Macchiato

Agradável tarde soalheira. Roubalivros Editora, que brevemente lançará o meu livreto de poemas incompletos, convidara-me para tomar um café virtual e conversar sobre miudezas variadas.


[Roubalivros Editora] Não gostas de dar entrevistas?

[P. R. Cunha] Não muito. Mas também não me procuram tanto para dá-las. Então acho que estamos, como se diz, quites.


[R. E.] Fruto de alguma experiência traumática?

[P. R.] Tenho certo pavor de quem fala demais. E tenho mais pavor ainda de ser eu a pessoa que fala demais. Isso ocorre com frequência. Eu falo, e falo, e falo. Acontece que quando falamos demais é porque queremos nos explicar. E a pior coisa que pode acontecer com um escritor de ficção é ser completamente compreendido. Ou compreendido além da conta. Prefiro cultivar a imprecisão, a inconveniência, e isso só é possível se conseguimos manter a distância correta.


[R. E.] A escrita sempre esteve presente na tua vida?

[P. R.] A escrita?


[R. E.] A escrita… Quero dizer: sempre tivestes na veneta a ideia de ser escritor?

[P. R.] Eu queria ser baterista de jazz. Mas acabei baterista de uma banda de post-rock. A banda parou de tocar e me deparei com o diploma de jornalista. Meu plano B era ser jornalista. Percebes como as coisas podem ser absurdas? Daí eu disse que jornalismo não dava. Jornalismo nem pensar. Estou roubado.


[R. E.] E a escrita?

[P. R.] Numa determinada altura o meu pai falou: tens que te meter em qualquer coisa na vida, moleque, não podes ficar debaixo das minhas asinhas para sempre. Papai estava certo. Então comecei a escrever para dizer que estava fazendo alguma coisa. Foi isso. E peço imensas desculpas pela falta de glamour. Comecei a escrever para enganar o meu pai.


[R. E.]
Costumas falar muito dele na tua ficção. Ainda é uma figura marcante para ti?

[P. R.] Acho que quando alguém perde o pai essa perda será sempre marcante. A diferença é que alguns perdem o pai cedo, e outros quando já estão numa idade mais avançada. Quem está numa idade mais avançada e o pai morre, a pessoa meio que joga as mãos para o alto, resignada: ora!, é o curso natural do universo. E a pessoa que está numa idade mais avançada sabe que ela também não tem muito tempo pela frente. Mas se tu perdes o pai aos 24 anos, como foi o meu caso, faz as contas…


[R. E.] Passas boa parte da vida sem pai.

[P. R.] É por aí. Tenho cá um projeto engavetado sobre o breve período em que fui ghostwriter dele. Papai tinha criado uma espécie de boletim de notícias para o hospital urológico que ele construiu e eu escrevia artigos com assuntos médicos. Depois ele assinava os textos e me pagava uma mixaria. Lembro que estávamos num café e um paciente reconheceu meu pai. Foi até à mesa só para elogiar a escrita elegante dos artigos, além de médico um ótimo escritor etc. E meu pai, sem pudores, respondeu que eram frutos de anos de prática, que em breve arrumaria período sabático para se dedicar somente à literatura, essas coisa. Era tudo muito engraçado. Meu pai era um piadista nato.


[R. E.] O projeto já tem título?

[P. R.] Sim. Chama-se: O fantasma do meu pai.


[R. E.] Quando começaste a escrever poesia?

[P. R.] O paradoxo com o qual tenho de lidar constantemente é este: não consigo existir se não escrevo, mas há épocas em que simplesmente não quero escrever. Quero estar algures. Não é falta de ideias, é estar-se saturado. Sou um escritor de ficção, de prosa. Mas se escrever se torna um aborrecimento, o jeito é lidar com as incompletudes, as migalhas, os cacos. De forma que tomo notas mesmo assim, mesmo sem querer, mesmo saturado. As notas precisam de ser curtas, dispersas, desconjuntadas. Quando passo essas notas para o computador, começo a apertar a tecla «ENTER». Organizo os fragmentos em versos. Não saberia te dizer quando foi a primeira vez que fiz algo dessa natureza. Mas são linhas motivadas pelo tédio, pela total ausência de vontades, são pequenos gemidos de socorro, vai lá.


[R. E.] O desafio seria transformar esses gemidos de socorro em algo orgânico?

[P. R.] Mesmo a ideia de transformar sugere uma qualquer edição, ou pelo menos um processo seletivo. De certeza que isto vai parecer um descaso danado, mas não me importo com nada depois que organizo os fragmentos. As escolhas só acontecem no sentido de que fico com os gemidos que gosto mais e jogo fora os gemidos que gosto menos — sem nunca modificá-los. 


[R. E.] Falando nisso, tens conseguido produzir durante a quarentena?

[P. R.] Há cerca de duas semanas recebi ligação de um amigo que também escreve. Ele contou que estava complicadíssimo trabalhar com esta pandemia toda, blá-blá-blá. Eu disse: não me venhas com essa ladainha, deixa de tolices!, Gore Vidal, Capote, Sartre, Simone de Beauvoir, Hemingway e tantos outros continuaram a escrever durante a Segunda Guerra Mundial, com Hitler, com tanques, com a Wehrmacht, com metralhadoras, com bombas sobre as cabeças. Tudo bem se não quer escrever porque está metido em outras atividades menos indecorosas, mas jogar a culpa no vírus parece-me de uma covardia brutal. Já és grandinho o suficiente para lidares com os próprios fracassos, não achas? E agora leio sobre artistas deprimidos que não dão conta de produzir porque o mundo está acabando. Tretas. Sinto informar-lhes, mas o mundo está sempre acabando.

[R. E.] E a literatura sempre a sobreviver ao fim dos tempos.

[P. R.] Taí uma bela frase de encerramento.

Ящик (Yashchik [box/caixa])

PORTUGUÊS

Apresento-lhes Ящик (Yashchik):

Voz, guitarra, sintetizadores / P. R. Cunha
Baixo / Vasily Vasilievich
Sintetizadores / Rafael Mnstr
Bateria / Kalogeropoulos Iraklis

Sítio web: www.yashchik.bandcamp.com

Gênero: sovietwave, post-punk, synth-pop, krautrock

Descrição: às vezes, um auditório vazio soa como um túmulo vazio.

ENGLISH

Ladies and gentlemen, Ящик (Yashchik):

Vocal, guitar, synths / P. R. Cunha
Bass / Vasily Vasilievich
Synths / Rafael Mnstr
Drums / Kalogeropoulos Iraklis

Website: www.yashchik.bandcamp.com

Genre: sovietwave, post-punk, synth-pop, krautrock

Description: sometimes an empty auditorium sounds like an empty grave.


РУССКИЙ

Я представляю вам группу Ящик:

Вокалист, электрогитара, синтезаторы / П. Р. Кунья
Бас / Василий Васильевич
Синтезаторы / Рафаэль Мнстр
Барабаны / Калогеропулос Ираклис

Интернет сайт: www.yashchik.bandcamp.com

Музыкальный жанр: совет-вейв, пост-панк, синти-поп, краутрок

Описание: иногда пустая аудитория звучит как пустая могила.


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