1.

Em casa de minha mãe, Brasília.

física quântica
mudança inconstante
bailam as árvores

* * *

o laranja
da escuridão
sol que diz adeus

— p. r. cunha

Baileys Irish Cream

Um gole de Baileys
apazigua os pensamentos
em total sossego
escrevo este poema
com caneta do espírito
negra como as sombras
abre-se diante de mim
a infinitude universal
luas prateadas
o vazio entre as estrelas
que há muito já se foram
e enquanto nesta fuga imaginada
eu fixo o olhar no líquido
percebo que não é à toa
Baileys e espaço sideral
possuírem a mesma média de cor
leite cósmico
cosmic latte.

— P. R. Cunha

Preparação literária em hipóteses (parte III)

«Nenhum artista é artista vinte e quatro horas por dia.»

Não haverá uma pitada de ironia no fato de que essa frase fora escrita por Stefan Zweig? Justo ele, que nem diante do próprio suicídio deixou de fazer arte — cabelos engomados, gravata impecável, a camisa devidamente abotoada, a última cena montada em Petrópolis-RJ antes de se despedir dos palcos mundanos.

Mas, afinal, o artista — e para os efeitos destas hipóteses vamos tratá-lo logo de escritor —, o escritor precisa de trabalhar a tempo inteiro?

Sim e não (ambiguidade propositadamente calculada).

O escritor consegue produzir o essencial, tudo aquilo que vai perdurar, apenas em alguns raros momentos de inspiração — a ideia geral ainda é do sr. Zweig.

São necessários milhões de pessoas em uma nação até surgir aquele/aquela a que chamaremos de bom escritor/boa escritora, milhões de horas tediosas precisam de passar, milhões de palavras arremessadas ao lixo para, enfim, observarmos uma histórica estrela cadente da literatura que de forma breve iluminará a noite das nossas insignificâncias.

Trata-se, portanto, de ofício que exige disciplina, continuidade. A ideia não é necessariamente «trabalhar» a tempo inteiro, mas manter os canais abertos, manter a luneta virada para o céu. Se estivermos desprevenidos a locomotiva se vai alhures, não embarcamos… 

Manter-se num estado de vigília espontânea, era isso o que eu estava querendo dizer.

Lembremos agora, à guisa de reforço, a quantidade de terra, e lama, e dejetos que o minerador precisa de se ver livre antes de conseguir encontrar pedras preciosas. 

Pois, o bom escritor e a boa escritora nunca deixam de ir ao fundo, de limpar, não desanimam quando se deparam com falsos diamantes. Se estiverem na mina certa, sabem que o aguardado tesouro vai aparecer: questão de tempo.

— P. R. Cunha

Preparação literária em hipóteses (parte II)

Ao simplificarmos a equação: (escritor = pessoa que escreve), percebemos as multiplicações de categorias relacionadas. Há quem escreva por hobby, para um desabafo terapêutico, há quem escreva ficção, outros preferem material biográfico, história, sociologia, antropologia etc. etc.

Há também os que, por motivos variados, não conseguem/podem escrever, e os que podem/conseguem escrever mas se sentem muito culpados por isso — eu cá tenho tempo, disposição, estabilidade para me dedicar à literatura, enquanto outros tantos não têm esse mesmo, digamos, «luxo».

O mundo do lado de fora pode ser perverso e hostil. Se a pessoa que escreve não conseguir desenvolver certos mecanismos de defesa, terá de lidar com crises paradoxais.

O escritor que para de escrever (primordialmente) para si mesmo e começa a trabalhar para os leitores, para abraçar o planeta inteiro, para resolver os defeitos sociais, desapontar-se-á. «Não era bem isso o que eu estava esperando», diz-se.

Acontece que todas as dificuldades internas e externas acompanham o nômade durante a viagem. A jornada por si só não é uma fuga ou um antídoto contra os transtornos de ninguém. No decorrer do percurso, novos desafios surgirão, coisas que nunca imaginávamos que pudessem acontecer irão acontecer. 

A vida não deixa de existir só porque viajamos.

E o escritor é uma espécie de viajante.

Alguns gostam de acreditar que o escritor leva a melhor existência possível. E se a pessoa que escreve deixar-se iludir pela miragem da bonança, ela dará entrevistas, ou apresentar-se-á num encontro literário com discursos românticos sobre como escrever é uma prática apenas prazerosa, edificante, sem efeitos colaterais.

Mas um médico que resolvera fazer medicina para salvar a vida das pessoas cedo ou tarde precisará de encarar a morte, o paciente que não vai se recuperar, o fracasso.

São acordos tácitos que assinamos enquanto temos os pulmões a respirar, o cérebro funcionando, o coração a bater.

— P. R. Cunha

Grande piscina vazia

Total ausência de instrumentos convencionais. Nada plugado. Softwares, hardwares. Sentar para fazer música apenas quando surgir qualquer inspiração — difícil de definir «inspiração». Força motriz que impele/empurra/impulsiona. Motivo(s). Cansado de todas os trejeitos de músico: o músico perturbado, o músico avant-garde, o músico com a guitarra nos ombros a fazer pose de músico com a guitarra nos ombros, o músico que tem algo a contar, o músico que não tem nada a contar. Mexer nos teclados, perceber os sons que saem ao mexer nos teclados. Registros, consequências. Algo aproximadamente orgânico realizado numa máquina inorgânica. Contradizer-se, fechar-se, abrir-se. Distanciamentos. Música sem assinatura humana. O homem (i.e.: «eu») programa a música, a música segue por si mesma. Loopings, repetições, monotonias. Fumar um atabacado durante a gravação. Sentir o sabor do atabacado. Colagens. Recomeços. Inícios falsos. Falsos finais. Ser-não-ser músico. Músico falso. Músico ciborgue. Samples, recortes. Atmosferas. Neve. Emoções modernas. O vazio. A destruição. Amnésias. Ambient techno. Sem linguagem pré-definida. Reverberações, ecos. Beijar a Jessy antes de publicar a grande piscina vazia. Alienação: fuga, esconderijo. Refúgios.

— P. R. Cunha


Macchiato

Agradável tarde soalheira. Roubalivros Editora, que brevemente lançará o meu livreto de poemas incompletos, convidara-me para tomar um café virtual e conversar sobre miudezas variadas.


[Roubalivros Editora] Não gostas de dar entrevistas?

[P. R. Cunha] Não muito. Mas também não me procuram tanto para dá-las. Então acho que estamos, como se diz, quites.


[R. E.] Fruto de alguma experiência traumática?

[P. R.] Tenho certo pavor de quem fala demais. E tenho mais pavor ainda de ser eu a pessoa que fala demais. Isso ocorre com frequência. Eu falo, e falo, e falo. Acontece que quando falamos demais é porque queremos nos explicar. E a pior coisa que pode acontecer com um escritor de ficção é ser completamente compreendido. Ou compreendido além da conta. Prefiro cultivar a imprecisão, a inconveniência, e isso só é possível se conseguimos manter a distância correta.


[R. E.] A escrita sempre esteve presente na tua vida?

[P. R.] A escrita?


[R. E.] A escrita… Quero dizer: sempre tivestes na veneta a ideia de ser escritor?

[P. R.] Eu queria ser baterista de jazz. Mas acabei baterista de uma banda de post-rock. A banda parou de tocar e me deparei com o diploma de jornalista. Meu plano B era ser jornalista. Percebes como as coisas podem ser absurdas? Daí eu disse que jornalismo não dava. Jornalismo nem pensar. Estou roubado.


[R. E.] E a escrita?

[P. R.] Numa determinada altura o meu pai falou: tens que te meter em qualquer coisa na vida, moleque, não podes ficar debaixo das minhas asinhas para sempre. Papai estava certo. Então comecei a escrever para dizer que estava fazendo alguma coisa. Foi isso. E peço imensas desculpas pela falta de glamour. Comecei a escrever para enganar o meu pai.


[R. E.]
Costumas falar muito dele na tua ficção. Ainda é uma figura marcante para ti?

[P. R.] Acho que quando alguém perde o pai essa perda será sempre marcante. A diferença é que alguns perdem o pai cedo, e outros quando já estão numa idade mais avançada. Quem está numa idade mais avançada e o pai morre, a pessoa meio que joga as mãos para o alto, resignada: ora!, é o curso natural do universo. E a pessoa que está numa idade mais avançada sabe que ela também não tem muito tempo pela frente. Mas se tu perdes o pai aos 24 anos, como foi o meu caso, faz as contas…


[R. E.] Passas boa parte da vida sem pai.

[P. R.] É por aí. Tenho cá um projeto engavetado sobre o breve período em que fui ghostwriter dele. Papai tinha criado uma espécie de boletim de notícias para o hospital urológico que ele construiu e eu escrevia artigos com assuntos médicos. Depois ele assinava os textos e me pagava uma mixaria. Lembro que estávamos num café e um paciente reconheceu meu pai. Foi até à mesa só para elogiar a escrita elegante dos artigos, além de médico um ótimo escritor etc. E meu pai, sem pudores, respondeu que eram frutos de anos de prática, que em breve arrumaria período sabático para se dedicar somente à literatura, essas coisa. Era tudo muito engraçado. Meu pai era um piadista nato.


[R. E.] O projeto já tem título?

[P. R.] Sim. Chama-se: O fantasma do meu pai.


[R. E.] Quando começaste a escrever poesia?

[P. R.] O paradoxo com o qual tenho de lidar constantemente é este: não consigo existir se não escrevo, mas há épocas em que simplesmente não quero escrever. Quero estar algures. Não é falta de ideias, é estar-se saturado. Sou um escritor de ficção, de prosa. Mas se escrever se torna um aborrecimento, o jeito é lidar com as incompletudes, as migalhas, os cacos. De forma que tomo notas mesmo assim, mesmo sem querer, mesmo saturado. As notas precisam de ser curtas, dispersas, desconjuntadas. Quando passo essas notas para o computador, começo a apertar a tecla «ENTER». Organizo os fragmentos em versos. Não saberia te dizer quando foi a primeira vez que fiz algo dessa natureza. Mas são linhas motivadas pelo tédio, pela total ausência de vontades, são pequenos gemidos de socorro, vai lá.


[R. E.] O desafio seria transformar esses gemidos de socorro em algo orgânico?

[P. R.] Mesmo a ideia de transformar sugere uma qualquer edição, ou pelo menos um processo seletivo. De certeza que isto vai parecer um descaso danado, mas não me importo com nada depois que organizo os fragmentos. As escolhas só acontecem no sentido de que fico com os gemidos que gosto mais e jogo fora os gemidos que gosto menos — sem nunca modificá-los. 


[R. E.] Falando nisso, tens conseguido produzir durante a quarentena?

[P. R.] Há cerca de duas semanas recebi ligação de um amigo que também escreve. Ele contou que estava complicadíssimo trabalhar com esta pandemia toda, blá-blá-blá. Eu disse: não me venhas com essa ladainha, deixa de tolices!, Gore Vidal, Capote, Sartre, Simone de Beauvoir, Hemingway e tantos outros continuaram a escrever durante a Segunda Guerra Mundial, com Hitler, com tanques, com a Wehrmacht, com metralhadoras, com bombas sobre as cabeças. Tudo bem se não quer escrever porque está metido em outras atividades menos indecorosas, mas jogar a culpa no vírus parece-me de uma covardia brutal. Já és grandinho o suficiente para lidares com os próprios fracassos, não achas? E agora leio sobre artistas deprimidos que não dão conta de produzir porque o mundo está acabando. Tretas. Sinto informar-lhes, mas o mundo está sempre acabando.

[R. E.] E a literatura sempre a sobreviver ao fim dos tempos.

[P. R.] Taí uma bela frase de encerramento.

O sorriso

As árvores eram verdes
o céu, azul
uma nuvem branca
preguiçosa
aproximava-se lentamente
tinha o formato de um gigante
urso polar
o urso polar sorria
talvez porque fosse sábado.

— P. R. Cunha

A firma

Todos os dias úteis, pontualmente às 9h30 da manhã, quando os funcionários da firma estão já alojados nos respectivos cubículos, a bater nas teclas do computador, fingindo produtividade, o alarme estridente do prédio toca para avisar que é altura de fazer exercício físico com o professor Bob. Os funcionários formam uma fila indiana e são conduzidos por certa moça fitness até à sala de ginástica, onde Bob — vestido com uma camisa regata verde fluorescente e calças leggings/spandex cor marrom — os espera. Hamilton é sempre o último do fila. A bem da verdade, ele tem um bocado de medo da metodologia utilizada pelo professor Bob. Lá fora, o tempo está agradável, soalheiro; dentro da sala de ginástica, paira uma atmosfera fria e sombria. Hamilton esconde-se aos fundos, longe dos olhares inquisidores do saltitante Bob. Ele (Hamilton) nunca conseguiu entender como alguém podia ser tão enérgico àquela hora da manhã, num ambiente tão devastador. Talvez o Bob usasse algum tipo de droga. A voz atonal do coach começa dando os bons-dias e logo parte para as instruções da praxe: «Aquecimento, levantem os braços, agora podem relaxar, agora o jumping jack, isso, polichinelo, isso!, vamos para os agachamentos…». Hamilton está suando em bica. Ele olha para o relógio e bate-lhe um brando desespero — passaram-se apenas dois minutos, meros dois minutinhos. A regata verde fluorescente do Bob aproxima-se do Hamilton: «Não me faça vir aqui novamente, seu saco de preguiça desprezível!». A aula continua como se nada tivesse acontecido, como se nenhum outro funcionário tivesse escutado a reprimenda do Bob, mas escutaram, de certeza que escutaram. Todos continuam a série de exercícios em absoluto silêncio. Hamilton esforça-se para fazer o agachamento, não consegue. Ao levantar a cabeça de forma atabalhoada, nota que o Bob se aproxima dele outra vez. Enquanto as calças leggings/spandex cor marrom caminham na direção do Hamilton, ele olha de soslaio para o relógio: três minutos, só se passaram três minutos.

— P. R. Cunha