Preparação literária em hipóteses (parte II)

Ao simplificarmos a equação: (escritor = pessoa que escreve), percebemos as multiplicações de categorias relacionadas. Há quem escreva por hobby, para um desabafo terapêutico, há quem escreva ficção, outros preferem material biográfico, história, sociologia, antropologia etc. etc.

Há também os que, por motivos variados, não conseguem/podem escrever, e os que podem/conseguem escrever mas se sentem muito culpados por isso — eu cá tenho tempo, disposição, estabilidade para me dedicar à literatura, enquanto outros tantos não têm esse mesmo, digamos, «luxo».

O mundo do lado de fora pode ser perverso e hostil. Se a pessoa que escreve não conseguir desenvolver certos mecanismos de defesa, terá de lidar com crises paradoxais.

O escritor que para de escrever (primordialmente) para si mesmo e começa a trabalhar para os leitores, para abraçar o planeta inteiro, para resolver os defeitos sociais, desapontar-se-á. «Não era bem isso o que eu estava esperando», diz-se.

Acontece que todas as dificuldades internas e externas acompanham o nômade durante a viagem. A jornada por si só não é uma fuga ou um antídoto contra os transtornos de ninguém. No decorrer do percurso, novos desafios surgirão, coisas que nunca imaginávamos que pudessem acontecer irão acontecer. 

A vida não deixa de existir só porque viajamos.

E o escritor é uma espécie de viajante.

Alguns gostam de acreditar que o escritor leva a melhor existência possível. E se a pessoa que escreve deixar-se iludir pela miragem da bonança, ela dará entrevistas, ou apresentar-se-á num encontro literário com discursos românticos sobre como escrever é uma prática apenas prazerosa, edificante, sem efeitos colaterais.

Mas um médico que resolvera fazer medicina para salvar a vida das pessoas cedo ou tarde precisará de encarar a morte, o paciente que não vai se recuperar, o fracasso.

São acordos tácitos que assinamos enquanto temos os pulmões a respirar, o cérebro funcionando, o coração a bater.

— P. R. Cunha

Grande piscina vazia

Total ausência de instrumentos convencionais. Nada plugado. Softwares, hardwares. Sentar para fazer música apenas quando surgir qualquer inspiração — difícil de definir «inspiração». Força motriz que impele/empurra/impulsiona. Motivo(s). Cansado de todas os trejeitos de músico: o músico perturbado, o músico avant-garde, o músico com a guitarra nos ombros a fazer pose de músico com a guitarra nos ombros, o músico que tem algo a contar, o músico que não tem nada a contar. Mexer nos teclados, perceber os sons que saem ao mexer nos teclados. Registros, consequências. Algo aproximadamente orgânico realizado numa máquina inorgânica. Contradizer-se, fechar-se, abrir-se. Distanciamentos. Música sem assinatura humana. O homem (i.e.: «eu») programa a música, a música segue por si mesma. Loopings, repetições, monotonias. Fumar um atabacado durante a gravação. Sentir o sabor do atabacado. Colagens. Recomeços. Inícios falsos. Falsos finais. Ser-não-ser músico. Músico falso. Músico ciborgue. Samples, recortes. Atmosferas. Neve. Emoções modernas. O vazio. A destruição. Amnésias. Ambient techno. Sem linguagem pré-definida. Reverberações, ecos. Beijar a Jessy antes de publicar a grande piscina vazia. Alienação: fuga, esconderijo. Refúgios.

— P. R. Cunha


Preparação literária em hipóteses (parte I)

Monólogo sem fins doutrinadores apresentado aos alunos de escrita criativa (turma do primeiro semestre de 2020).


A verdade é que, como já foi dito, não existe receita infalível para se começar a escrever literatura. Cada um terá de decidir por si mesmo quais ingredientes servem e quais precisam de ser descartados. 

Somos esponjas adiposas que absorvem (às vezes por osmose) uma variedade absurda de informações e numa altura devemos selecioná-las com esmero. 

Aqui o método tentativa-e-erro vem bem a calhar.

Estudos neurológicos demonstram que o cérebro humano tem certa predileção por repetições. Elas ajudam a economizar energia encefálica. Talvez seja por isso que pessoas criativas tenham hábitos de trabalho rotineiros. É uma forma de dizer aos neurônios: certo, sabemos do que se trata, vamos logo ao que interessa.

Alguns preferem chamar isso de «modo automático».

Antes de escrever, preparo o meu café e certifico-me se estou a usar a mesma chávena de sempre. A folha de papel precisa de estar posicionada mais ou menos no mesmo quadrante da mesa. As canetas (azul, vermelha, preta e verde) descansam por perto. Se estou relaxado, coloco o jazz e as palavras como que dançam sobre a superfície embranquecida da página.

Haruki Murakami gosta de se perder enquanto corredor de fundo. Caminha durante horas. Prepara o corpo, prepara o próximo romance.

O tabaco matinal era o gatilho de escritores como Clarice Lispector, Bowles, Patricia Highsmith, Onetti, Beckett, Beauvoir, Sontag.

O dramaturgo Tom Stoppard gosta de assistir a filmes de terror antes de trabalhar.

John Cheever gritava impropérios para toda a vizinhança ouvir.

Arthur Miller entregava-se à imagem de um homem andando com barra de ferro na mão durante tempestade com relâmpagos.

Benjamin Britten tomava banhos frios.

São caprichos curiosos, até um bocadinho extravagantes, mas absolutamente praticáveis. Importante manter a simplicidade nos hábitos, pois, como escrevera um antigo, «nunca se sabe o dia de amanhã». A nossa realidade é escrava da entropia, tudo se encaminha à desordem. Se adotamos rotinas complexas, algo de estranho pode (e vai) acontecer no meio do caminho e não conseguiremos mantê-las da maneira como imaginávamos.

Estabelecer contextos adequados às divagações — quando a mente se perde ao longe, e tudo parece fluir como mágica. Mas não é mágica, é treino. E sossego. E, sabemos, o maior inimigo do sossego são os meios de comunicação portáteis: telemóveis, computadores, relógios conectados à rede… a lista é enorme.

Sentamo-nos para escrever. O telefone toca. Tudo está perdido, acreditem. Quando percebemos a tolice que acabamos de cometer, lá se foram preciosas horas de trabalho contínuo.

— P. R. Cunha

Relacionamento de longo prazo

Por não possuir televisão os livros se tornaram minhas fontes primordiais de informações e entretenimentos. Pois, sim, eu cá misturo lazer e trabalho sem qualquer tipo de pudor. Leio para aprender, leio para me distrair, leio para lembrar, leio para esquecer. Mas talvez isso não seja justo com as brochuras, já que os livros ficam sobrecarregados diante das demandas deste bípede insaciável que vos escreve. Por vezes cansamos da cara um do outro, saturados. Daí fico um bom tempo sem pegar num livro, e como não sei fazer muita coisa nesta vida além de ler, os meus dias se tornam tão vazios quanto um desfiladeiro lunar (estou a pensar na bacia do Polo Sul-Aitken, no lado obscuro da Lua, uma enorme cratera com aproximadamente 13 quilômetros de profundidade). Até que aos pouquinhos os livros e eu acertamos as contas, sentimos as saudades, assinamos os acordos de cessar-fogo, perdoamo-nos, prometemos ter mais prudência desta vez… e o ciclo recomeça.

— P. R. Cunha

 

PRCUNHAbibliotecalivros
Neblinas da minha biblioteca (Brasília, 12 de maio)

 

Sonhos intranquilos

As corujas: elas atravessavam a fresta da janela e começavam a mordiscar o meu cérebro — que parecia-lhes um bocado apetitoso. Dias depois, era terça-feira, li que um monge do Monastério dos Sírios tivera sonho parecido, mas com o pássaro urutau, a ave-fantasma.

— P. R. Cunha

A culpa é do jazz

Se a cafeína e o tabaco se misturam
no céu da minha boca
— a culpa é do jazz
Se me perco em devaneios
— a culpa é do jazz
Se feito um louco converso
com o trompete de Miles Davis
— a culpa é do jazz
Se me apaixono
— a culpa é do jazz
Se te odeio
— a culpa é do jazz
Se sonho com uma época
perdida & desiludida
— a culpa é do jazz
Se ilustro um requiem
para o meu desespero
— a culpa é do jazz
E se escrevo estas linhas
— a culpa é sempre
do jazz.

— P. R. Cunha

Carta eletrônica a mim mesmo

De: P. R. Cunha
Para: P. R. Cunha
Data: 8 de maio de 2020, às 9:54
Assunto: Carta eletrônica a mim mesmo


Querido Eu,

Há tempos que não nos correspondíamos desta maneira. Lembras quando tu dizias que era coisa de maluco, de quem perdera os botões? Pois cá estamos novamente. Mas preciso explicar de uma vez por todas que se recorro a estes métodos esquizofrênicos é por nobre causa. Para o teu bem, para o meu bem… (pausa dramática) para o nosso bem.

Gostava de avaliar o que se passa contigo. Nós dois sabemos que não és a pessoa mais inteligente que existe, porém tampouco és um tolo. Longe disso. Tens aí na tua massa encefálica conteúdo o bastante para tomares as decisões sensatas. 

Então por que diabos não tomas as decisões sensatas?

Por exemplo, já lá se vão quase doze meses de árduas pesquisas para o teu, como tu gostas de chamá-lo?, «projetinho». Escolheste o tema adequado, a personagem principal está pronta, a linha narrativa se mostra impecável, sabes para onde ir, como ir, quando ir.

E o que estou a ver? Estou a ver um gajo à deriva escrevendo digressões sem rumo num sítio web, ou a tocar instrumentos exóticos em músicas exóticas que nunca dão em nada, ou a fumar o cigarrinho de palha à tarde enquanto entorna um qualquer líquido etílico, ou a jogar o xadrez contra o computador a ver até que altura consegue competir com a máquina sem perder as estribeiras (chegaste ao nível 15, uau, muitos parabéns, que feito, hein?).

Vejo tudo isso e vejo as pastas com todas aquelas centenas, milhares de folhas do teu próximo livro, à espera do autor, à espera de serem devidamente colocadas em prática.

Falo a sério, gostava mesmo de avaliar o que se passa contigo.

Dizes para toda a gente: sou escritor, estou a trabalhar numa obra edificante, o livro mais significativo que alguma vez sonhei em escrever. Dizes essas lorotas todas enquanto o tal projetinho sufoca nas tuas gavetas. Achas isso bonito? Sentes orgulho do circo que estás a montar?

Que tal tomares um bocadinho de vergonha na cara?

Tem foco, tem linearidade no teu ofício, não te esqueças de que és um tipo que escreve, esta é a tua atividade primordial, é por ela que tu respiras, faz tudo pela escrita, não te percas em procrastinações sem pé nem cabeça.

Faz-nos este favor: levanta e termina o livro.

Do sempre, sempre teu,

— P. R. Cunha