Vigas enferrujadas

O bom engenheiro construirá casas e apartamentos que não caem, o médico competente cura doenças, o motorista que não causa avarias nem infringe as leis do trânsito é considerado um ótimo motorista. Atividades objetivas com resultados objetivos. Ótimo. Mas a mesma linha de raciocínio parece não funcionar com as chamadas criações artísticas — que muitas vezes precisam de ser analisadas com lentes individuais. 

O imbróglio torna-se ainda mais problemático quando se coloca dinheiro público sobre a mesa.

Determinado artista é contratado pela prefeitura de certa cidade para montar escultura na orla marítima. Tudo é feito às surdinas. Um dia transeunte está a praticar o cooper à beira do oceano e ali não há nada, no outro dia o mesmo transeunte se depara com vigas de aço cor de barro, uma placa que homenageia artista cujo nome ele nunca ouvira falar. A placa também está assinada pelo senhor prefeito da cidade, ao passo que transeunte pensa: esta coisa aqui foi construída com o meu dinheiro.

Paga-se bem caro para se viver em estruturas que não caem, para ser submetido a cirurgias que salvam vidas, ou mesmo para se viajar de avião sem a angústia da queda. São investimentos com efeitos óbvios. Mas não se quer engolir «obra de arte» sem ser consultado. E se pararmos para pensar, isso até que faz sentido.

Gostava que o leitor pensasse num filme ruim. Então eu lhe digo: abri um cinema onde só passa esse filme ruim, em todas as salas, todas as sessões. Quase duas horas de imagens aborrecidas, enredos que não lhe apetecem, atuações grotescas. Você provavelmente não iria querer frequentar o meu cinema. Direito seu. Agora imagine que você seja obrigado a assistir ao filme ruim, que não tenha mesmo outra escolha — e ainda precisa de pagar pelo bilhete…

Transeunte que praticava o cooper matinal com o oceano ao fundo terá de lidar com as estranhas vigas de aço, com a placa da prefeitura, com o orçamento de 300 mil dinheiros que saíra do bolso de toda a gente. Porque, como se sabe, quando a arte se retira do âmbito privado para flertar com grandezas públicas ela se torna outra coisa: um prédio que cai.

— P. R. Cunha

Comboios

Estou à estação e escuto o apito do comboio. Preciso de pegar o comboio, porque do contrário chegar-me-ei atrasado. E quando chego atrasado toda a gente fica com as raivas: ora!, chegaste novamente atrasado, é bem típico de tua parte etc. Acontece que começo a aperceber que o comboio não vai parar. Ele apita, mas não desacelera. Eu tenho então de correr. Eu corro, canso-me à beça, estou completamente encharcado de suor quando pulo no comboio e tento me segurar nas ferragens do último vagão. Às vezes não consigo agarrar-me direitinho e caio. E o comboio vai-se embora.

— P. R. Cunha

 

Manhãs em Sobradinho (casa dos meus avós)

Diz-se primeiro Brasil: de aí pode-se imaginar: país do futuro, país do passado, terra sem terramoto, ditadura(s), corrupção, Jorge Ben: e neste imenso Portugal (Evaldo Cabral de Mello), uma cidade: e nessa cidade uma pequena região administrativa: e nessa região administrativa uma casa construída à volta de jardim, campo de futebol, área de entretenimento aquático: e dessa casa um quartinho com mesa, cama, varanda, rádio de pilha que pertencera ao meu avô: e nesse rádio João Gilberto canta Zingaro (Vou colecionar mais um soneto / Outro retrato em branco e preto / A maltratar meu coração): à mesa, ouvindo João Gilberto, está uma pessoa com uma caneta: eu.

— P. R. Cunha


berenice&edyl

Intercâmbios (II) e outro relato fugaz

Nossa relação pai-e-filho sempre foi um pouco conturbada. Ele se dava muito bem com a mãe. Eu trabalhava como piloto de aeronaves comerciais, de forma que quase nunca podia dar a atenção que a minha família merecia, pois vivia sobre as nuvens. E quando eu voltava para casa era tudo estranho. Bom, pelo menos para mim era estranho. Ali estavam a minha esposa e o meu filho a ter uma existência de cumplicidade enquanto eu me sentia um completo estrangeiro. A gente se abraçava, conversava, mas não era a mesma coisa. Até que cheguei ao ponto fulminante, regredi às fases primitivas do comportamento humano, passei a sentir um ciúmes do cão daquela intimidade, comecei a ter toda a sorte de neuroses, a querer marcar território, a impor as minhas regras, a mostrar quem estava no comando daquela aeronave residencial. A situação tornara-se insuportavelmente ridícula.

(…)

Na escola eu me apaixonei por uma menina chamada Jéssica. Ela era muito bonita e agradável, gostava dos rapazes que jogavam futebol. Acontece que nunca fui de jogar futebol. Eu me refugiava dentro da biblioteca, e tinha lá meus livros, e às vezes a Jéssica entrava sozinha ou com alguma amiga, e numa dessas vezes ela ficou a procurar uma mesa vazia, e nenhuma mesa estava vazia, e daí ela sentou-se à minha mesa, e sorriu o sorriso mais encantador que algum dia eu tinha visto, e depois a Jéssica voltou as atenções para o dever de matemática. Eu tentava observá-la discretamente, de soslaio, como se diz. Ela terminou os exercícios em menos de dez minutos, levantou-se e disse com delicadeza: tchau, obrigada pela mesa. Durante anos após o ocorrido — o qual passei a chamar de «o evento da biblioteca» — não conseguia parar de pensar em todas as frases que deveria ter dito para a Jéssica.

— P. R. Cunha

Intercâmbios

Depois que a minha esposa morreu, fiquei sozinho com o Leandro, nosso único filho. Talvez eu estivesse a desenvolver certos mecanismos de defesa contra o luto, sei lá, contra as dores da saudade, negação, mas a verdade é que sempre soube que fui um pai intransigente pacas. Ou seria melhor escrever «restrito»? Pai restrito, pai intransigente, pai rigoroso. O que eu quero dizer é que pegava muito no pé dele. Leandro, abaixa a música; Leandro, por que cargas tu não levantas a droga da tampa antes de fazer o xixi; Leandro, fecha a sacola do pão; Leandro, para de tocar bateria até tarde. Ele nunca reclamou. Sempre me obedeceu, jamais fez cara feia ou algo do tipo, apenas dizia: «Tá bom, papai, vou abaixar o volume; tá bom, papai, da próxima vez prometo levantar a tampa; tá bom, papai, estou a fechar a sacola do pão…» para uma semana depois voltar a repetir o mesmo roteiro de traquinagens. E eu cá pensava com os meus botões: o menino precisa urgentemente de ir morar longe a ver se aprende algo sobre a vida etc. Agora o Leandro está lá em cima a fazer as malas porque vai passar uns tempos na Nova Zelândia com a namorada. E nem preciso dizer que sentirei uma falta absurdas de todas essas coisas das quais eu reclamava, das picuinhas, das peculiaridades que tornam o meu filho quem ele é.

— P. R. Cunha

Sr. Safranski

Uma vez eu olhei para a Rita e disse: Rita, estou entediado, gostava que fizéssemos alguma coisa, algum bem para a humanidade, sei lá, nós nunca fizemos bem nenhum à humanidade, raramente saímos desta casa etc. Naquela altura, estávamos casados há quinze anos. Rita me perguntou: e que tipo de bem pretendes fazer, bonitão? O «bonitão» foi um sarcasmo completamente desnecessário da parte da Rita, que gosta imenso de mexer com a minha autoestima, como naquela vez em que ela quase juntou o polegar com o indicador quando uma amiga perguntara a ela o tamanho do meu pênis. Parece-me claro que o meu pênis não é desse tamaninho, eu disse. As duas riram-se. Mas daí a Rita me questionara sobre que tipo de bem eu tinha na cabeça, e a verdade é que não tinha mesmo nenhum bem na cabeça, assim, nenhum de forma específica. Até que me senti pressionado pelo olhar da Rita, olhar inquisidor, malévolo, penetrante. Dois jamelões negros à espera do meu plano, da minha ideia de «bem para a humanidade». O Francisco não faz a ideia, né?, do tipo de bem que quer exercer, ela me disse. E como eu já estava mesmo por aqui, farto daqueles jamelões do diabo, disse que tinha exatamente a ideia, que sempre a tive, e essa ideia era… ir ao Centro de Atendimento ao Idoso (CAI, numa das siglas mais indecorosas que há por aí), cuidar de alguns velhinhos, depois sair do CAI um sujeito melhor, com a sensação de que, afinal, não sou assim tão egoísta como os meus amigos da faculdade de engenharia costumavam dizer. Ir, portanto, ao CAI, eu disse à Rita, vamos ir ao CAI e cuidar dos idosos. A Rita começou a segurar a perna direita, e parecia que ia começar a chorar, ela gritava enquanto dizia: é melhor ires sozinho, Frans, estou cá com uma dorzinha com a qual não estou podendo. Ela sempre faz isso, pensei, esse teatro ridículo — dor nas juntas, trombose, aneurisma, pedra nos rins, cancro, já escutei de tudo. Acontece que eu estava realmente disposto a cuidar de um ancião, de repente até ouvir algumas anedotas dos outros tempos, percebem?, aprender com a experiência alheia. Quando cheguei ao CAI disse para a recepcionista que queria cuidar de idosos. Ela disse: idosos, de qual idoso o senhor quer cuidar? Eu disse: ora, qualquer um que esteja a se sentir solitário, abandonado, que queira conversar, qualquer um mesmo, não tenho preferência, quero fazer o bem. A recepcionista ficou me olhando com uma terrível cara de paisagem medieval. Ela tirou o telefone do gancho, discou uns números e de vez em quando virava-se para mim enquanto balbuciava com alguém do outro lado da linha. Comecei a refletir que aquilo tudo devia soar muito estranho para a recepcionista do CAI, alguém aparece como que do nada, pede para cuidar de um idoso, qualquer idoso. Muito suspeito. Ela colocou o telefone no gancho e disse que hoje eu podia cuidar do sr. Safranski. Pensei com os meus botões: Safranski!, com um nome desses, deve ter muita história. Eu disse: cuidarei do sr. Safranski. A recepcionista do CAI mostrou-me um formulário e apontava com os dedos — endereço, identidade, ocupação, depois assine aqui, e aqui, e aqui também. Confesso que aquela burocracia toda estava me dando nos nervos, mas racionalizei: se tenho de preencher esse formulário, é porque o sr. Safranski deve mesmo ser gente importante. Entreguei para a recepcionista a folha com os meus dados. Ela chamou um dos voluntários do CAI, certo jovem com calça jeans rasgada que levou-me até ao quarto do sr. Safranski. O velho estava deitado, sem mexer um músculo, nem mesmo as pálpebras, a televisão num volume perturbador. Antes de o voluntário do CAI se retirar, perguntei a ele se o sr. Safranski não estaria morto. O voluntário deu uma rápida olhada para dentro do quarto, como se averiguasse se o banheiro público estava ocupado, e disse: não, o sr. Safranski ainda vive. Aproximei-me da cama dele e disse: sr. Safranski, eu me chamo Francisco, estou aqui para cuidar do senhor. O velho continuava sem se mexer. Sr. Safranski?, eu disse. E nada. Decidi esticar o braço para encostar no velho e ele desviou a minha mão quando estava prestes a tocá-lo: não me toque!, ele gritou, não me toque!, não me toque! É claro que fiquei assustadíssimo. Afastei-me e perguntei se ele precisava de alguma coisa. O sr. Safranski disse que só estava ali porque os filhos dele tinham ido embora para a Argentina. Eu disse: puxa vida, eu sinto muito. Sente porra nenhuma, ele disse. Velho mal-criado, pensei, como pode? Não precisa me tratar com tanto azedume, eu disse. Não pedi para que viesse, ele disse. Bom, isto é certinho, ele não pediu para que eu viesse. Os meus filhos me abandonaram, ele disse novamente, foram morar para o Uruguai. Uruguai?, perguntei. É, Uruguai, ele disse. Ficamos a assistir à televisão sem trocar palavra. Às vezes o sr. Safranski fazia que ia se levantar da cama, desistia, e dizia: meus filhos, aqueles idiotas, me abandonaram, foram morar em Inglaterra. Era sempre um país diferente. No fim da tarde, outro voluntário do CAI bateu à porta e falou que o horário de visitação havia terminado. Tentei me despedir do sr. Safranski com um abraço. Mas ele fez uns gestos esquisitos com as mãos, como se afastasse uns mosquitos invisíveis: só quero que diga para os meus filhos que amanhã não pretendo receber visitas… Sr. Safranski.

— P. R. Cunha

Ящик (Yashchik [box/caixa])

PORTUGUÊS

Apresento-lhes Ящик (Yashchik):

Voz, guitarra, sintetizadores / P. R. Cunha
Baixo / Vasily Vasilievich
Sintetizadores / Rafael Mnstr
Bateria / Kalogeropoulos Iraklis

Sítio web: www.yashchik.bandcamp.com

Gênero: sovietwave, post-punk, synth-pop, krautrock

Descrição: às vezes, um auditório vazio soa como um túmulo vazio.

ENGLISH

I introduce you Ящик (Yashchik):

Vocal, guitar, synths / P. R. Cunha
Bass / Vasily Vasilievich
Synths / Rafael Mnstr
Drums / Kalogeropoulos Iraklis

Website: www.yashchik.bandcamp.com

Genre: sovietwave, post-punk, synth-pop, krautrock

Description: sometimes an empty auditorium sounds like an empty grave.


РУССКИЙ

Я представляю вам группу Ящик:

Вокалист, электрогитара, синтезаторы / П. Р. Кунья
Бас / Василий Васильевич
Синтезаторы / Рафаэль Мнстр
Барабаны / Калогеропулос Ираклис

Интернет сайт: www.yashchik.bandcamp.com

Музыкальный жанр: совет-вейв, пост-панк, синти-поп, краутрок

Описание: иногда пустая аудитория звучит как пустая могила.


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