Crenças equivocadas produzidas por cérebros em exageradas tentativas de estabelecer conexões — ou as demandas de um qualquer relacionamento

Para Mauro Belmiro

Talvez devêssemos confiar no
testemunho de muitas gentes,
gentes da literatura,
vocês sabem,
dos fazedores de livros.
Que lá dizem ser raro,
encontrarmos alguém.
Alguém com quem estejamos
bem-dispostos a nos relacionar.
Bem como ela
conosco.
Ou como dissera
certo filósofo
do pessimismo:
que observava homem feio
estúpido,
rude.
Passar à frente de rapaz
talentoso, dos melhores modos.
Afável.
Por quê:
Excessivo poder mental,
ele diz,
ou até genialidade,
podem agir desfavoravelmente.

— P. R. Cunha

Homem-máquina

Há um prédio de escritórios onde os robôs começam a substituir os humanos e está a correr bem. Menos para o Martins, um vendedor de seguros acima do peso que come muito e fora orientado a caminhar até o trabalho à guisa de melhor saúde. Mas como se viu demitido por um gerador de algoritmo que consegue prever os riscos de taquicardia com bastante precisão, o Martins engordara mais um bocado e dizem que só sai do pequeno apartamento para comprar a torta de amora que tanto aprecia.

— P. R. Cunha

António furioso

Às vezes acontece de eu acordar no meio da noite sem motivo aparente — abro os olhos, tento mexer os pés, não se movem, tento mexer as mãos, nada, a cabeça pesa trezentos quilos, o corpo imutável afunda nos vales do colchão, lembra um cadáver. Começo a suar, estou morrendo, acabou. Quando enfim me recupero dessa angústia terrível, ligo para o António e ele atende furioso: quem é? Sou eu, eu digo. Vai se foder, ele diz, são três horas da manhã. Tive aquele negócio de novo, eu tento me explicar, mas o António desliga. O Antônio desliga e provavelmente comenta com a esposa que não era nada, daí ele abraça a esposa e os dois voltam a dormir. Fácil. Mas eu não durmo, fico apavorado, vou até o computador que está em cima da escrivaninha e procuro no Google: acordar + não conseguir se mover + doença e a busca gera aproximadamente trezentos mil resultados sobre «paralisia do sono».

— P. R. Cunha

O trompetista

Um trompetista local, que segundo a opinião de diversas autoridades musicais era tido como muito talentoso, compôs no seu próprio trompete uma melodia para a pessoa que tanto amava. Antes de mostrar a ela — tratava-se naturalmente de uma surpresa —, o trompetista tocara a melodia para toda a gente do bairro e toda a gente do bairro foi unânime: sem dúvida, muito bonita a melodia, está de parabéns, etcétera. Quando, no entanto, ele finalmente mostrou a melodia à pessoa amada, ela, por sua vez, não achou bonita, achou feia: é uma melodia feia, foi portanto o que ela disse. Desde então, não se sabe do paradeiro desse talentoso trompetista.

— P. R. Cunha

Lírios alaranjados

O avô do Monte era um cara incrível, foi com ele que aprendi a beber. Certa vez estávamos sentados na varanda da casa do Monte, e o avô dele chegou com quatro garrafas de cerveja, abriu uma para si e nos entregou as outras. Nós tínhamos doze, treze anos. O avô do Monte desabou-se na rede e ficara olhando para nós três. Podem beber, ele disse. Demos um gole curto. O Lídio cuspiu tudo fora, o Monte mostrava-se tranquilo, despreocupado, fez até pose na hora de levantar a garrafa. De certo que o avô já lhe havia iniciado no universo etílico. O grisalho ancião levantou-se, enxugou a boca com as costas das mãos, perdeu um pouco o equilíbrio e ficou parado perto de um jarro de flores laranjas: aprendi isto com o meu pai e gostava de transmiti-lo a vocês também. Ele então ensaiou um sorriso debochado e disse: se for o caso de se embebedar pela manhã, mantenham-se perto dos lírios alaranjados. A verdade é que jamais consegui compreender o significado desse conselho estranho. Mas o avô do Monte era sem dúvida um cara incrível.

— P. R. Cunha

Para-choques

Depois de cinco anos a trabalhar numa empresa detestável, Casimiro conseguiu finalmente comprar o próprio sedan. Não chega a ser um automóvel conservado: dois donos, para-choque dianteiro desigual, uma das lanternas traseiras parou de funcionar e a porta do motorista possui um arranhão visível a uns bons metros de distância. Casimiro está sentado ao volante. O cheiro no interior do veículo é um pouco enjoativo, ele tem de confessar. Como se alguma perfumaria desleixada tivesse jogado ali uma qualquer fragrância à base de petróleo que ainda não passara pelo departamento de qualidade. Segundo o vendedor, o carro pode ir de zero a sessenta quilómetros em dez segundos, velocidade máxima de cento e oitenta, sem direção hidráulica. Está a comprar um automóvel forte, robusto — dissera o vendedor cuja gravata possuía resquícios de bolo de chocolate —, não vai se arrepender. Casimiro liga o sedan e fica a escutar o barulho desengonçado do motor a benzina. Algumas peças desencaixadas trepidam, ele se sente dentro de uma discoteca dos 1970. Desliga o carro. Tira a chave da ignição. O sedan que Casimiro comprou é verde.

— P. R. Cunha