devaneios da própria máquina de escrever (episódio #48)

eis o relato de um «milagre natalício». na manhã do dia 24 o meu amigo ortega telefonou-me & disse: francisco, sei que não tens sítio para ir este natal, então vou te levar à festa de uns conhecidos. quando chegamos à festa, ortega me apresentou a duas senhoritas. eu disse: nada mau, nada mau mesmo. mas há sempre qualquer coisa. um sujeito meia-idade aproximou-se & pediu ao garçom duas doses de johnnie walker, outras três de gordon’s. ele queria impressionar. as senhoritas levaram as mãos aos lábios & ao próprio coração: senhor, nós nem bebemos. meia-idade disse: são para mim. todas as doses?, perguntei. sim, todas, ele disse. a atmosfera, obviamente, ficou pesada como um búfalo, mas permanecemos ali, acho que à guisa de decoro. as doses chegaram, meia-idade colocara-as em cima da mesa, perto de uma taça de vinho cheia. ele tomou um gole de johnnie walker & disse: eu gosto mesmo é de ler filosofia, história das guerras (pausa), literatura ficcional não me agrada. daí ele começou a vomitar umas datas aleatórias, confundia voltaire com rousseau, achava que nietzsche tinha morrido durante a segunda guerra mundial, fez apologia aos combates nas trincheiras, garantiu que não se fazia mais soldado como antigamente. as moças estavam muito aborrecidas & olhavam para mim & pareciam dizer: francisco, faz alguma coisa, isto aqui está um inferno, isto aqui não dá & tals. mas eu não sabia o que fazer para livrar-nos daquele sujeito. até que o espírito natalício arquitetara o milagre. meia-idade estava prestes a começar extenso monólogo sobre a quantidade de livros que lera em 2019 quando virou-se para pegar outra dose de johnnie walker (ou de gordon’s, já não me lembro) & esbarrou o braço na taça de vinho. meia-idade gritou: merda! o vinho sujara toda a roupa branca dele. segurei as senhoritas pelo braço & disse: senhor, não se preocupe, iremos buscar ajuda imediatamente, fique bem aí onde o senhor está, não se mexa em hipótese alguma &tc. &tc.

— p. r. cunha

Digressões sabáticas sobre: encontros de turma

Ir a encontros de turma é uma experiência aterradora. Ali estão os seres humanos com quem você estudou na juventude, e que na época eram apenas crianças bonitinhas com ambições engrandecedoras — i.e. salvar o mundo do aquecimento global —, mas hoje têm barba, varizes, cabelos brancos, falam de um jeito estranho, halitose, fumam à beça, e tomam café a cada cinco minutos. Logo você percebe quem se deu bem (o estilo da roupa, geralmente com relógio de ouro no pulso [Rolex etc.], o perfume, o jeito de segurar a taça de vinho, o rosto de desdém [asco, desprezo, por aí fora] quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico), e quem, digamos, não se deu nada bem (o desalinho, a camisa estampada, o desodorante, muitas bijuterias, o batom vermelho de mais à ocasião, a barriga de chopp, a alegria no rosto quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico). A verdade é que lidar com o sucesso alheio não é fácil. Alguém escolhera a profissão que você tanto queria e esse alguém hoje exerce um cargo incrível, tem dois filhos, uma esposa maravilhosa, mora em Londres, enquanto você ainda vive com a mamã e brinca de ser artista incompreendido. Você então bebe demasiado para esquecer que é — aos olhos dos seus colegas de turma — um fracassado. Você pensa em ligar para o terapeuta que a sua irmã lhe aconselhara no início do ano. Você diz consigo mesmo: assim que sair deste encontro perturbador, vou ligar para o terapeuta da minha irmã. Ser mais «pé-no-chão», procurar um emprego de verdade, largar das asas da mamã. Daí você lembra que tem trinta e oito anos, ou quarenta e dois anos. Começa a sentir a exaustão da empreitada. E é justamente aí, no momento em que você está a se sentir mais vulnerável, mais fragilizado, que o gajo com a profissão que você tanto queria, que o gajo que tem a mulher boazuda, os filhos prodígios, a casa londrina, é justamente aí que esse belíssimo espécime da raça Executivus prosperandus oferece-lhe uma vaga de estagiário para o almoxarifado.

— P. R. Cunha

Lourenço — notas para um personagem invisível

O Lourenço nos ameaça com suas sátiras, palavras mordazes, estranha aparência, queixumes, frases desconcertantes, dores, esclarecimentos que (muitas vezes) não queremos esclarecer, longas divagações — e outros pormenores inamistosos.

As coisas mais necessárias na vida do Lourenço são: o papel, a caneta, a água, a máquina de escrever (de preferência uma Underwood [com alfabeto cirílico]), o gim, a vodca, os filmes do Tarkovski, os filmes do Kubrick (vide Barry Lyndon) os livros do Pynchon, teatro (aos sábados), o pão de centeio, a uva, a indumentária discreta, os beijos de uma certa donzela.

Coisas prejudiciais ao Lourenço: calor, esquecimento, fúria, ansiedade, levantar sem ter vontade de levantar, fogo, chorar de mais, poluição sonora, poluição visual, café frio, melancolia (quando prolongada), poluição atmosférica, bebida fermentada, aglomerado de seres humanos, ganhar livros do Paulo Coelho (e/ou do Augusto Cury).

Profissões já exercidas pelo Lourenço (artes, ofícios & ciências): jardineiro, eletricista, escritor, motorista de autocarro, bartender, dramaturgo, assistente técnico de telecomputadores, maquinista, telefonista, cozinheiro, copista, datilógrafo (durante uma semana), construtor, jornalista, massagista, professor de geografia, torneiro mecânico.

Parentes do Lourenço: noiva, pai, primo, prima, irmão, mãe, tia, avô, avó, sobrinha, sogra, nora, genro, sogro, irmã, cunhado, tio.

Epítetos do Lourenço (lista à parte): zangado, leitor, fofoqueiro, bandido, zarolho, fornicador, imprudente, letrista, poeta-brigão, malvado, desgostoso, tagarela, sorumbático, irrisório, sarcástico, desolado, ferido, ambulante, mesquinho, trambiqueiro, traquinas, aflito, desamparado, prevenido, trocista.

— P. R. Cunha