Carta a um filho que ainda não tenho (para o caso de ele se tornar escritor)

Filho, ontem me disseste que queres ser escritor também. Comoveste-me com tal decisão. Agora, se me permites, gostava de compartilhar contigo alguns pormenores sobre esta fazenda que, sim, por vezes pode se mostrar ardilosa, mas é também o sítio mais agradável e encantador para criares morada. Suponhamos que tu tenhas uma ideia. Tens uma ideia, um esboço, um embrião, organismo unicelular. É tudo ainda muito cru, muito simples. Então tu tens uma ideia e não sabes se esta ideia transformar-se-á em conto, novela, romance. Estás um bocado esperançoso, entusiasmado, crês que a coisa pode caminhar direitinho. Alguns dias tu acreditas que és grande, magnífico, um escritor de primeira linha, candidato ao Nobel, quiçá o melhor escritor que já caminhara neste planeta; em tantos e tantos outros dias tu chegas à conclusão de que não vales um vintém, de que o que estás a escrever na verdade não caminha direitinho, chegas à conclusão de que perderas tempo, de que há livros de mais no mundo etc. Estás sufocado. Compreendo-te. Essa gangorra é absolutamente normal. A tempestade passa. E a melhor maneira de enfrentá-la é continuares escrevendo. Um relacionamento acaba, continua a escrever; foste demitido do emprego, continua a escrever; alguém morreu no meio do caminho, depressão/melancolia, o teu time não vai bem na NFL, a casa do teu amigo foi hipotecada, a Coreia do Norte declarou guerra à Coreia do Sul — não importa, continua a escrever. Não desistas. Muitas pessoas talentosas deixam de publicar grandes obras porque não têm perseverança, continuidade, porque não terminam. O talento não vale nada se o escritor não consegue colocá-lo em prática. Sejas, portanto, meticuloso, persistente, corajoso, cria rotinas, sai, vê, viaja e, for god’s sake!, termina. Se depois dessas batalhas sangrentas, desses dias/meses/anos agridoces, de algumas paranóias, de inquietações diversas, se depois disso ainda continuares com vontade de escrever, com vontade de começar tudo de novo, de passar por cada uma dessas etapas novamente… então, filho, podes ter a certeza: escolheste o ofício certo para a tua vida. Do sempre, sempre teu,

— P. R. Cunha

Só mais um bocadinho a respeito dos escritores que não escrevem

Este é o Ambrósio. Ele é um escritor que não escreve. O Ambrósio gosta de levantar cedo, tomar banho, preparar o pequeno-almoço, levar o café até à escrivaninha, coloca o jazz para tocar, olha pela janela, observa os transeuntes que caminham aleatoriamente, os autocarros que param ao semáforo, os motociclistas que serpenteiam os outros automóveis, sente o cheiro de pão com manteiga que vem do apartamento do quinto andar, escuta o murmúrio da estação de comboios, sente saudades de alguém que foi morrer algures. O Ambrósio conta para toda a gente, com ares de segredo, que está trabalhando num romance muito complexo, algo que de certeza vai mudar a história da literatura, ele diz, romance épico, grandioso, ele diz. Mas a verdade é que o Ambrósio não escreveu uma linha sequer desse romance. Mesmo assim, vai esperar ser tratado como se tivesse já escrito um sem-número de páginas com frases & parágrafos que deixariam o David Foster Wallace incrédulo diante de tanta genialidade. O Ambrósio lê bastante, faz muitos planos, gráficos, projetos, estipula prazos — mas não escreve. Talvez porque o cérebro do Ambrósio esteja lotado, cheio de ideias dos outros… Na semana passada, por exemplo, ele comprou um Moleskine edição limitada, capa luxuosa (impermeável), folhas cor de creme pautadas com tinta especial desenvolvida por cientistas alemães. O Moleskine custou 300 dinheiros e o Ambrósio nem cogita a possibilidade de danificar esta preciosidade com rabiscos e rascunhos. Afinal, o Ambrósio não é louco. Ambrósio não escreve.

— P. R. Cunha