à sala de ginástica, onde Bob — vestido com uma camisa regata verde fluorescente e calças leggings/spandex cor marrom — os espera. Hamilton é sempre o último do fila. A bem da verdade, ele tem um bocado de medo da metodologia utilizada pelo professor Bob. Lá fora, o tempo está agradável, soalheiro; dentro da sala de ginástica, paira uma atmosfera fria e sombria. Hamilton esconde-se aos fundos, longe dos olhares inquisidores do saltitante Bob. Ele (Hamilton) nunca conseguiu entender como alguém podia ser tão enérgico àquela hora da manhã, num ambiente tão devastador. Talvez o Bob usasse algum tipo de droga. A voz atonal do coach começa dando os bons-dias e logo parte para as instruções da praxe: «Aquecimento, levantem os braços, agora podem relaxar, agora o jumping jack, isso, polichinelo, isso!, vamos para os agachamentos…». Hamilton está suando em bica. Ele olha para o relógio e bate-lhe um brando desespero — passaram-se apenas dois minutos, meros dois minutinhos. A regata verde fluorescente do Bob aproxima-se do Hamilton: «Não me faça vir aqui novamente, seu saco de preguiça desprezível!». A aula continua como se nada tivesse acontecido, como se nenhum outro funcionário tivesse escutado a reprimenda do Bob, mas escutaram, de certeza que escutaram. Todos continuam a série de exercícios em absoluto silêncio. Hamilton esforça-se para fazer o agachamento, não consegue. Ao levantar a cabeça de forma atabalhoada, nota que o Bob se aproxima dele outra vez. Enquanto as calças leggings/spandex cor marrom caminham na direção do Hamilton, ele olha de soslaio para o relógio: três minutos, só se passaram três minutos.

— P. R. Cunha

Contra dicções

Em tempos de colégio tínhamos um treinador de futebol muito rigoroso — era o Mr. Bryan. Nunca se mostrava satisfeito. O Mr. Bryan era do Canadá, Québec. Vocês precisam de treinar mais, ele dizia. E mais. E mais. Numa altura chegamos a vencer quatro dos cinco torneios escolares disputados, e o Mr. Bryan ficou possesso porque não vencemos os cinco. Éramos para ter vencido os cinco, ele disse. Anos depois, encontrei-me com o Mr. Bryan num café arborizado. Os cabelos grisalhos, as rugas marcavam vales no rosto do canadiano. Contou-me que pouca gente o visitava em casa, pois onde ele morava havia uma quantidade absurda de mosquitos.

[…]

Imersão em trabalhos criativos, preocupar-se mais com os outros (com os estranhos, especialmente), tirar sarro da condição humana (ri-se na cara do absurdo, como se diz), escrever a respeito das próprias crises, procriar (ter filhos, adotá-los), cuidar da saúde, evitar os comportamentos obsessivos, viver melhor, viver mais, o marinheiro que ganha «uma noite ao bordel do vilarejo» antes de ser enforcado pelos outros marinheiros, viver melhor do que os pais, superar os pais, fazer parte de algum clube (group membership), ser menos intolerante com as religiões, resgatar o álbum de fotografias da família esquecido ao sótão, praticar desportes radicais/perigosos (paraquedismo, escalada em montanhas íngremes [sem o equipamento adequado]), experimentar drogas exóticas, cair ao abismo do álcool, cultivar múltiplas personalidades, negar a morte.

— P. R. Cunha

Eerie scenes from bathrooms, by P. R. Cunha

[Brasília/Aveiro]

The bathroom is the most intimate place in the house.

People lock themselves in the bathroom because they don’t want other people to know that they are inside the bathroom.

The light in the bathroom is different — white, bluish, cold, yellowish, wet.

A lot of people end up feeling very vulnerable inside the bathroom.

They feel naked, indeed.

— P. R. Cunha


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Manhãs em Sobradinho (casa dos meus avós)

Diz-se primeiro Brasil: de aí pode-se imaginar: país do futuro, país do passado, terra sem terramoto, ditadura(s), corrupção, Jorge Ben: e neste imenso Portugal (Evaldo Cabral de Mello), uma cidade: e nessa cidade uma pequena região administrativa: e nessa região administrativa uma casa construída à volta de jardim, campo de futebol, área de entretenimento aquático: e dessa casa um quartinho com mesa, cama, varanda, rádio de pilha que pertencera ao meu avô: e nesse rádio João Gilberto canta Zingaro (Vou colecionar mais um soneto / Outro retrato em branco e preto / A maltratar meu coração): à mesa, ouvindo João Gilberto, está uma pessoa com uma caneta: eu.

— P. R. Cunha


berenice&edyl

Esta história aconteceu de verdade

Claire e Victor receberam um considerável aumento de salário e decidiram que era altura de se mudarem para uma casa no subúrbio. A mudança será boa para todos nós, disse Claire enquanto guardava livros dentro de uma caixa de papelão. Ela fechou a caixa com fita adesiva e continuou: principalmente para a Lorena, e podemos tentar nos esforçar mais para fazermos a festinha dela na casa nova, o que achas? Victor sentou-se na cama, fitou o quarto onde dormira durante quase uma década: seis anos, Claire, a nossa pequena vai fazer seis anos… nem consigo acreditar. Claire agachou-se e beijou a bochecha do marido: vai dar tudo certo.

Victor carregou o resto das malas para a furgoneta. Claire apareceu com Lorena no colo: Lorie não está se sentindo muito bem. Victor abriu a porta do automóvel para elas: deve ser o estresse da mudança. Deve ser, disse Claire enquanto se ajeitava na poltrona. Victor segurou o aro do volante e com um entusiasmo que soara um bocadinho artificial disse: aqui vamos nós.

Chegaram. O portão estava aberto. Victor estacionou a furgoneta na pequena estradinha de paralelepípedos que leva até à garagem. O antigo dono da casa estava esperando perto da porta de entrada. Oh, aí estão vocês, ele disse. Victor abaixou a janela e acenou com as mãos: senhor Pedro!, demoramos? De forma alguma, chegaram bem na hora, ele respondeu.

Entraram na casa. Claire segurou o braço do marido: vou levar a Lorie para o quarto, acho que está com febre. Quer ajuda, perguntou Victor. Não precisa, disse Claire enquanto subia as escadas. Pedro apenas observou a cena sem esboçar qualquer reação.

Pedro e Victor sentaram-se no sofá que a empresa de mudanças trouxera no dia anterior. Pedro tirou um molho de chaves do bolso e entregou para Victor: estão todas devidamente etiquetadas, as etiquetas verdes indicam que são chaves do interior da casa, as amarelas que são chaves do exterior da casa. Victor ficou a olhar para as chaves durante alguns segundos. Alguma pergunta?, disse Pedro. Victor não respondeu. Ei, alguma outra pergunta?, insistiu Pedro. Como se acordasse de um transe, de uma viagem psicodélica, Victor se assustou: não, não, não, senhor Pedro, está tudo certo.

Claire desceu as escadas e os dois se levantaram do sofá. Victor balançou o molho de chaves como se dissesse: é nossa!, a casa é finalmente nossa! Pedro ergueu os braços: bom, acho que está mesmo tudo resolvido. Despediram-se. Victor foi ligar a geladeira na cozinha, Claire ficou na sala imaginando onde colocaria o restante dos móveis.

Victor aproveitou para arrumar algumas gavetas também. Separou os garfos, depois as facas, abriu a torneira a ver se saía água. Estava prestes a começar a organizar as colheres quando ouviu a voz da esposa: ei, Victor, vem até aqui rapidinho.

Claire olhava para a escada como se não acreditasse no que estava vendo. Lorena tinha colocado a fantasia de princesa e sorria de forma radiante. Victor aproximou-se da filha para segurá-la no colo: vejam só quem melhorou! Claire parecia preocupada. Lorena abraçou o pai: papai, será que eu podia convidar um amiguinho novo para o meu aniversário? Victor beijou a testa da filha e virou-se para Claire: amiguinho novo, querida? É, papai, disse Lorena, diz que sim, por favor, por favor!

Na manhã seguinte, antes de descer para preparar o pequeno-almoço, Victor aproximou-se do quarto da filha. Escutou a inconfundível vozinha nasalada a conversar com alguém. Victor abriu a porta e viu Lorena de costas: Lorie, com quem estás conversando? Ela virou-se para o pai: com o Hugo, papai, ele ainda quer saber se vai ser convidado para a minha festinha de aniversário.

Mais tarde, Victor comentou com Claire sobre o que tinha acontecido. Estranho, ela disse, muito estranho, Lorena nunca foi disso. Victor encheu a chávena de café: sabes, ela andou lendo um daqueles livros de vampiro que a tua irmã deu de Natal. Claire largou o prato na mesa: lá vem de novo, Victor, agora a culpa é da minha irmã, é sempre culpa de alguém da minha família. Victor não sabia como lidar com a situação, nunca soube: não estou dizendo isso, Claire, só sei que a nossa filha anda conversando com um amigo invisível e isso está a me dar nos nervos, só isso.

Victor buscou Lorena na escola. Ela parecia triste. O que foi, princesinha?, perguntou Victor olhando pelo espelho retrovisor. Lorena não disse nada. 

Chegaram em casa e a menina subiu correndo para o quarto. Claire fitou o marido. Também subiram as escadas e ficaram a ouvir atrás da porta da filha. Lorena estava chorando. Dizia que não importava o que eles achavam, a festinha é minha, eu convido quem eu quiser, é claro que você está convidado, Hugo, você é meu amiguinho agora. Sem fazer barulho, Victor e Claire desceram para a sala.

Os dois permanecerem em silêncio por um tempo. 

Como é mesmo o sobrenome do senhor Pedro?, Claire perguntou enquanto abria o laptop. Por quê?, disse Victor. Anda, Victor!, qual o nome inteiro dele. Alencar…, Pedro Alencar Viana. Claire digitou o nome no Google. As primeiras buscas mostravam dados irrelevantes sobre a vida do antigo proprietário da casa, até que quase ao rodapé da página uma notícia chamara a atenção de Claire. Ela puxou o marido pela manga da camisa: olha aqui! — ACIDENTE DOMÉSTICO MATA FILHO DE ADVOGADO. Antes que Claire se mexesse, Victor clicou no link da notícia. O jornal comentava sobre uma terrível tragédia que teria acontecido no dia 14 de outubro de 1998, quando Hugo Alencar Viana, filho mais novo do insigne advogado Pedro Alencar Viana, escorregara da escada e morrera antes mesmo de chegar ao hospital.

— P. R. Cunha