Caderno de viagem: escrever e viajar — ofícios da mesma prática*

Juan Carlos Onetti dizia que o criador/artista precisa de ter a força para viver solitário. Um tipo específico de animal humano que tem a coragem de olhar para dentro de si mesmo, que compreende que não há trilhas para seguir — constrói o caminho à medida que o percorre (como já tivemos oportunidade de ver neste caderno [vide figura do comboio]).

Escrever e viajar: duas viagens.

As odisseias de Homero, as andanças de Ulisses, as raízes da própria literatura vêm dessa vontade, desse desejo… ou melhor, dessa necessidade (sublinhar necessidade) de estar noutro sítio.

O viajante então torna-se filósofo à maneira Nigel Warburton: não se limita a expressar as suas crenças, ele raciocina, define, classifica; uma tentativa constante de ir além das aparências, quer ser desafiado, criticado, sabe que a maioria dos trajetos aparentemente simples não tem uma direção simples.

Quantos romances sobre o mar, sobre as chegadas e partidas em docas atingidas por ondas irascíveis, sobre o faroleiro que avista no horizonte marujos completamente fatigados, mas que a despeito do sopro da morte nunca param. Ahab encontra o cachalote — símbolo marítimo das obsessões do homem. Moby Dick, Herman Melville, acerto de contas com os próprios demônios. 

O oceano: destino dos aventureiros, dos rebeldes, dos insatisfeitos, daqueles que buscavam outra coisa, noutras costas.

A própria jornada narrativa (arco narrativo [para os catedráticos]) — apresentação do protagonista no mundo dos comuns, o chamado para a resolução de alguma dificuldade (desafio), aventura, lidar com algum impasse (algo ou alguém que está a impedir o protagonista de realizar o que pretende), ter de resolver o impasse, buscar a ajuda de algo (porção mágica/armamento/poderes/etc.) ou de alguém (ajudante/tutor[a]/companheiro[a]/justiceiro[a]/sábio[a]/etc.) para resolver o impasse, os objetivos que precisam ser alcançados, o sucesso, o fracasso, as transformações do protagonista no desenrolar da missão, o retorno à casa.

Se lemos, vemos, ouvimos, escrevemos uma história… estamos a viajar.

— P. R. Cunha


*Ironicamente, o autor tem de interromper temporariamente a publicação do Caderno de viagem por motivo de viagem. Feliz 2019!

Quarta nota #6 — terraplanagem, Modiano a ressurgir do ostracismo, expectativas portuguesas e jogar xadrez à guisa de afastamentos melancólicos

§ Há livros que nos fazem querer largar tudo, largar todos; livros que desafiam a relatividade, o tempo, o Einstein. Encontra-os e procura mantê-los por perto.

§ BBC World News — entrevista com um sujeito em mangas de camisa que tenta explicar que a Terra é, em verdade, plana. Numa altura, ele diz à repórter: you’ve got to understand that the Flat Earth Society has millions of members all around the globe (grifo meu).

§ Faltam catorze dias para ir-me a Portugal receber o Prémio Aldónio Gomes, promovido pelo Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro. As possibilidades fotográficas que a terrinha lusitana me proporcionará acalmam um bocadinho este coração, que já não se aguenta de tanta ansiedade.

§ Estavam a conjecturar um bloqueio criativo do Modiano — por conta do Nobel da literatura dois mil e catorze. Paralisia pós-grande premiação, esse tipo de coisa. Mas já saíram as Lembranças adormecidas, livro com retratos de uma Paris fantasmagórica, nostálgica, desaparecida. É a última respiração antes de o mundo se desmoronar, confessa o autor. […]

§ […] «Uma luta contra o esquecimento, um sublinhar dos caminhos redentores da memória e da ficção, é Modiano» — comentário de José Riço Direitinho sobre Lembranças adormecidas.

§ Em 1879, desiludido com os rumos que a própria teoria tomara, Karl Marx lastimou-se: tudo o que sei é que não sou marxista.

§ A saída do Reino Unido da União Europeia apenas demonstra que ainda somos reféns da velha dinâmica imperial: ascensão, apogeu e queda. Bem-vindos, portanto, à nova era — a dos Trumps.

§ O xadrez é uma excelente companhia para homens tristes.

§ Já se sabe em que sítio poisará a sonda espacial da missão Marte 2020: cratera Jezero, com cerca de quarenta e cinco quilômetros de diâmetro, localizada ao norte do planeta vermelho. De acordo com a Nasa, há evidências de que o local já fora preenchido por um profundo lago, delta fluvial capaz de preservar provas de vida. A missão do veículo, com características muito semelhantes às do Curiosity — robozinho que há mais de seis anos explora o solo marciano —, será encontrar carbono e possíveis sinais de micróbios.

§ Acharam 115 copos, palhinhas, quatro garrafas, chinelos, sacos, escovas, potes de sorvete e um milhar de outros objetos — montante a pesar 5,9 quilos — dentro do estômago de uma baleia em estado de decomposição na costa sudeste da Indonésia. E há governantes a garantir que anda tudo limpinho, que o colapso global é trama da esquerda.

— P. R. Cunha