O boteco

Esta peça obscura foi escrita para ser apresentada a um público formado exclusivamente por enfermeiras aposentadas de Brasília, Distrito Federal.

PERSONAGENS:
Chico – funcionário, trinta e poucos anos.
Gonçalves – chefe, cinquenta e poucos anos.

Uma daquelas salas de empresas médias (à moda «The office», Rick Gervais) em que os funcionários estão ilhados dentro de caixas divididas por compartimentos destacáveis com superfície atapetada na qual, com a ajuda de tachinhas, podem ser grudadas miudezas da vida humana — retratos do bebê, da vovó, do Rivaldo (cão Yorkshire que, depois de um matrimônio malsucedido, passa uma semana na casa dele, e depois outra semana na casa dela). Etc.

Inverno.
Dia.

Chico jogado na cadeira, descanso de tela do computador a rodar num looping entediante, gravata desalinhada, camisa branca com uma enorme mancha de café, paletó sobre a mesa.

Gonçalves vestido a rigor, terno impecável, o sapato a refletir a luz fluorescente da sala, caminha com desenvoltura. Aproxima-se de Chico e mostra-lhe um frasco de plástico com substância amarelada.

GONÇALVES
Andou bebendo

CHICO
(Assusta-se com a presença do chefe, tenta se ajeitar na cadeira, sem sucesso)
Como é
o quê

GONÇALVES
Perguntei se
(Dá duas batidinhas no pote)
andou bebendo
Chico

CHICO
Tive sono agitado
só isso

GONÇALVES
O teste rotineiro
de urina detectou
álcool
ou melhor
uso abusivo de álcool
Pode me explicar isso

CHICO
(Boceja)
Posso

GONÇALVES
Pois não

CHICO
(Inclina a cadeira para trás, coloca os pés sobre a mesa)
Uma garota
sabe
uma garota daquelas
estou sentado e ela se aproxima
Quero um drinque
ela diz
O cavalheiro vai me oferecer
um drinque ou não vai
E então lhe ofereço um drinque
e toda a gente sabe que uma dama
não pode tomar um trago
assim
sozinha
De aí pedi um para mim também
(Pausa)

GONÇALVES
Prossiga

CHICO
Uma mulher estonteante
precisava de ver
modelo
já fez comercial da C&A
Riachuelo
Bebemos aproximadamente
vejamos
(Faz o cálculo de cabeça, conta nos dedos, faltam-lhe dedos para chegar à aritmética correta)
15 a 17 doses
ao longo de
(Faz novamente as contas, aluado)
ao longo de seis horas
Minto!
sete horas no bar
duas horas num hotel

GONÇALVES
Motel?

CHICO
Hotel

GONÇALVES
Prossiga

CHICO
Ressaca leve
estou habituado
Duas três vezes por semana
sair
tomar um trago
conhecer damas
quem sabe dormir
com essas damas
num hotel

GONÇALVES
Motel?

CHICO
(Pausadamente)
Ho-tel

GONÇALVES
Prossiga

CHICO
Criamos um padrão
percebe
e depois
como você deve saber
«old habits die hard»

GONÇALVES
Como é
homem

CHICO
Velhos hábitos
companheiro
velhos hábitos
nos perseguem ao
túmulo

GONÇALVES
(Resignado)
Sei como é

CHICO
Meus colegas
(Aponta para os outros funcionários na sala, todos a trabalhar, compenetrados, olhos fixos no ecrã do computador)
meus colegas já me disseram
Chico Chico Chico
que estilo de vida é esse
que estilo de vida é esse
meu rapaz
está prejudicado

GONÇALVES
E não acha
que esteja

CHICO
O quê

GONÇALVES
(Puxa uma cadeira, senta-se)
Prejudicado, ora, essa

CHICO
De forma alguma
padrão de consumo alcóolico
de acordo com as minhas
necessidades
Trabalhar aqui
percebe
não é fácil

GONÇALVES
(Levanta o frasco, lê o que está escrito no rótulo)
Alcoolemia de 1,4 g/L
necessidade de intervenção psiquiátrica
consumo pesado de álcool
possível alcoolismo
quinto teste reprovado
em menos de um mês

CHICO
(Coça a cabeça)
A ciência não explica nada

GONÇALVES
Como é

CHICO
A ciência
testes
esse frasquinho
com o meu xixi dentro
isso não quer dizer nada
Bebo socialmente
garanto-lhe

GONÇALVES
Chama 15 doses
de beber socialmente

CHICO
(Gira a cadeira, tal criança)
Chamo
Estava a beber com
uma outra pessoa
não estava
ou seja
evento social
socialmente

GONÇALVES
Chico

CHICO
Gonçalves

GONÇALVES
Não me faça perder
a paciência

CHICO
Jamais

GONÇALVES
Agora
diga-me lá uma coisa

CHICO
O que quiser

GONÇALVES
Esse boteco aí

CHICO
Sim

GONÇALVES
Como se chama

Fecha-se o pano, a peça terminou.

— P. R. Cunha

«And one more for the road», a solitude etílica

Na última sexta-feira cheguei ao fundo do poço — isto se levarmos em conta os parâmetros de dignidade do Stanislaw Ponte Preta. Quer dizer: fui ao bar sozinho.

A verdade é que poucas coisas na vida são mais românticas/literárias/idealizadas do que ir algures para tomar um trago com a própria solidão.

(O porteiro do meu prédio, ao me ver sair, espantou-se com o fato cinza e com o chapéu: estás parecido com o Frank Sinatra, ele disse. Não precisaria lembrar aos leitores que estamos em pleno século vinte e um. Então este rapaz que vos escreve, que mal chegara aos trinta e poucos, sai para encher a cara com trajes à moda gângster siciliano. Excêntrico…)

Minha ideia, além de, naturalmente, entornar os copinhos, era quem sabe arrumar um canto para rabiscar qualquer coisa sobre a glamourização da escrita. O tipo que pensa: só escrevo quando conseguir uma boa escrivaninha, só escrevo quando a temperatura estiver amena, após o chá, se vistas para o oceano, quando comprar um computador melhor, ao som do jazz, se cadeira com almofadinhas, ao jardim, ou quando o silêncio for absoluto, ou depois de fazer meu jogging, ou com a caneta-fonte de dois mil dinheiros. As exigências que se acumulam do lado de fora. Enquanto a página permanece vazia.

Estava, portanto, num bar e havia pedido uma dose de uísque, e fiz o sinal de dois com os dedos, como faziam os alternativos dos 1960. Dois cubos de gelo, eu disse para a atendente. Ela tinha um dragão estranho tatuado no pescoço — só dava para ver a cabeça e a língua a cuspir fogo.

The Cranberries no sistema de som.

Quando me virei para pegar o copo sobre o balcão, percebi que um amigo acabara de se sentar a uma mesa à esquerda. Não fui falar com ele. A ideia era beber meu uísque em paz, com a minha roupa de Frank Sinatra, com o meu bloquinho de notas, com os meus pensamentos sobre a glamourização da escrita, com o meu fracasso. Mas de vez em quando olhava de soslaio para o conhecido: tinha a cabeça apoiada no braço, comportava-se como se estivesse à espera de alguém.

Alguém que nunca chegou.

— P. R. Cunha