O relógio búlgaro

Bem longe
uma estrela vermelha
a explodir planetas

Lourenço era completamente obcecado por relógios. Ele tinha uns olhos profundos, olhos da cor do Pacífico em tardes tempestuosas. Durante boa parte da vida pagou as próprias despesas com o dinheiro que recebia ao arrumar os cucos das mansões de gentes muito ricas, cujas casinhas de cachorro pareciam amiúde melhores sítios para se dormir do que o próprio apartamento do Lourenço. O apartamento do Lourenço quase nunca tinha água, o gás funcionava dia-sim-dia-não, as baratas desfilavam desimpedidas pelos azulejos deteriorados da cozinha, aqueles bichos cascudos a mastigar as sobras de um pequeno-almoço do mês anterior. O prédio ficava a menos de cem metros de um bordel clandestino administrado por búlgara rechonchuda e lenta chamada Nadejda. Em tempos de vacas magras, como se costuma dizer, Lourenço também consertava o cuco desse bordel clandestino — não era o tipo de homem que ligava para reputações. Organizava a caixinha de ferramentas, vestia o fato-macaco laranja e seguia para ter com a Nadejda, que estava sempre a comer qualquer coisa. Ela apontava com dedos engordurados e dizia: de novo, cuco estraga, cuco quebra, tu consertas. Jeito engraçado de falar, pensava consigo mesmo o Lourenço. O cuco desse bordel era um velho relógio búlgaro com cordas Herweg, o passarinho de madeira que cantava as horas não tinha mais o bico, a pata esquerda coxeava. Cuco mais trabalhoso com o qual já lidei, confessava o Lourenço na própria intimidade.

— P. R. Cunha